Caso do Paraná intensifica discussão sobre assédio contra mulheres que pedalam em Porto Alegre

Caso do Paraná intensifica discussão sobre assédio contra mulheres que pedalam em Porto Alegre

Importunação faz parte do cotidiano das ciclistas e reflete machismo, sexismo e opressão do carro sobre bicicleta

Correio do Povo

Caso do Paraná intensifica discussão sobre assédio contra mulheres que pedalam em Porto Alegre

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A discussão sobre o assédio às mulheres que pedalam foi intensificada após o recente caso da jovem universitária, de 25 anos, que ficou ferida na queda da bicicleta ao ser atropelada depois que um homem de um veículo passou a mão nela em Palmas, no Paraná. Em Porto Alegre, a cicloativista Tássia Furtado, que faz parte do coletivo Bike Anjo, observou que a importunação acontece normalmente com mulheres andando nas ruas. “Com ciclistas não é diferente. A gente sempre sofreu assédio”, contou. “Eu nunca passei pelo fato de um carro encostar tão perto, mas já passei por motoqueiros tentarem passar a mão na minha bunda”, observou.

Na opinião dela, assobios, cantadas, ofensas e palavrões fazem parte do cotidiano. “Eu caminho diariamente na orla e algum carro passa zoando...pedalando não é diferente. Escuto o tempo todo”, frisou. Ela afirmou apontou também os riscos de atropelamentos vivenciados pelos ciclistas no trânsito. No caso das mulheres, constatou, os motoristas aproximam-se mais os veículos quando são elas conduzindo as bicicletas. “Eles chegam mais perto quando é uma mulher...querem ver mais perto”, resumiu.

“Se eu paro e reclamo..sou tirada para louca”, lembrou Tássia Furtado, referindo-se à atitude dos agressores ao serem interpelados. “A gente não sabe a quem recorrer? Como reclamar””, questionou. Além da Bike Anjo, a cicloativista atua também no coletivo Pedal das Gurias.

Já o cicloativista e advogado Marcelo Sgarbossa confirmou a ocorrência de assédio contra as mulheres que pedalam na cidade. Ele considerou que existem dois fatores geradores do problema. “O homem se acha superior a mulher e quem está no carro se acha é superior a quem está na bicicleta ou a pé”, afirmou. “É uma dupla opressão”, enfatizou.

Marcelo Sgarbossa recordou que o ciclista em geral é tido como alguém que “está atrapalhando o trânsito”, mas para a mulher a situação é pior ainda devido ao “sexismo e machismo”. De acordo com ele, uma das armas de defesa das mulheres é “tornar aquele sujeito alvo de olhares de quem está na volta”, apontando-o verbalmente como assediador.

Para a consultora para políticas públicas de gênero e cidades, Daniely Votto, a mudança de comportamento dos homens passa pela escola, “conscientizando principalmente os meninos e as meninas”. Por outro lado, salientou, é preciso “fiscalização, multa e prisão” junto aos adultos. "É preciso ainda um grande esforço de comunicação dos governos, trazendo também as mulheres para cargos chaves dentro das administrações públicas na hora da tomada de decisões”, acrescentou, propondo uma abordagem multidisciplinar para a questão.

“O que aconteceu com a moça do Paraná é violência sexual e física. Aquilo só aconteceu porque ela era mulher…”, ressaltou Daniely Votto. “Se fosse um homem, eles não iam fazer aquilo. Só aconteceu porque ela era mulher…”, destacou.


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