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K-pop rompe barreiras e arrebata fãs no Brasil e no RS

Maior grupo do gênero, BTS confirmou show no Brasil em maio

Por
Helena Ribeiro / Especial

BTS foi indicado ao Grammy neste ano

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O maior grupo coreano de K-pop do mundo anunciou nesta semana um show único no Brasil. A apresentação do BTS será no dia 25 de maio, no Allianz Parque, em São Paulo, com capacidade para 42,5 mil pessoas. Os ingressos começarão a ver vendidos no dia 11 de março, mas ainda não foram divulgadas informações sobre locais ou pontos de venda. Fenômeno cultural asiático que conquista cada vez mais adeptos no Ocidente, o K-pop quebra recordes e impressiona pelas marcas, tanto de engajamento nas redes sociais, quanto financeiras.

O clipe "Idol", do BTS, se tornou o mais assistido em 24 horas no YouTube, com 45 milhões de views. E se o gênero é novidade para alguns, já um velho conhecido do produtor Leonardo da Rosa há cerca de 10 anos. Hoje, com 25 anos, ele se sente feliz em saber que o estilo que tanto gosta não para de crescer. “Eu sempre gostei de cultura asiática. Ver uma cultura totalmente diferente da nossa se tornando aos poucos mainstream, pra mim, é mostrar que o adolescente que eu era não era tão estranho”, diz sorrindo.

Também entre os milhares de fãs desta nova febre está a estudante Maria Fernanda Scheffer. Aos 15 anos, um dos seus artistas favoritos é justamente o BTS. “Por mais que a gente tenha um “bias” (membro preferido de um grupo), acho que todos os garotos têm algo de especial. Eles são bem reais, realmente mostram as emoções que eles estão sentindo naquele momento”, justifica.

O BTS foi formado por Jin, Suga, J-Hope, RM, Jimin, V e Jungkook em 2013. Além do sucesso na Coreia do Sul, o grupo também participou de premiações americanas e tornou-se o primeiro expoente do K-Pop a alcançar a primeira posição na Billboard 200.

Neste ano, o grupo concorreu na categoria Best Recording Package (melhor pacote de gravação) do Grammy, com o disco “Love Yourself: Tear”. De modo geral, não é uma das categorias mais importantes da noite, por ser mais técnica, mas é um marco para a música coreana, que pela primeira vez recebeu uma indicação na maior premiação da música mundial.

Origens

Entretanto, a história do K-Pop começou bem antes do sucesso estrondoso causado pelo BTS. O estilo teve suas origens na década de 1990, quando a Coreia do Sul ficou mais aberta para a cultura ocidental. Um dos pioneiros nesse novo gênero foi Seo Taiji & Boys, lançado em 1992. Mais tarde nesta mesma década, os fenômenos H.O.T e Sechs Kies popularizaram a criação de bases de fãs entre os adolescentes coreanos e tornaram o estilo musical não só uma febre nacional, mas também uma parte importante da economia do país.

De lá para cá, o K-pop se espalhou primeiro pelos países vizinhos da Ásia, como Japão e China, até que nos anos 2000 invadiu também o Ocidente com a chamada onda coreana, ou Hallyu. Foi também nessa época que Gabriela Borges, ou Maki, como gosta de ser chamada, 21 anos, conheceu e se apaixonou pelo estilo musical. “Eu comecei a gostar em 2009 quando conheci Kara (um grupo feminino sul-coreano) e fiquei viciada na música delas. Daí começou a bombar a música ‘Gee’ (Girls Generation) e eu peguei toda aquela onda de K-pop”, recorda.

Além da música, o movimento Hallyu também popularizou outros aspectos da cultura pop coreana, como os manhwa (histórias em quadrinhos) e os dramas (séries da televisão), que atualmente têm títulos presentes o catálogo da Netflix no Brasil. “Oh My Ghost”, “Hello My Twenties”, “Strong Woman Do Bong Sun” são algumas das produções mais famosas disponíveis na plataforma de streaming.

Fórmula do sucesso

Um dos aspectos do K-Pop que pode explicar tanto sucesso é a versatilidade e a estética, pensadas nos mínimos detalhes para agradar o público. Ao longo da carreira de um grupo, as possibilidades musicais são infinitas. Nas canções, pode-se encontrar referências do pop, do rock, do hip-hop e do jazz, tudo isso em conceitos que podem ser fofos, retrô ou casual.

Aliado à sonoridade, outro fator importante para o triunfo do gênero é o visual colorido e os vídeos bem produzidos. Isso porque a música popular coreana não é somente uma experiência auditiva, mas também visual. “A música fica na tua cabeça, ela gruda. Os vídeos são todos coloridos, bem diferentes do que a gente vê aqui no Brasil ou nos Estados Unidos. Os efeitos audiovisuais são maravilhosos”, comenta Maria Fernanda.

Maki, no entanto, considera cativante as danças elaboradas e sincronizadas que os grupos apresentam junto com os vocais. “Eu sou muito apaixonada pelas coreografias. Eu conheço os grupos mais pela dança do que por qualquer outro meio. Até os videoclipes eu não assisto tanto quanto eu assisto aos dance practice”, destaca se referindo aos vídeos que os artistas postam ensaiando suas performances.

Gabriela Borges, a Maki, destaca as danças do K-Pop. Foto: Bruna Moreira / Divulgação / CP

A indústria

Para que toda a fórmula do K-pop seja possível, existe uma grande indústria trabalhando por trás. Liderados pelas três grandes empresas do ramo - SM, YG e JYP -, são criados dezenas de grupos anualmente. Neste processo, as agências selecionam os artistas para serem treinados em canto, dança e entretenimento, muitas vezes por anos, para atingirem a perfeição. Só depois são lançados oficialmente.

“As pessoas treinam desde adolescentes, pré-adolescentes, para poderem ser considerados artistas. É o estilo de vida que é muito diferente do nosso. A forma como eles constroem o mercado da música e do entretenimento é muito pontual, é tudo muito regrado. Tudo tem seus limites, cada um tem a sua função”, explica Leonardo. Entre essas regras necessárias, até mesmo a vida pessoal dos “idols” - como são chamadas as celebridades coreanas – é afetada. Para ser um artista na Coreia do Sul, é preciso ter conduta e aparência impecáveis, além de não poder assumir namoros.

Para Maki, o motivo dos grupos serem bons nos dias de hoje é justamente o sistema de treinamento. No entanto, reconhece que há pontos negativos. “Também entra no problema de questão de estética, de dietas absurdas e de gente ser tirada de grupo porque não é bonita o suficiente. Isso considero uma falha”, comenta sobre as regras impostas pelas agências que treinam os artistas.

Por outro lado, Leonardo ressalta que a Coreia está cada vez mais aberta para as diversidades, principalmente em questão de padrões de beleza e igualdade de gênero. “Acredito que aos poucos eles vão modelando isso, mas a garra de construção, de trabalho deles, ainda deve ficar. Acho muito importante. Torna eles diferentes”, complementa.

Da Coreia para o Brasil

Apesar de o Brasil ficar a 17.594 quilômetros do país asiático, isso não é um impedimento para os fãs amarem e acompanharem assiduamente os grupos coreanos. Nem mesmo as 12 horas de diferença entre os horários locais. “Como os clipes são lançados às 6h (18h na Coreia), é bem o horário que eu acordo pro colégio, então é perfeito. Eu acordo de manhã e já começo com o pé direito”, conta Maria Fernanda, rindo.

Para o fã brasileiro, um dos maiores desafios é o idioma, já que é necessário esperar por traduções e legendas para entender o significado das músicas. Porém, Maki garante que isso não é um grande problema e, por vezes, pode se tornar uma forma de aprendizagem. “Tu ouve tanto K-pop que já consegue pegar algumas coisinhas e aprender coreano (risos). Eu cheguei a pegar esses livros ‘Korean for beginners’, daí eu aprendi um pouco”, conta.

Com toda essa imersão em um novo estilo musical e em outra cultura, é normal que os fãs acabem colocando seus idols favoritos como parte de sua rotina, sempre procurando mais informações. “Acordo e vou dormir pensando em K-pop”, diz Leonardo. “Antigamente só gostava da música. Agora, com o K-pop passei a acompanhar não só a música, que pra mim ainda é o mais importante, mas também o estilo de vida, o que eles fazem e o que eles falam”, completa.

E o impacto foi tão grande para Leonardo que hoje ele atua em diversos projetos relacionados ao K-pop. Ao longo desses 10 anos como fã, já trabalhou como revisor-chefe e tradutor em site de notícias sobre K-pop e legendou dramas coreanos para a antiga plataforma de streaming DramaFever. Atualmente, é produtor da festa “Black Cherry K-party”, ao lado do sócio Fabiano Severo. Voltado exclusivamente para o público admirador do estilo musical, o evento teve sua primeira edição de 2019 no dia 15 de fevereiro.

Fabiano Severo e Leonardo promovem a festa "Black Cherry K-Party". Foto: Larissa Coiro / Divulgação / CP

Além disso, Leonardo também é um dos administradores do K-Pop RS, que surgiu em 2011 com o objetivo de abrir espaço para quem gosta ou quer conhecer mais sobre o gênero no Rio Grande do Sul. Promovendo encontros entre fãs e espaços de dança em eventos de cultura asiática, a iniciativa se tornou uma aliada para diminuir a distância entre os dois países. “Fica mais fácil de encontrar as coisas. E ajuda a aproximar, tu conhece outras pessoas que gostam”, comenta Maria Fernanda, que também frequenta esse tipo de atividade.

De acordo com Leonado, tanto o público da festa quanto o dos eventos do K-pop RS aumenta a cada ano. “Conheço meu público. Aí chego e penso ‘meu deus tanta gente que eu nunca vi na minha vida’. Tem muita gente escondida que é fã de K-pop e a gente encontra muito isso nas festas e nos eventos”, comenta.

Dança é um dos maiores atrativos

Nesses eventos, uma das principais atrações são os grupos covers. Os administradores chegam a preencher cronogramas de cerca de três horas, com mais de 20 apresentações em diferentes categorias. “A gente se diverte bastante. Por mais que tu não dance perfeitamente, todo mundo ali vai te aplaudir, vai te fazer sentir como um idol, fazer te sentir bem no palco”, conta Maria Fernanda sobre a experiência de ter dançado com mais três amigas, com o grupo Dark Roses.

Entre os fãs de K-pop isso é uma atividade bem comum. Em Porto Alegre, os grupos covers costumam ensaiar várias horas por dia toda semana, geralmente em casa ou na Casa de Cultura Mario Quintana.

Maki também se apresenta nesses eventos, às vezes como solista e outras com os amigos do Desire Dance Team. Isso tudo também fez com que ela começasse um canal no YouTube onde posta covers e coreografias originais. Em meio a essa brincadeira, ganhou concursos, incluindo um internacional pelo cover de “Wonderland”, do grupo feminino Gugudan. “Eu fiquei muito feliz. Eu gosto muito da Se Jeong e apareceu ela no vídeo falando e falando de mim! Eu fiquei em choque”, conta.

Depois de tanto tempo dançando, Maki resolveu levar essa paixão adiante. Hoje ela é estudante de Dança na UFRGS e professora de K-pop no estúdio Carol Dalmolin. “Antes eu dançava de vez em quando, fazia umas aulinhas aqui e ali. Depois do K-Pop acho que o negócio do cover me pegou de vez. Comecei a me sentir bem fazendo isso e hoje em dia é o que eu faço”.

Com cerca de 25 alunos, em turmas infanto-juvenil e infantil, Maki descreve a experiência como algo “incrível”. Nas aulas, ela costuma ensinar coreografias de músicas recém-lançadas, ou de grupos mais antigos que tiveram papel importante na história do gênero, sempre oferecendo uma base em danças urbanas. “Vou mesclando as coisas que eu sei que eles querem aprender com as coisas que eu acho que são importantes que eles aprendam. Esse auxílio que eu estou dando é algo que eu queria ter tido. Como peguei essa onda do K-pop muito no começo, nem era possível imaginar que escolas de dança iriam estar ensinando isso”, explica.

K-pop no Brasil?


VAV faz show em Porto Alegre nesta semana. Foto: Divulgação / CP

Apesar da confirmação do show do BTS, o Brasil ainda não é um dos principais mercados visados pelas agências coreanas. "É muito longe e, às vezes, essa conta para eles não é interessante ou vantajosa. Mas a gente tem lutado para que o mercado possa crescer de forma positiva na visão das empresas coreanas", explica Babi Dewet, que além de produtora de shows e eventos de K-pop também é apresentadora e uma escritora conhecida entre os fãs, principalmente pelo seu canal no YouTube e pelo livro "K-Pop - Manual de Sobrevivência: Tudo o que você precisa saber sobre a cultura pop coreana".

“É importante a gente entender que os dois mercados (brasileiro e coreano) são muito diferentes e que por isso muitas vezes as negociações - principalmente com grupos grandes - não são finalizadas”, salienta Babi. Segundo ela, as tratativas para trazer grupos para o Brasil geralmente partem de produtoras brasileiras e a principal dificuldade segue sendo a falta de investimento por parte das grandes marcas, que ainda não enxergarem o K-Pop como um mercado para patrocínio.

Atuando no ramo profissionalmente desde 2012, Babi já perdeu as contas de quantos eventos participou, seja na produção, ou como imprensa para o seu canal do YouTube ou para o programa “Ponto K-pop”, ou como fã. Entre os mais marcantes, ela cita o show do Lunafly, do Mamamoo e a entrevista com um dos seus grupos preferidos, o SF9, além da apresentação do show do BTS em 2014.

"É sempre uma experiência muito satisfatória e divertida por termos a oportunidade de realizarmos os nossos próprios sonhos e os sonhos dos outros fãs pelo Brasil", conta.

De acordo com ela, é comum que os integrantes dos grupos já cheguem ao Brasil com uma ideia de que o público daqui "é um dos mais animados e que tem uma resposta muito positiva nos shows". "Os grupos conversam entre si, então eles têm uma noção. Fora que, por ser uma cultura completamente diferente, eles ficam sempre muito felizes quando vêm para cá", destaca.

Neste ano, a agenda de K-Pop no Brasil teve início com a turnê do grupo Oh My Girl. O próximo grupo a se apresentar por aqui serão os meninos do VAV, que inclusive farão show em Porto Alegre nesta quinta-feira. A outra turnê, que também está marcada e passará por quatro cidades brasileiras, é a das meninas do Buster, entre março e abril.

Glossário do K-Pop:

• Comeback: novo lançamento
• Disband: encerramento das atividades de um grupo
• M/V: abreviação para “music video”, em português videoclipe
• Sub Unit: pequeno grupo formado por alguns membros de um grupo principal
• Ultimate Bias: idol preferido entre todos grupos e solistas
• Maknae: membro mais novo de um grupo
• Sunbae: senior, uma pessoa que está em uma posição elevada em algo (um ano a mais na escola, ou que debutou primeiro no mundo artístico)
• Hoobae: junior, alguém abaixo de sua posição como estudante ou profissional, ou que debutou depois como artista, por exemplo.
• Oppa: forma que uma menina chama um menino mais velho em relações próximas (irmão, amigo, namorado)
• Unnie: forma que uma menina chama uma menina mais velha em relações próximas (irmã, amiga, namorada)
• Hyung: forma como um menino chama um menino mais velho em relações próximas (irmão, amigo, namorado)
• Noona: forma como um menino chama uma menina mais velha em relações próximas (irmã, amiga, namorada)
• Dongsaeng: forma como se refere a um irmão/amigo mais novo (serve para os dois gêneros)