Lista de espera por doações de órgãos chega a 50 mil pessoas entre 2019 e 2020

Lista de espera por doações de órgãos chega a 50 mil pessoas entre 2019 e 2020

Painel “Da doação ao transplante” discutiu o tema em um ano marcado pela pandemia da Covid-19

Sidney de Jesus

A chegada da Covid-19 gerou queda do número de pessoas na entrada em lista

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Em 2020, a lista de espera por órgãos chegou a 50 mil pessoas e houve queda na taxa nacional de doadores em 12,7% entre 2019 e 2020. É a primeira vez que a lista de espera alcança este número. Ingressaram na lista em 2020, 26.359 adultos e 1.220 pediátricos (até 18 anos), enquanto em 2019, ingressaram 39.469 adultos e 1.194 pediátricos. Morreram 2.709 adultos e 56 crianças, em 2020, enquanto no ano anterior faleceram 2.484 adultos e 77 crianças. A chegada da Covid-19 gerou queda do número de pessoas na entrada em lista, porque os pacientes procuraram menos por atendimento em saúde temendo contrair o novo coronavírus.

No Rio Grande do Sul, em 2020, ingressaram na lista 1.311 adultos e 90 pediátricos e morreram 107 adultos e seis crianças. Em 2019, foram 2.330 e 136 pediátricos e morreram 112 adultos e 12 crianças. O número de doadores efetivos em 2020 no Estado foi de 182 para transplantes de rim, fígado, coração e pulmão e, em 2019 foi de 243 para transplantes de rim, fígado, coração e pulmão. 

“O ano de 2020 foi difícil para todos, mas foi ainda mais devastador para alguns grupos, como os transplantados e os pacientes em lista para transplante. Esperamos que a vacinação possa mudar esse quadro, de um ano que não deve ser esquecido. Cuidem-se e vacinem-se”, recomendou o presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), Valter Duro Garcia, ao apresentar o relatório do ano passado.

“O transplante se tornou uma vítima do seu próprio sucesso. O êxito desse procedimento fez com que fossem expandidas as indicações. Infelizmente, no entanto, a oferta de órgãos para transplante não aumentou na mesma proporção”, afirmou a médica da emergência do Hospital Tacchini e da UPA de Bento Gonçalves, Larissa Lemos Karsburg, durante o painel “Da doação ao transplante”, transmitido de forma virtual pelo facebook da Fundação Ecarta e do Coletivo de Proteção à Infância Voz Materna.

Ao falar sobre o processo de doação e transplante, Larissa destacou que é um procedimento médico composto por uma série de etapas que transformam os órgãos de uma pessoa falecida em órgãos suscetíveis de serem transplantados. “Não existe transplante sem a doação. O processo inicia com a identificação de um potencial doador e finaliza com o transplante ou armazenamento dos diferentes órgãos ou tecidos removidos”, explicou a médica, lembrando que “quando se fala doação de órgãos, se fala de pacientes com morte encefálica”.

De acordo com a médica, a entrevista familiar é muito importante para autorização da doação de órgãos para transplante. Ela destacou que o sucesso passa pela técnica e habilidade do entrevistador em acolher os sentimentos da família enlutada.

“A entrevista não deve ser um processo de convencimento. A estratégia é oferecer a oportunidade de transformar a tragédia da perda do ente querido em um ato nobre de doação, mas a decisão sobre a doação é dos familiares”, ressaltou Larissa. Ela ainda  lembrou que podem autorizar a doação os parentes de primeiro ou segundo grau ou cônjuges, na presença de duas testemunhas. 

Segundo ainda a médica, das 5.447 entrevistas realizadas com as famílias em 2020, 42% terminaram em negativa familiar. “Infelizmente muitas famílias ainda têm a dificuldade de aceitar a morte encefálica ou dizem que o paciente não era doador em vida”, revelou Larissa Kasburg, lembrando que o processo é feito com transparência e as famílias devem ser avisadas quando o diagnóstico da morte encefálica estiver completo, para poder autorizar ou não o transplante.

Moradora de Londrina (PR), Carolina Camilo, revelou que sua família doou as córneas e a válvula do coração do seu pai que morreu por causa de um AVC isquêmico. Ela lembrou que a decisão foi difícil, mas ajudou outras pessoas que aguardavam doações de órgãos. “Tivemos o acolhimento da equipe médica e aceitamos a oportunidade de doar como um presente”, afirmou.

“Sou um privilegiado de ter nascido na época da evolução da Medicina. Se tivesse nascido há 50 anos não estaria vivo”, revelou o transplantado Diogo Valente, de 36 anos, que recebeu um coração em 2018. “O transplante de órgão é uma maravilha no presente e continuará sendo no futuro. Eu estava quase morrendo e ganhei um coração saudável. Não podemos julgar quem quer ou não doar, mas a doação mudou a minha vida”, afirmou.

Aguardando na fila há três anos pelo transplante de pulmões, Rochelle Benites, de 40, mantém o otimismo de receber uma doação e voltar a ter uma vida normal.  Ela acredita que a doação e o transplante são a esperança de todos que precisam de algum órgão para continuar vivendo. “Tenho uma fibrose nos pulmões, que prejudicam a minha respiração de forma agressiva. Minha capacidade pulmonar está muito comprometida e faço uso de oxigênio. Tenho muita fé ainda em ser agraciada com o transplante, pois todo o dia é um novo amanhecer e eu preciso estar viva para cuidar dos meus três filhos”, afirmou Rochelle, que faz vídeos pedindo doação de órgãos. 

Óbitos

A doação é possível apenas nos casos de Morte Encefálica (ME), que é a perda definitiva e irreversível de todas as funções do tronco cerebral. Do total de óbitos no país, apenas 1% tem diagnóstico de ME. Deste percentual, somente 53% autoriza a doação.

A ME ocorre apenas dentro de uma Emergência ou de uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), após protocolos e exames padronizados pela resolução 1.480/97, do Conselho Federal de Medicina. São feitos exames clínicos por dois médicos capacitados e um exame de imagem, com intervalo de algumas horas, que comprovam a inatividade elétrica e metabólica irreversíveis na cabeça.

Após o diagnóstico definitivo e oficializado no atestado de óbito, a família é entrevistada por uma equipe capacitada, oferecendo acolhimento e informando sobre o direito e a possibilidade da doação de órgãos do familiar. A única maneira para ser doador é avisar a família que terá maior serenidade em tomar a decisão nesse momento crucial e doloroso. O Brasil é o país com o maior sistema público de transplantes. O principal motivo para a não doação de um órgão é a negativa familiar.

Os órgãos e tecidos que salvam vidas são coração, pulmão, fígado, medula óssea e pele. Os que ajudam a melhorar a qualidade de vida são rim, pâncreas, córneas, ossos e válvulas cardíacas.

De acordo com profissionais da saúde que trabalham com transplantes, a negativa de doação muitas vezes ocorre por desconhecimento ou por nunca terem falado sobre o assunto. Também reduz devido aos doadores portarem doenças que inviabilizam a doação, como câncer com metástase, portadores de HIV e doenças infectocontagiosas.

DA DOAÇÃO DE ÓRGÃOS AOS TRANSPLANTES

O projeto Cultura Doadora em parceria com o Coletivo de Proteção à Infância Voz Materna realizam uma palestra aberta sobre doação de órgãos e tecidos e transplantes. Palestrante: Larissa Krasburg - Médica Convidados(as): Carolina Camilo - Família Doadora Diego Valente - Transplantado de Coração Rochelle Benites - Lista de Espera de Pulmões Ao final o público poderá fazer perguntas à palestrante e aos convidados. Transmissão pelo Facebook: Coletivo de Proteção à Infância Voz Materna e Cultura Doadora

Publicado por Coletivo de Proteção à Infância Voz Materna em Quarta-feira, 12 de maio de 2021

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