Março já tem o maior número de mortes por coronavírus no RS e um aumento de vítimas sem comorbidades

Março já tem o maior número de mortes por coronavírus no RS e um aumento de vítimas sem comorbidades

Dos 2.360 óbitos ocorridos até o último dia 15 por Covid-19, 388 não tinham doenças consideradas fatores de risco

Henrique Massaro

Especialistas apresentaram dados nesta terça-feira

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Apesar de estar recém na metade, março de 2021 já se tornou o mês com o mais óbitos por Covid-19 no Rio Grande do Sul e também confirmou que mais pessoas sem comorbidades têm sido vitimadas pela doença. Dos 2.360 óbitos ocorridos até o último dia 15, 388 não tinham doenças consideradas fatores de risco, o que corresponde a mais de 16,4%. Em junho do ano passado, por exemplo, além do total de óbitos ser inferior (439), essa proporção era menor: pouco mais de 6%. O aumento da transmissibilidade em função de novas variantes é uma das explicações. Os dados foram apresentados na manhã desta terça-feira em transmissão do governo do Estado e detalhados por especialistas no enfrentamento à pandemia.

A diminuição da diferença entre pessoas com e sem comorbidades também pode ser observada nas taxas de hospitalização por Covid-19. Em fevereiro deste ano, cerca de 25% dos pacientes não apresentavam doenças e, no mês de março, esse percentual já passa dos 35%. Dados semelhantes só haviam sido observados no início da pandemia no Estado, em abril e maio de 2020. A maior parte das comorbidades nos óbitos por coronavírus ainda prevalece nos idosos, como é o caso das doenças cardiovasculares, diabetes mellitus e hipertensão. Obesidade e imunodeficiência são algumas das comorbidades mais presentes em não idosos mortos pela Covid-19. “Há um grupo que tem condições de saúde não vistas como comorbidades, o que faz as pessoas entrarem um grau de conforto”, acrescentou a diretora do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), Cynthia Goulart Molina-Bastos, referindo-se a questões como o sedentarismo e o abuso de álcool.

388 pessoas sem comorbidades morreram por Covid-19 no RS no mês de março. Reprodução/SES

Com novas variantes circulando no Estado e no país, a Covid-19 tem acarretado também mais internações e mortes de pessoas mais jovens. De todas as mortes registradas na primeira quinzena de março, 609 foram de pessoas com menos de 60 anos, o que corresponde a mais de 25%. Em fevereiro, do total de 1.893 óbitos, 407 (21,5%) foram de não idosos. Em novembro do ano passado, por exemplo, o percentual era de pouco mais de 17% (201 do total de 1.157 mortes).

O farmacêutico da Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual da Saúde (SES), Eduardo Viegas da Silva, observou que, em uma perspectiva temporal mais ampla de todo o Estado, o maior número de internações e óbitos de pessoas não idosas não representa uma mudança tão significativa no que definiu como a frequência relativa da proporção que cada faixa etária representa. Em junho do ano passado, por exemplo, já havia ocorrido um aumento nos dados relacionados aos pacientes mais jovens.

No entanto, ele pontuou que o aumento do impacto da pandemia sobre a população não idosa não pode ser menosprezado. “Uma medida de impacto muito utilizada em epidemiologia são os anos de vida perdidos por conta de uma doença”, explicou. O número de mortos com menos de 60 anos já é mais que o dobro do mês de janeiro, por exemplo. “Se contarmos que cada uma poderia viver mais 30 ou 50 anos, veremos que o número de anos de vida perdidos no mês de março por conta dessas mortes de pessoas não idosas é terrível.” De acordo com ele, alguns motivos que explicam esse aumento são a falta de comprometimento individual com higienização e uso de máscaras, a flexibilização do distanciamento social entre dezembro e fevereiro e a nova variante do vírus.

Npumero de mortos com menos de 60 anos tem subido. Reprodução/SES

Nova variante explica parte dos dados

Ao todo, 20 linhagens ou variantes do coronavírus circulam no Rio Grande do Sul desde março de 2020. É o que mostra a quarta edição do Boletim Genomico, considerando 478 amostras colhidas em 117 municípios que representam todas as regiões do Estado. Os especialistas vinculados à Secretaria Estadual da Saúde (SES) afirmaram nesta terça que, de todas as variantes, a que mais preocupa no momento é a P.1, que surgiu em Manaus e apareceu pela primeira vez em território gaúcho na cidade de Gramado, no dia 14 de janeiro, dez dias antes dos primeiros pacientes trazidos da região norte do país para serem tratados no RS.

O especialista em Saúde do Laboratório Central do Estado (Lacen-RS), Richard Steiner Salvato, explicou que uma variante é resultado de processos naturais de mutação, que podem acarretar em consequências relevantes quando ocorrem em regiões específicas dos vírus. No caso do coronavírus, as variantes carregam um conjunto de mutações na proteína spike, que é responsável por se ligar às células humanas e causar a infecção. “Podem melhorar a ligação do vírus na célula, ou seja, aumentar a transmissibilidade e diminuir a ação dos anticorpos, causando maior gravidade da doença”, comentou.

A medida que o formato da proteína se modifica, o corpo pode ter mais dificuldade em identificá-la e dar a resposta imunológica. Salvato ilustrou a situação citando que a vacina, por exemplo, é como se fosse um pedaço dessa proteína mostrado ao organismo, que entende que se trata do coronavírus e encaminha a reação imune mais rapidamente. A linhagem A do coronavírus, como se sabe, começou em Wuhan, na China. Depois disso, na Europa, adquiriu novas mutações até caracterizar a linhagem B, que, por sua vez, seguiu se modificando e se dividindo em novas linhagens, como as da África do Sul (B.1.351) e do Reino Unido (B.1.1.7) – que também preocupam no RS e em outros estados brasileiros – , até as brasileiras P.1, de Manaus, e P.2, do Rio de Janeiro.

“As linhagens do Reino Unido, da África do Sul e a P.1 carregam mutações nessas regiões e, por isso, temos essa preocupação de rastrear, porque podem gerar uma mudança no comportamento do vírus, principalmente tornando-o mais transmissível”, explicou Salvato. De acordo com ele, a as variantes em território gaúcho acompanham a distribuição do padrão nacional. O sequenciamento genômico serve para fins epidemiológicos, ou seja, não é possível e nem faz sentido uma pessoa tentar para saber com qual linhagem do coronavírus foi infectada.

“É o mesmo vírus, até agora o que sabemos é que ele transmite mais rápido”, explicou a diretora do Cevs, Cynthia Goulart Molina-Bastos. De acordo com ela, essa rapidez tem provocado o que os especialistas temiam no início da pandemia, que é a chegada no pico atingindo muitas pessoas. “Como atingiu um grupo da população muito grande, vamos ver pessoas mais jovens doentes, porque funciona assim. Vamos ter 5% dos pacientes que terão manifestação mais gravem porque isso é uma característica da doença.”

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