Taxistas e motoristas de aplicativos sofrem com falta de clientes em Porto Alegre

Taxistas e motoristas de aplicativos sofrem com falta de clientes em Porto Alegre

Baixo movimento em locais como rodoviária e aeroporto são principal motivo apontado

Cláudio Isaías

Número de corridas caiu drasticamente desde março

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A redução da circulação de pessoas na Estação Rodoviária de Porto Alegre é apontada pelos taxistas como o principal fator da crise causada no setor pela pandemia da Covid-19. No ponto de táxi localizado no Largo Vespasiano Júlio Veppo, no Centro Histórico, a categoria decidiu adotar uma medida para enfrentar o período de ausência de passageiros. A frota que era composta por 400 veículos, o maior ponto de embarque e desembarque da Capital, foi reduzida para 100 carros.

Marcos Piva, que atua há oito anos no ponto, disse que muitos colegas optaram por não trabalhar nesta época. "É um momento difícil e muitos motoristas estavam pagando para trabalhar", destacou. O condutor que trabalha das 3h às 19h afirmou que não tinha visto uma crise como essa no país. "Antes da pandemia, eu realizava uma média de 12 a 18 corridas por dia", recordou. Na manhã desta sexta-feira, ele havia feito, até às 9h, apenas uma corrida até o bairro Glória no valor de R$ 28,00. "Foi a melhor até o momento e acho que vai ficar nisso", explicou.

O colega Roberto da Silva, que atua desde 1992 no ponto da Estação Rodoviária, afirmou que os taxistas do local têm feito corridas curtas até os hospitais de Clínicas ou Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. "Essas saídas pagam o almoço e estamos conversados. Não tinha visto tantos colegas ao longo do dia realizarem apenas duas ou três saídas", acrescentou. No ponto de táxi da avenida Jerônimo de Ornelas, no bairro Santana, próximo ao Centro de Saúde Modelo, a fila de táxis à espera de passageiros chegava quase na esquina da avenida João Pessoa.        

Um levantamento do Sindicato dos Taxistas de Porto Alegre (Sintáxi) aponta uma redução de pelo menos 70% na queda de clientes e que pelo menos 50% dos taxistas não estão trabalhando. O presidente do Sintáxi, Luiz Nozari, afirmou que a situação da categoria é a pior possível. "Estamos lutando apenas pela sobrevivência, se a cidade para, a economia entra em colapso, portanto não temos saída, ou vamos para as ruas tentar trabalhar mesmo com riscos ou ficamos em casa e morremos de fome", ressaltou.

Na opinião dele, a morte pela Covid-19 é uma possibilidade pequena, já a morte pela fome é uma certeza. O presidente do Sintáxi defende a liberação urgente do trabalho para os que precisam e tem condições de saúde. "Se continuar esta situação, haverá uma quantidade enorme de mortes não pelo coronavírus mas pelos efeitos perversos e irreversíveis do colapso econômico" acrescentou. Nozari afirmou que não há saída, ou seja, ou se trabalha ou se corre o risco de morrer pelo coronavírus. "Se ficarmos em casa com certeza morreremos de fome, já que a fome tem 100% de letalidade e atinge todas as idades até mesmo os sadios", comentou.

Situação complicada para aplicativos

Os motoristas de aplicativos, em razão da pandemia do coronavírus, também perceberam uma diminuição de passageiros desde março deste ano. Estacionados próximos da rua Voluntários da Pátria, no bairro São Geraldo, na zona Norte de Porto Alegre, um grupo de dez condutores relatou que nunca tinha visto uma crise como essa da Covid-19. Os motoristas alegam que estão passando por dificuldades em função da falta de clientes, principalmente da Estação Rodoviária de Porto Alegre e Porto Alegre Airport - Aeroporto Internacional Salgado Filho. 

Everton Gomes de Oliveira, há um ano trabalhando como motorista de aplicativo, disse que antes da crise realizava uma média de 30 corridas por semana. "Hoje, se eu conseguir dez corridas até o final da tarde tenho que agradecer", destacou Oliveira que trabalha das 6h às 19h. Na manhã de sexta-feira, em cerca de três horas, ele havia feito apenas três corridas. "Desde o final de março, o movimento caiu mais de 90%. A situação está bem complicada", ressaltou. 

O motorista Ricardo José Campos destacou que a categoria perdeu muitos clientes em função de que diminuiu a circulação no aeroporto e na Estação Rodoviária.  "Estou há mais de três horas no serviço e realizei somente três corridas. Antes dessa crise, já tinha feito mais de R$ 300 com as corridas. Se chegar a R$ 100 ou R$ 120 durante o dia tenho que agradecer a Deus", acrescentou.

O presidente da Associação Liga dos Motoristas de Aplicativos (Alma), Joe Moraes, disse que a situação da categoria esteve bem difícil no começo da pandemia da Covid-19. "Agora, está melhorando um pouco, mas no começo da pandemia foi bem difícil porque o número de viagens em Porto Alegre diminuiu em cerca de 80% a 90%", explicou. Segundo ele, com o passar do tempo tem melhorado um pouco o número de corridas, no entanto, ainda está longe do normal.

O presidente da Alma afirmou que neste período de crise em função da pandemia, a categoria não recebeu qualquer tipo de incentivo por parte das plataformas de Apps. "Nenhum App deu qualquer incentivo a não ser ajuda para álcool em gel e máscaras em valores irrisórios. As empresas pagam uma ajuda a quem fica afastado por ter sido infectado pelo coronavírus. É uma ajuda por 14 dias e mesmo assim muitos apps não pagaram", acrescentou.

Moraes destacou ainda que muitos motoristas acabaram por desistir da profissão e acredita que possa ocorrer mais abandonos. "Vai acontecer também um movimento contrário. Muita gente que hoje está ficando desempregada vai migrar para os aplicativos", ressaltou. Antes da pandemia, a Alma contabilizava um total de 35 mil motoristas de aplicativo atuando em Porto Alegre e Região Metropolitana. Porém, a categoria não possui um número de quantos desistiram de atuar nos aplicativos.


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