Mamães-Noéis da vida real: três mulheres que fazem a diferença

Mamães-Noéis da vida real: três mulheres que fazem a diferença

Conheça a história de pessoas que se dedicam o ano inteiro a ajudar sem esperar nada em troca

Giullia Piaia*

Nara Sonallio começou a ajudar crianças em 2015, nas Ilhas

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Elas não têm barba branca, nem usam vermelho ou andam de trenó, mas têm qualidades que as aproximam do bom velhinho que distribui presentes às crianças de todo o mundo em ato de generosidade e caridade. Muito antes das dificuldades trazidas pela pandemia, elas já se dedicavam a ajudar a quem precisa o ano inteiro. O Correio do Povo conta nesta sexta-feira a história de três mulheres que se dedicam a fazer a diferença na vida de outras pessoas, verdadeiras Mamães Noéis.

Viciada em fazer o bem

Era outubro de 2015 quando Nara Sonallio decidiu ajudar as crianças das ilhas de Porto Alegre pela primeira vez. Enchentes haviam atingido a cidade e o arquipélago foi especialmente prejudicado. Mais de 100 famílias da região que tiveram suas casas inundadas foram alojadas no Ginásio Municipal Tesourinha. Nara se voluntariou e trabalhou por 22 dias junto à Defesa Civil e à prefeitura no auxílio às famílias. Quando a chuva passou e as águas baixaram, as famílias voltaram para as ilhas. "Pensei, preciso ver essas crianças de novo. A Aninha, a Júlia, a Kimberly, a Jenifer, queria ver elas", lembra. 

Para o Natal do mesmo ano, Nara organizou uma campanha entre seus amigos e arrecadou brinquedos para levar às crianças. "E viciei. Voltei lá em janeiro, depois na Páscoa, na Vila Nazaré, e fui buscando mais lugares que precisavam de ajuda. Aí que eu fui entender onde estão as vilas e comunidades de Porto Alegre que precisam de ajuda e são incontáveis as crianças que precisam de doação", lembra. No início, Nara se preocupava em levar mais cor para as crianças. "Elas têm uma vida tão transparente, porque parece que ninguém enxerga elas", explica. Então, nas primeiras ações Nara levava brinquedos, mas depois entendeu que as famílias tinham outras necessidades. Fraldas, leite, biscoito, roupas, material escolar foram e ainda são os itens doados em grandes quantidades em diversas ações ao longo do ano, além de doações de colchões, geladeiras, fogões e outros eletrodomésticos. 

Foi no Tesourinha que Nara conheceu Michele Guerini, advogada, que se juntou a ela nas ações seguintes. Com a demanda crescente de doações e das ações comandadas por Nara, Michele foi quem sugeriu a regularização das atividades voluntárias, com criação de um CNPJ e de um departamento jurídico. Assim nasceu o Instituto Criança Mais Feliz.

Nara, Michele e outras voluntárias separam as doações para o Natal. Foto: Ricardo Giusti

O Instituto já atendeu mais de cem comunidades em Porto Alegre e região metropolitana, além de famílias da serra gaúcha, totalizando mais de 25 mil crianças tocadas pelas ações. Só durante a pandemia foram entregues mais de 25 toneladas de mantimentos. "Alimento que, na verdade, quem deveria estar entregando era o setor público. Então a gente atende buracos, ou melhor, crateras, que o governo deixa", pondera Nara. Com a inexistência de políticas públicas voltadas às famílias que atende, a fundadora do Instituto Criança Feliz tomou para si tentar melhorar a vida dessas pessoas. "É um problema tão gigante que é difícil de entender onde se desata esse nó. E é tanta tristeza. Nós entramos em comunidades em que pensamos 'isso é insalubre, isso não é vida'", relata.

Um caminhão de doações para ação de Natal do Instituto. Foto: Luis Ventura / Instituto Criança Mais Feliz / CP

Mas ter tamanha responsabilidade não é fácil. Nara deixou de lado sua carreira como produtora audiovisual para se dedicar integralmente ao instituto. Além de estar 24 horas ao dia à disposição das famílias que dela necessitam, foi preciso se adaptar à diminuição de renda. É uma grande sobrecarga. "Eu já pensei em parar, mas não dá", se emociona. "Muitos me dizem 'Nara, tu tens que ter vida além da ONG', mas isso aqui é vida pra mim", declara. O instituto busca ajuda, seja do setor privado ou público, para continuar sua operação. Atualmente sem sede, Nara e os mais de 150 voluntários, em sua maioria mulheres, dependem de lugares que cedam um espaço para que guardem e organizem as doações, o que está longe de ser o ideal. "Nós temos planos muito maiores. Não queremos apenas uma sala para 'jogar' as doações. Queremos ter um espaço para receber as crianças, com espaço para que brinquem e aprendam. Precisamos de uma sede", salienta.

Mesmo em meio há tantas dificuldades, Nara e os demais voluntários seguem na batalha pela manutenção do instituto. A criação legal da ONG, com CNPJ, foi feita, inclusive, pela necessidade de receber doações. "É uma das poucas certezas que eu tenho: saber que eu não vou parar com o Criança Mais Feliz. Eu quero uma sede, uma estrutura para receber as doações. Que a mãe quando venha retirar a doação possa receber atendimento psicológico. Que as crianças tenham uma biblioteca para ler", reivindica.

Cestas básicas, brinquedos e panetone foram entregues em comunidades no Lami. Foto: Luis Ventura / Instituto Criança Mais Feliz / CP

Voluntariado é a rotina da Pipi

Renilsa Dalla Costa, mais conhecida como Pipi, chegou a Porto Alegre em 2016. Vindo de sua terra natal em Fortaleza, Ceará, veio acompanhar a filha caçula que faria residência em medicina na Santa Casa de Misericórdia. Já aposentada, a cearense tratou de procurar uma nova ocupação logo que chegou. "Minha vontade era de fazer trabalho voluntário. Eu nunca tinha feito, mas tinha muita vontade", recorda. Após um período em que buscou organizações para se voluntariar, Pipi não encontrou apenas uma, mas várias. E se voluntariou em todas. De segunda a sexta-feira, ela se dividia entre diversas organizações, onde fazia trabalhos de costura, cozinha e organização. 

Com a chegada da pandemia, muitas delas cessaram suas atividades e, por conta disso, Pipi focou esforços em seu trabalho no Centro Ítalo Brasileiro de Assistência e Instrução às migrações (Cibai Migrações). Atualmente, passa seis dias por semana no centro, se dedicando, principalmente, à doação de roupas para migrantes que chegam à organização. 

Pipi organiza todas as roupas doadas no Cibai. Foto: Guilherme Almeida

Pipi chega diariamente por volta das 8 horas no centro e já começa a fazer a triagem de todas as roupas que ali chegam para a doação. Chegam muitos sacos, com vários tipos de vestuário misturados, às vezes com peças sujas, rasgadas. "As pessoas não têm noção do que é doar", se queixa. Mesmo com a grande quantidade de roupas doadas ao centro, faltam peças para repassar aos migrantes que necessitam. "Todos os dias passa muita gente por aqui", observa Pipi. Em um período de dez meses, entre janeiro e outubro de 2021, foram doadas 30.802 peças de roupas, beneficiando 2.906 pessoas. Uma média de mais de 3 mil roupas por mês.

Muitos dos migrantes vêm de países de clima quente, como Haiti, Senegal e Venezuela, onde o inverno é praticamente inexistente. Em solo brasileiro, vão ao Cibai em busca de roupas de inverno. "Eu também quando cheguei sentia muito frio", se identifica Pipi. Pensando nisso, também são doados cobertores e mantas, afora outros itens como cestas básicas, máscaras de proteção e pacotes de fraldas.

Além da doação de roupas, Pipi trabalha na recepção do Cibai, ajudando na triagem dos migrantes que vêm ao centro pela primeira vez, monta as cestas básicas para doação, é professora de costura dos migrantes e ajuda no que mais for preciso. Mas a voluntária não se vê como alguém que faz algum tipo de trabalho ou esforço extraordinário. "Eu estou fazendo milagre com o santo dos outros. A única coisa que eu dou é o meu trabalho, não é nada demais", fala com modéstia.

Um dia mágico

Gicele Santos é professora no Grupo Educacional Uninter. Profissão que, por si só, já exige uma certa dose de altruísmo para que seja executada com excelência. Ao notar a dificuldade de seus alunos, ou filhos, como costuma chamá-los carinhosamente, com a confecção do trabalho de conclusão de curso (TCC), em 2016 Gicele criou a oficina TCC Sem Dificuldades. Mais de 400 alunos já participaram. "A oficina tem dois propósitos: a desconstrução das dificuldades com o TCC e o lado social", conta a professora. O pagamento pelos atendimentos da oficina é feito com brinquedos, que são, ao final do ano, doados em uma grande festa de Natal para crianças carentes.

A festa de 2021 foi para crianças caingangues. Foto: Alina Souza 

Em 2021, os brinquedos foram entregues por Gicele e 30 de seus alunos em três aldeias indígenas na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. "As comunidades indígenas mexem  muito comigo por ter uma cultura belíssima que não é valorizada. Então apresentei a ideia aos meus alunos e eles gostaram", lembra Gicele. No dia 12 de dezembro foi feita então uma grande festa para cerca de 200 crianças das etnias caingangue, com brinquedos infláveis, contação de histórias, visita do mascote da oficina Sr. TCCoelho que entregou os presentes, lanches nutritivos, guloseimas e muito afeto. "Nesse dia eu vivi o Natal na sua essência. Um Natal de amor. Um Natal da beleza do sorriso das crianças", valoriza.

Sr. TCCoelho entregou os presentes de Natal. Foto: Edivan Rosa / Divulgação / CP

Crianças da aldeia guarani não puderam se fazer presentes no evento, pois havia um caso de Covid-19 na aldeia. Ainda assim, a professora foi até eles para entregar os presentes. "Lá eu fui impactada, percebi que é uma comunidade que precisa de muito mais", observa. Gicele e os alunos já organizam, junto ao cacique e a Unidade de Saúde Indígena, uma nova ida à aldeia, dessa vez na Páscoa, para organizar uma festa só para os guaranís. "Eu percebi naquelas crianças que eles precisam de mais carinho, isso mexeu muito comigo e com meus alunos, por isso quero voltar", justifica.

Além da festa na Páscoa para os guaranis, Gicele planeja uma ida a uma casa de acolhimento para idosos. "Será um dia especial para idosos. Com baile, corte de cabelo, fotografias e, o mais importante, ouví-los", realça. 

Em anos anteriores, as doações foram feitas para crianças e adolescentes em abrigos, sempre levando alegria à pessoas em situação de vulnerabilidade. Gicele considera que a festa do dia 12 foi um bom fechamento do período pândemico, "algo mágico" em suas palavras, visto que em 2020 não foi possível entregar os presentes, por conta da Covid-19. 

Todos os alunos participaram da ação de uma forma ou outra, porém alguns foram além. Uma das alunas fez uma doação em dinheiro para o aluguel dos brinquedos infláveis, o valor necessário foi completado por Gicele. Os lanches foram doados pela família de outro aluno. "Eu não aceito que me digam que não podemos fazer nada sozinhos. Se apenas uma pessoa me ouvir, nós formamos um grupo e juntos podemos fazer a diferença. E o nosso mundo está precisando de pessoas que queiram fazer a diferença", assinala. 

Gicele e o vice-cacique Moisés da Silva. Foto: Edivan Rosa / Divulgação / CP

*Sob supervisão


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