Primeira noite de frio intenso teve 133 pessoas em situação de rua no Gigantinho

Primeira noite de frio intenso teve 133 pessoas em situação de rua no Gigantinho

Mesmo com o frio intenso, muitos moradores de rua preferiram dormir ao relento em Porto Alegre

Cláudio Isaias & Sidney de Jesus

Filas de moradores de ruas começaram a se formar no final da tarde de terça-feira

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A primeira noite das 133 pessoas em situação de rua de Porto Alegre foi tranquila no ginásio Gigantinho, segundo informações da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc). Deste total, 102 optaram por dormir na estrutura montada no bairro Menino Deus - uma pessoa foi levada em uma ambulância do Samu ao Hospital de Pronto Socorro (HPS) e seis moradores de rua tiveram atendimento da Unimed para a realização de curativos.

O local teve ainda cinco mulheres - uma delas estava grávida. Todos que ficaram no Gigantinho tomaram banho e fizeram a refeição. Eles foram levados ao ginásio do Inter por conta do frio e da queda na temperatura. Na manhã de quarta-feira, um café foi oferecido as pessoas em situação de vulnerabilidade social pelos Advogados do Comitê da Democracia.

A presidente da Fasc, Cátia Lara Martins, disse que ocorreu uma busca ativa na cidade por parte dos servidores da instituição. "Temos condições de colocar entre 40 a 50 camas no Gigantinho", ressaltou.

Segundo ela, a estrutura do ginásio está a disposição do Município até sábado. Além disso, na terça-feira 197 quartos foram ocupados em pousadas e 196 pessoas foram levadas para albergues.

No bairro Restinga, na zona Sul da Capital, 30 pessoas foram acolhidas no Centro Padre Leonardo. "As abordagens vão seguir durante todo o dia em toda a cidade por 12 equipes", comentou.

A campanha POA Que Doa trouxe roupas, o Ministério Público fez a doação de toalhas para o banho e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RS) entregou kits de higiene. Já o Exército fez a doação dos beliches e colchões foram cedidos pela Defesa Civil e pela Fasc. Na manhã de hoje, a maioria dos moradores de rua ficou na frente do Gigantinho aproveitando sol na manhã fria.

Na entrada do ginásio, o reciclador Éder Carlos de Souza Vieira, 47 anos, disse que ficou sabendo acolhimento por amigos que circulam pelo bairro Menino Deus em busca de materiais de reciclagem. "Tive uma noite tranquila e pretendo voltar ao Gigantinho", acrescentou. Ele recebeu da Fasc - meias, cuecas, um poncho e material de higiene. Já Cervino Vargas, 57 anos, que vive da reciclagem no Centro Histórico de Porto Alegre, estava feliz pelo acolhimento.

A Operação Inverno da prefeitura têm diversos parceiros, além dos já citados. O Banco de Alimentos doou cobertores e cestas básicas. A Unimed disponibilizou uma ambulância, das 19h às 7h. A Associação dos Procuradores de Porto Alegre doou cobertores e kits de higiene. A Associação da Classe Média (Aclame) e o grupo Livre Iniciativa apoiaram com a doação de 15 chuveiros e um gerador para assegurar a energia elétrica.

A Associação do Ministério Público (AMP) destinou cobertores. A rede de parceiros da Fasc contribuiu na alimentação e fornecerá café da manhã e jantar nas quatro noites. O almoço será servido pelos restaurantes populares.

Diante da previsão de avanço da frente fria em Porto Alegre, a prefeitura montou um plano emergencial para atender as pessoas em situação de rua na Capital. Uma força-tarefa entre secretarias está ampliando a estrutura da Operação Inverno, com acolhimento extraordinário de 100 vagas no Gigantinho.

Além do espaço na sede do estádio Beira-Rio, há 140 vagas ainda disponíveis na rede própria e conveniada. Os avisos sobre pessoas em situação de rua podem feitos diretamente pelo telefone 156, opção 7.

O Serviço de Abordagem Social da Fasc irá se encarregar da busca e encaminhamento para um dos abrigos da prefeitura ou Gigantinho.

Algumas pessoas optaram por ficar nas ruas frias de Porto Alegre - Foto: Fabiano do Amaral

Muitos moradores de rua preferiram dormir ao relento

Mesmo com os serviços de apoio às pessoas em vulnerabilidade social oferecidos pela Prefeitura no inverno, muitos moradores de rua preferem continuar dormindo ao relento na Capital. As razões para tal atitude, mesmo em meio a uma onda de frio que assola Porto Alegre, são várias: regras dos locais, medo de perder seus espaços e pertences nas ruas, entre outros motivos.

É o caso do morador de rua Adriano da Silva Carvalho, de 48 anos. Há nove anos vivendo nas ruas da Capital, ele diz estar acostumado com a liberdade e as oscilações do tempo. “Não tenho lugar fixo para ficar. Aprendi a gostar desta vida. Vivo da venda de resíduos e sou feliz assim. Sou dono de mim e nunca estou sozinho, estou sempre com Deus”, destacou Adriano, enquanto empurrava um carrinho de supermercado com seus pertences, na rua Ramiro Barcelos.

Ele conta que soube do abrigo oferecido no Gigantinho, mas preferiu ficar nas ruas. “Os abrigos têm muitas regras e não gosto que digam o que tenho que fazer. Se eu fosse para um abrigo também não teria onde deixar minhas coisas. Mesmo na rua estou sempre bem protegido do frio”, afirmou o morador de rua.

“Na rua a gente não precisa dar satisfação para ninguém, além de recebermos muita ajuda das pessoas. Posso dormir até a hora que quiser, depois cuido de alguns carros e consigo um trocado para comprar comida”, garantiu outro morador de rua, que não quis ser identificado, em meio a papelões e enrolado em cobertores para se aquecer do frio, em sua casa improvisada com lonas, nos canteiros da rua Érico Veríssimo, em Porto Alegre.

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