Vale ganhou direito de recuperar rejeitos de barragem em Brumadinho no fim de 2018

Vale ganhou direito de recuperar rejeitos de barragem em Brumadinho no fim de 2018

Estudo aponta que material retirado de mina local poderia ser comercializado, empilhado ou reprocessado<br />

Por
R7

Vale ganhou direito de recuperar rejeitos de barragem no ano passado

publicidade

A Vale, empresa responsável pela barragem que rompeu na última sexta-feira na cidade de Brumadinho (MG), conseguiu no dia 11 de dezembro de 2018 uma licença para recuperar os rejeitos da barragem que cedeu. A operação seria realizada com o uso de escavadeiras por um processo de dragagem, conforme consta no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) aprovado.

“Dependendo das condições de mercado, esse material poderá ser comercializado com terceiros, tal como empilhado, ou na mistura dos produtos produzidos em Feijão ou ainda ser reprocessado pela Vale”, destaca o texto, que menciona o procedimento nas barragens 1 e 6 de Brumadinho.

Carolina de Moura Campos, presidente da Associação Comunitária da Jangada, região do complexo da Vale que rompeu, diz “não ter dúvida“ de que a mineradora já havia começado a executar os procedimentos no dia seguinte à obtenção da licença pela qual aguardaram por cinco anos. “Iam esperar o que?”, questiona ela.

"Como moradora local posso afirmar que há duas semanas reparei que o trânsito de veículos carregando máquinas pesadas aumentou”, relata Carolina.

O professor de ciência ambiental da Universidade de São Paulo (USP) Pedro Luiz Côrtes afirma que a técnica de dragagem não é proibida e classifica a prática como "usual". "Em tese, nada impede que isso seja feito. Possivelmente, a Vale passou a adotar um novo sistema de tratamento que permitia a melhor aproveitamento do material anteriormente descartado", explica Côrtes.

Segundo Côrtes, o procedimento não tende a causar perigo se for realizado de maneira consciente. "O cuidado que se tem que ter é para não haver uma movimentação excessiva que cause a liquefação desse material e comprometa a estrutura. Normalmente, essa escavação seria feita na parte de trás da barragem. [...] Se você faz isso na parte da frente, pode ter um problema sério de estabilidade”, afirma o professor da USP.

• Leia mais sobre Brumadinho

O engenheiro Sérgio Roman, da Nicho Engenharia, que assina o Estudo de Impacto Ambiental, afirma não ter responsabilidade sobre “a questão de barragem, pilha de rejeito, instalação e tratamento de minério” e destaca ter recebido as informações diretamente da Vale a respeito da dragagem para incluir no projeto.

"Até onde eu entendo, não deve ter sido feito nada até o presente momento, porque sem a licença de operação a Vale não pode começar a fazer os trabalhos. Ela não pode fazer isso porque está sujeita a multa e ao fechamento da mina”, avalia Roman.

Medidores inativos

O EIA aponta ainda que 80% dos 25 instrumentos instalados para medir a profundidade de água dentro da estrutura da barragem de Brumadinho estavam inativos no momento da elaboração do documento.

Côrtes, da USP, avalia que o número dos chamados piezômetros para verificar a pressão da água instalados na mina “como coerentes”, mas manifesta com preocupação o fato da maioria deles ficar inativa. “É como se você tivesse um paciente que demanda cuidado sem um termômetro ou instrumento de pressão para saber se os sinais vitais estão dentro do esperado”.

“Deixar mais da metade (dos medidores) inativa é muito preocupante, porque você perde o controle de como a barragem está se comportando. Não se sabe se a água está fazendo uma pressão muito forte”, completa o professor de ciência ambiental.

Autor do estudo, Roman destaca que apenas recebeu as informações da mineradora. "Pode até ser uma identificação levantada por nós, mas nossa atribuição morre aí. Eu não vou dizer para a Vale que vai cair. Quem sou eu para fazer isso? É necessário fazer uma análise geotécnica muito mais aprofundada”, afirma o engenheiro.

Sem afirmar se foi de fato a empresa dele que constatou a inatividade do instrumento, Roman destaca que “em um estudo de impacto ambiental não se avalia se a barragem tem um nível baixo, alto ou médio de rompimento”.