Exército do Iraque admite uso excessivo de força em protestos
capa

Exército do Iraque admite uso excessivo de força em protestos

Mais de 100 pessoas foram mortas e mais de 6 mil feridas em cinco dias

Por
AFP

Manifestantes exigem a renúncia do governo iraquiano

publicidade

O exército iraquiano reconheceu nesta segunda-feira, pela primeira vez, que fez uso excessivo da força durante o movimento de protestos que eclodiu na última terça-feira. Desde 1º de outubro, o movimento de protesto estourou em Bagdá e nas cidades do sul do país para exigir a renúncia do governo, acusado de corrupção, e mais de 100 pessoas perderam a vida, a maioria manifestantes; além disso, mais de 6 mil ficaram feridos, de acordo com o último balanço oficial.

O Irã, país vizinho e aliado do Iraque, denunciou uma conspiração, em alusão às manifestações espontâneas, que respondem às convocações feitas nas redes sociais. Depois de uma noite caótica em Sadr City, no Leste de Bagdá, onde 13 pessoas morreram em confrontos entre manifestantes e forças de segurança, segundo fontes médicas, o comando militar admitiu "uso excessivo da força que excedia os padrões".

"Já estamos pedindo explicações aos policiais que cometeram esses erros", afirma um comunicado. Vídeos feitos na cidade de Sadr mostram manifestantes se escondendo sob rajadas ininterruptas de tiros, alguns realizados com armas pesadas. Não é fácil para as forças de segurança e a mídia entrar neste reduto do líder xiita Moqtada Sadr, que, na sexta-feira, pediu a renúncia do governo de Adel Abdel Mahdi.

Golpe de Estado

Desde terça-feira, as autoridades acusam "atiradores não identificados" de disparar contra manifestantes e forças de segurança. Mas os ativistas de direitos humanos acusaram as forças de segurança de abrir fogo indiscriminadamente contra manifestantes.

Nesse contexto, o chefe do Hashd Al Shaabi, uma poderosa coalizão paramilitar dominada por milícias xiitas próximas ao Irã, declarou-se disposto a intervir e impedir "um golpe de estado ou uma rebelião", caso o governo iraquiano peça.

Ao denunciar uma conspiração, Faleh Al Fayadh alertou em uma entrevista coletiva em Bagdá que Hashd queria "o fim da corrupção e não o fim do regime", em resposta a um dos slogans cantados nos protestos na semana passada. O guia supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, acusou, por sua vez, os "inimigos" de tentar "semear a discórdia" entre Irã e Iraque.

"Irã e Iraque são duas nações cujo coração e alma estão ligados (...) Os inimigos buscam semear a discórdia, mas fracassaram e seu complô não terá efeito", escreveu Khamenei no Twitter, sem entrar em detalhes sobre a identidade dos "inimigos". De acordo com a agência oficial Irna, o tuíte foi publicado como reação às manifestações que acontecem no Iraque, principalmente em Bagdá e no sul do país, de maioria xiita.

Ações sociais

No domingo, pela primeira vez desde o início do movimento, que também exige mais empregos para os jovens e melhorias nos serviços públicos, os manifestantes não se reuniram no centro de Bagdá. Havia apenas concentrações em Sadr e arredores, na periferia da capital, como no sul do país.

Ainda no domingo, governo iraquiano anunciou uma série de medidas sociais em resposta às reivindicações dos manifestantes. Ao fim de um conselho extraordinário, o governo de Adel Abdel Mahdi anunciou um decreto com 17 medidas sociais, que incluem auxílio-moradia, assim como seguro-desemprego para os jovens. Também foi anunciada a construção de 100 mil casas.

Mahdi ordenou ainda a instalação de vagas para os vendedores ambulantes, em uma tentativa de criar empregos, em especial para os jovens. Hoje, um a cada quatro nesta faixa etária não tem trabalho no Iraque. As autoridades anunciaram também que vão incluir as pessoas mortas desde terça-feira na lista de "mártires", para que seus familiares possam pedir indenizações por sua perda.