Covid-19 deixa gestantes apreensivas e muda planos de famílias
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Covid-19 deixa gestantes apreensivas e muda planos de famílias

Em meio à pandemia, uma gestante de Gravataí deu luz a gêmeos na tarde desta segunda-feira, em um hospital de Porto Alegre

Por
Gabriel Guedes

Fabiano e Taiane, de Gravataí, aliviados com o nascimento dos irmãos Olavo e Otávio, que vieram ao mundo, me meio à pandemia de Covid-19, nesta segunda-feira


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A gestação é um período de muita alegria para as famílias, mas também de uma preocupação extra com a saúde da mãe e do bebê que está em desenvolvimento em sua barriga. Uma série de descompensações fisiológicas, além da mudança do próprio corpo, impactam na saúde e bem-estar da mulher. Na semana passada, o Ministério da Saúde passou a incluir as gestantes e as puérperas, mães de recém-nascidos, na lista do grupo de risco para o novo coronavírus. Recomendação que deixou os futuros pais apreensivos e temerosos. Além disso, o risco de contaminação também os força a adotar medidas um tanto amargas para um dos momentos mais doces da vida. Os novos vovós, que costumam acompanhar os nascimentos e até mesmo a presença de equipes de foto e vídeo dentro do bloco cirúrgico, durante o parto, e os ensaios pré-natal foram suspensos por hospitais e as próprias famílias.

Conforme o comunicado do Ministério da Saúde, grávidas e mulheres que deram à luz recentemente estão mais vulneráveis a infecções no geral e, por isso, agora pertencem aos grupos de risco do vírus. Antes, só a gestação de alto risco era considerada condição para desenvolver casos graves da covid-19. “Estudos científicos apontam que a fisiopatologia do vírus H1N1 pode apresentar letalidade nesses grupos associados à história clínica de comorbidades dessas mulheres. Sendo assim, para a infecção pelo coronavírus, o risco é semelhante pelos mesmos motivos fisiológicos, embora ainda não tenha estudo específico conclusivo”, afirma em nota o Ministério da Saúde.

A jornalista Márcia Christofoli, 35 anos, está na 35ª semana de gestação. Ela e o pai, Felipe Ramires, 36, que trabalha com marketing, juntos há 14 anos, estão esperando o Pedro. “Está tudo absolutamente normal, saudável. Há coisas próprias de uma gestação, como a reposição de vitaminas. Mas eu jamais imaginei viver uma coisa destas, ainda mais com uma gestação na reta final. E as pessoas perguntam sobre a ansiedade nesta reta final. Já sou ansiosa. O bom é que já estou tendo uma escola do que é o puerpério, da solidão”, conta Márcia. Entretanto, mesmo antes de saber dos riscos às grávidas associados à Covid-19, a jornalista já tinha buscado orientações. “Minha médica disse pra ter cuidado, mas que não há riscos comprovados da doença sobre a gravidez. Mas trato de não ter contato com muita gente. Uso máscara, álcool-gel, higienização. Tenho vontade de sair com uma roupa de astronauta”, conta ela, que só deixa a casa em algumas exceções, quando Felipe, por exemplo, está bastante atarefado e não pode ir no mercado. “Estes dias apareceu o rapaz da NET para fazer uma melhoria na nossa internet e aí surgiu a ‘louca do álcool’, passando o produto por tudo depois que ele saiu. Tenho tentado não entrar no grupo da histeria. Se eu entrar nesta paranóia, não vivo minha gravidez”, considera.

Mesmo assim, a pandemia mudou esta forma de viver a gestação. Márcia tem comprado o quarto e o enxoval do bebê pela Internet, falado do dia a dia da gravidez com os pais e sogros por videochamada. “E eles não vão conhecer os netos tão cedo. Quando passarmos por isso, vamos ter história para contar. Mas não se sabe quando isso vai passar. O chá de fralda também foi suspenso. “A gravidez veio com um susto, mas quando começamos a curtir, daí veio esta pandemia. Eu e meu marido estamos preparados para ficarmos sozinhos na maternidade, em casa. Toda esta expectativa sobre a família ruiu”, lamenta Márcia, que espera que Pedro nasça em meados de maio.


Casal ficou conhecendo a gravidade da pandemia pelo trabalho       Foto: Arquivo pessoal


CUIDADOS REDOBRADOS

Ainda não há evidências científicas, até o momento, que apontem gestantes com risco maior de adquirir a infecção que a população em geral, já que as recomendações focam em possíveis complicações. “Com base em outros coronavírus, influenza, se sabe que elas têm um quadro mais grave, então resolveram (o Ministério da Saúde) colocar elas no grupo, preventivamente”, esclarece a médica Ana Selma Bertelli Picoloto, presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Rio Grande do Sul (Sogirgs). Entretanto, até o momento não há nenhum dado concreto de que a Covid-19 seja mais grave nas gestantes do que nas não-gestantes. Dos poucos casos que têm em gravidez, um estudo em Wuhan, aponta que não houve nenhuma transmissão para o nenê, analisando o sangue do cordão umbilical. O que parece que não se sabe, se o vírus é teratogênico, que possa provocar alguma má formação no bebê”, lembra Ana. Em seu site, a Sogirgs orienta as gestantes realizarem medidas de prevenção: lavar as mãos com água e sabão ou usar álcool gel, não compartilhar objetos pessoais, manter os ambientes ventilados e evitar aglomerações. Em Gravataí, o secretário de escola Fabiano Maltez Olmedo, 41, e a professora Taiane Dias de Souza, 40, aguardavam os gêmeos Olavo e Otávio, que nasceram na tarde desta segunda-feira, no Hospital Divina Providência, no bairro Glória, em Porto Alegre. Olavo veio com 44 cm de altura e 2,2 quilos. Já o mano, Otávio, chegou com 46 cm e 2,8 quilos. A gravidez, planejada, transcorreu normalmente. Entretanto, o isolamento social em paralelo a gestação dos irmãos, deixou Fabiano com a incubência da limpeza da casa, mas não é qualquer faxina. “Agora limpo a casa com mais intensidade, como a Taiane faz. Pra mim foi bom, porque aprendi. Estou tentando tirar algo de positivo deste período”, conta o papai. O casal estava em casa desde o dia 18 de março. “Ela só saiu para consultas médicas e eu só para compras de mercado. Não uso máscara no mercado, mas chego em casa e faço higienização das mãos, rosto e dos produtos. Até da chave e fechadura também”, relata. Nesta segunda-feira, tiveram que sair para ir ao hospital. A família também tem se mantido longe de familiares e amigos e as conversas são só pela Internet.

O casal ficou conhecendo a gravidade da pandemia pelo trabalho, quando foi decretada a suspensão das aulas. “A primeira vez a gente ficou bem apreensivo, ficamos acompanhando jornais e rádio e canais oficiais e também através do site da Secretaria de Saúde do município”, conta. Mas se por um lado, praticamente tudo que poderia ser feito para evitar a contaminação por Covid-19 foi aplicado, por outro a ameaça da contaminação fez os familiares conhecerem os gêmeos por foto e vídeo. São os primeiros netos dos pais do Fabiano. Sua irmã e irmão também demonstraram ansiedade pela chegada dos meninos, conta o pai dos garotos. “Até uma sessão de fotos que a gente faria, fizemos em casa mesmo, sozinhos, com pau de selfie. O hospital também cancelou as equipes de foto e filmagem. Por causa desta situação, terão que esperar um pouquinho para conhecê-los pessoalmente”, adianta. 

E AGORA, A AMAMENTAÇÃO?


De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), as puérperas, com boa saúde, devem manter a amamentação utilizando máscaras de proteção e higienização prévia das mãos. A OMS leva em consideração os benefícios da amamentação e o papel insignificante do leite materno na transmissão de outros vírus respiratórios, desde que as condições clínicas permitam. A orientação da presidente da Sogirgs, segue este preceito e recomenda que as mães que pretendem amamentar, estão bem são aconselhadas a fazê-lo, tomando-se os mesmo cuidados higiênicos da OMS. “A transmissão do vírus pode acontecer pelo ar. Por isso se deve tomar os mesmos cuidados que se teria com outras pessoas”, recomenda Ana.