Famílias enfrentam inundação na região das Ilhas

Famílias enfrentam inundação na região das Ilhas

Moradores perdem móveis, enfrentam frio e correm o risco de doenças

Por
Correio do Povo

Moradores enfrentam enchente


publicidade

O drama dos moradores das ilhas do Arquipélago de Porto Alegre vai além das moradias e pátios inundados pela enchente provocada pelos rios que deságuam no Guaíba, vindos de várias regiões atingidas pelas fortes chuvas dos últimos dias no Rio Grande do Sul. Além da perda de móveis e pertences, os riscos incluem fome e frio, além de doenças e até picadas de cobras. A reportagem do Correio do Povo esteve novamente na área na manhã deste sábado.

Ao lado da BR 290, na ilha das Flores, uma família está ilhada no meio da inundação, dividindo o espaço da pequena moradia cuja água já está quase atingindo a soleira da porta. Nela vivem Christian da Silva Lopes, 40 anos, com a esposa, três enteados, um sobrinho e um amigo. “A água começou a subir há quatro dias. Vamos ter de ficar aqui. Não tem como sair pois entram e arrombam a casa”, desabafou. Cinco cães tiveram de ser retirados do pátio e colocados na faixa de terra molhada onde a pista da nova ponte do Guaíba se juntará com a rodovia. Ali, os animais ficaram amarrados em suas "casinhas" para se protegerem e não fugirem. Para levar uma massa cozinha como comida até eles, a família precisa atravessar a inundação, com a água batendo no peito. 

Christian da Silva Lopes contou que a única renda é da esposa com o Bolsa Família. “A gente tem que se virar com o que aparece”, lembrou. Uma alternativa de almoço neste período já foi encontrada. “Já tem peixe no pátio e se botar rede...pega”. Aí ajuda né”, afirmou. Caso a situação se agrave, um antigo Monza que está em um local mais alto, no meio da lama, poderá servir de abrigo para a família. “Sobretudo para as crianças”, frisou.

Na Ilha Grande dos Marinheiros, Márcio José Machado de Castro, 41 anos, calçava botas de borracha com cano muito longo para conseguir atravessar a inundação na rua Nossa Senhora Aparecida.

“É a realidade que a gente tem e agradecer que se está vivo” resignou-se. Ele observou que as obras da nova ponte do Guaíba agravaram a situação da enchente.  “Ficou mais fundo e água corre para outro lado, soltando mais para dentro”, apurou. “Vim buscar minha filha na parada na rodovia”, explicou, segurando um segundo par de botas. “Acabei de matar uma cobra na frente de casa. Elas saem das tocas”, revelou assustado. Já Geminiano Alves, 68 anos, teve a residência também cercada pela água. “Está na cintura”, mediu. “É ruim deixar a casa e arriscar a perder tudo. Vou ficar ali até onde der…”, garantiu.

Segundo o diretor-geral da Defesa Civil de Porto Alegre, coronel Evaldo Rodrigues de Oliveira Júnior, nenhuma família havia pedido abrigo neste sábado. A Escola Alvarenga Peixoto, na Ilha Grande dos Marinheiros, foi preparada para receber os desabrigados. “O poder publico montou a estrutura. A escola tem  capacidade de acolher até 100 pessoas”, ressaltou. “Tivemos uma família removida, mas ela optou por ir na casa de parentes”, recordou. De acordo com ele, o abrigo está pronto e à disposição caso as pessoas queiram sair das residências. “Estamos visitando casa por casa atingida e orientando”, enfatizou. Entre os perigos com a enchente, o diretor-geral da Defesa Civil de Porto Alegre alertou para os choques elétricos devido aos fios dentro da água e doenças advindas da mistura com esgoto e lixo acumulado.


O coronel Evaldo Rodrigues de Oliveira Júnior pediu ainda à população em geral que não encaminhe as doações diretamente nas ilhas, mas que leve até a Central da Triagem da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) na avenida Taquara, 579, no bairro Petrópolis, onde “será dado tratamento” devido à preocupação com o novo coronavírus.