Com buracos e pedras soltas, calçamento do Centro Histórico vive cenário de abandono

Com buracos e pedras soltas, calçamento do Centro Histórico vive cenário de abandono

Prefeitura de Porto Alegre prevê investimento em obras para reparos e conservação de R$ 12,7 milhões

Felipe Samuel

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Calçadas esburacadas, repletas de remendos, e vias com paralelepípedos em péssimo estado de conservação já fazem parte de uma triste realidade do Centro Histórico de Porto Alegre. Apesar de obras pontuais de revitalização executadas há menos de dois anos, como na Praça da Alfândega, a falta de manutenção no calçamento e nas principais ruas da região revela o descaso dos governos com o patrimônio público.

Por conta disso, muitas vias com paralelepípedos e locais com pedras históricas se encontram abandonadas. Em alguns trechos da Rua da Praia, como na Praça da Alfândega, é preciso atenção para evitar pisar em buracos ou pedras soltas. Há menos de dois anos, a praça passou por intervenções de qualificação no paisagismo e na jardinagem, além da recuperação das pedras portuguesas que revestem o espaço. Na rua Uruguai, o cenário se repete, com calçamento irregular.

Ao longo dos anos, as melhorias na região sempre fizeram parte dos discurso dos postulantes ao Paço Municipal, mas na maioria das vezes as promessas de campanha acabam no esquecimento por motivos variados, como a falta de mão-de-obra especializada (calceteiros) ou de recursos. No começo de junho, a prefeitura anunciou edital de licitação para contratação de empresas para a revitalização do calçadão das ruas dos Andradas e Uruguai e a urbanização do Quadrilátero Central.

Os trabalhos serão financiados com recursos do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), com investimento previsto de R$ 12,7 milhões e prazo de 12 meses para conclusão dos serviços após a data de início das obras. Uma das prioridades, a revitalização do calçadão da Rua dos Andradas ocorrerá nos trechos entre a General Câmara e a Marechal Floriano; e entre a Marechal Floriano e a Dr. Flores.

Secretário reconhece precariedade do calçamento no Centro Histórico

Secretário municipal de Serviços Urbanos, Marcos Felipi Garcia, reconhece que é ruim o estado de conservação do calçamento da Rua dos Andradas, mas afirma que o edital anunciado pela prefeitura prevê reformas nos trechos mais críticos. "O prefeito nos cobra muito essa questão da Rua da Praia", afirma. Garcia explica que a equipe que faz esse tipo de serviço é pequena.  "Temos feito um trabalho importante com a nossa equipe própria, só que é um local que passa veículos pesados, carro-forte, caminhão de loja, e nosso serviço não dá conta, acaba sendo paliativo", assinala.

Além disso, ele reforça que a nova gestão está elaborando licitação para executar obras de passeio, como muro, escadarias, rampas de acessibilidade. Conforme Garcia, um termo de referência está sendo elaborado para contratação de uma empresa. "A ideia é contar com equipes terceirizadas para que a gente possa usar principalmente no Centro Histórico", destaca. O objetivo é firmar um contrato a longo prazo que vigore durante a gestão. "A demanda realmente é alta e a gente precisa. Como a gente não tem servidor suficiente para isso, a gente vai terceirizar esse tipo de serviço", observa.

Ele admite que o calçamento irregular prejudica os usuários. "De fato é um problema a calçada, a gente tem conversado com o pessoal que lidera o  movimento da acessibilidade. Isso dificulta muito, principalmente para deficientes visuais que trafegam por ali. E ainda tem os vendedores, camelôs, mais a calçada em condições ruins", afirma. De acordo com Garcia, as ações da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSURB) vão complementar o trabalho da Secretaria Municipal de Planejamento e Assuntos Estratégicos. "O que eles não conseguirem 'atacar' no Centro, 'atacamos' em outro contrato", frisa. 

A SMSURB informa ainda que a profissão de calceteiro está em extinção no município, mas destaca que ainda "temos uma ou duas pessoas" que realizam algum serviço de emergência. Conforme a SMSURB - que é responsável pela prestação de serviços urbanos e zeladoria, além de executar a conservação e a manutenção de áreas verdes, parques, praças, manejo, a poda e a supressão de arbóreos em áreas públicas - atualmente esses serviços são terceirizados, uma vez que é 'muito difícil conseguir mão de obra especializada'.

Na semana passada, o prefeito Sebastião Melo afirmou que estão previstas melhorias nas vias da cidade. “São 2,8 mil quilômetros de ruas para cuidar. Estamos fazendo uma ampliação do asfaltamento de Porto Alegre. A empresa que faz a manutenção da pavimentação foi trocada. Além disso, entregamos para a gestão privada as duas usinas de asfalto da Prefeitura. A ideia é melhorar as ruas esburacadas da cidade", afirmou. Segundo Melo, a Prefeitura trabalha para recuperar locais o muro da Mauá e o Mercado Público.

Jornalista defende formação de mão-de-obra para colocação de calçamento

Há mais de duas décadas, o jornalista Ayres Cerutti alerta para o descaso de governos em relação à preservação do patrimônio histórico da cidade. Editor da Revista Programa, publicação dedicada ao turismo, Cerutti afirma que ouve reclamações frequentes sobre as condições precárias do calçamento no Centro Histórico. Ele destaca o calçamento de pedras portuguesas da Praça da Matriz, que atualmente passa por melhorias, e da Praça da Alfândega como exemplos de desleixo do Poder Público.

Na avaliação de Cerutti, a falta de profissionais habilitados para a reparação das calçadas poderia ser solucionada com oficinas de capacitação. "Comecei a observar o calçamento em pedra portuguesa, que todo mundo dizia que não tem calceteiro. Se não tem, vamos ensinar, vamos treinar. Mas lamentavelmente não vem acontecendo", assinala. "A calçada feita entre a Catedral, o Palácio e a Praça da Matriz é um trabalho difícil de classificar. Quando estava sendo feito, percebi que o trabalho não estava legal", completa.

Em conversas com representantes da prefeitura, Cerutti reforçou a necessidade criar seminários e oficinas para formação de calceteiro, criando 'uma elite de calçamento'. "Parece que a gente aceitou que não tem solução", completa. Segundo Cerutti, em uma das reformas realizadas na Praça da Alfândega, em 2011, um calceteiro de Goiás foi chamado para executar a obra. "Foi uma oportunidade que se perdeu, pois poderiam criar um grupo de aprendizes junto", justifica.

Como faltam profissionais, muitas vezes os serviços são malfeitos e deixam a desejar. "As pedras têm que ser calçadas, não cimentadas. Em alguns locais, as pedras levam cimentos e têm mais de meio centímetro da outra. Se sai uma desanda tudo", justifica. Em seu perfil na rede social Facebook, as postagens também alertam para a importância do plantio correto das árvores em calçadas, que fazem parte da arborização urbana. "Estou sugerindo a plantação de 250 árvores em comemoração aos 250 anos de Porto Alegre", frisa.


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