Frente às ameaças dos EUA, OMS aceita investigação sobre suas ações na pandemia

Frente às ameaças dos EUA, OMS aceita investigação sobre suas ações na pandemia

Apuração também quer melhorar capacidade global de prevenção

AFP

Países concordam com investigação sobre a atuação da OMS durante a pandemia

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Diante das acusações e ameaças de boicote dos Estados Unidos, os países membros da Organização Mundial da Saúde concordaram nesta terça-feira) em iniciar uma "avaliação independente" da resposta da instituição à pandemia, que já matou mais de 318.000 pessoas e avança exponencialmente no Brasil. Os 194 Estados-membros da OMS, entre eles Estados Unidos e China, adotaram durante sua assembleia uma resolução que planeja iniciar "o mais rápido possível um processo de avaliação imparcial, independente e completo" da ação internacional coordenada pela OMS diante da pandemia do novo coronavírus.

O acordo é uma resposta às acusações do presidente Donald Trump, que acusa a instituição de ser um "fantoche da China", onde foi detectado o primeiro caso do novo coronavírus em dezembro. O norte-americano ameaçou congelar indefinidamente o financiamento para essa agência da ONU e até retirar seu país, se não houver "melhorias substanciais" em 30 dias.

Em resposta, o governo chinês acusou Trump, nesta terça-feira, de usar a China para "fugir de suas obrigações" com a OMS. "É um erro de cálculo, e os Estados Unidos escolheram o alvo errado", declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian.

A Rússia, com quase 300.000 casos mas em aparente estabilização, acusou os Estados Unidos de querer "arruinar" a agência da ONU. "Nós nos opomos à falência (da OMS) que obedeceria aos interesses políticos e geopolíticos de um único Estado, ou seja, dos Estados Unidos", disse o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Riabkov.

Já a União Europeia (UE) expressou nesta terça seu apoio à OMS. "É hora da solidariedade, não de apontar o dedo, ou prejudicar a cooperação multilateral", disse a porta-voz da diplomacia europeia, Virginie Battu.

Remédio ou vacina

Trump considera que a OMS ignorou informes sobre o aparecimento do vírus e censura a organização por ser muito indulgente com as autoridades chinesas a respeito da gestão da pandemia. Nos Estados Unidos, já são mais de 90.000 mortos e 1,5 milhão de infectados.

Apesar da tensão entre a OMS e Washington, surgiram sinais de otimismo com os resultados encorajadores no desenvolvimento de uma cura, ou de uma vacina, em cuja produção mais de 100 laboratórios no mundo estão envolvidos.

Na China, um medicamento em fase de testes na prestigiada Universidade de Pequim ("Beida") permitiria não apenas acelerar a cura dos doentes, mas também imunizar temporariamente para a COVID-19, segundo o pesquisador Sunney Xie em entrevista à AFP.

Nos Estados Unidos, a empresa de biotecnologia Moderna, uma das mais avançadas na corrida pela vacina, anunciou resultados preliminares encorajadores em testes em oito voluntários, antes de realizar testes em larga escala em julho.

Mas enquanto esse momento não chega, Trump surpreendeu o mundo ao anunciar que está tomando hidroxicloroquina - alvo da controvérsia entre cientistas - "há uma semana e meia", com a aprovação do médico da Casa Branca, apesar de não apresentar sintomas da doença.

"Comemos o que encontramos" 

Na América Latina e no Caribe, a Covid-19 já deixou 30.600 mortes (de 548.000 infectados). Mais da metade foi no Brasil, país com mais de 16.000 vítimas fatais, embora os especialistas considerem que as estatísticasocultam uma realidade muito mais trágica.

O gigante latino-americano está entre os países com mais infecções no mundo, com mais de 254.000 casos, junto com os Estados Unidos e a Rússia. Nesse contexto, o governo brasileiro recrutou mais de 150 médicos cubanos para ampliar seus serviços de saúde, um ano e meio depois que Havana se retirou de um programa de cooperação em saúde diante de duras críticas do presidente Jair Bolsonaro.

A Organização Pan-Americana da Saúde alertou para o impacto "desproporcional" da pandemia nos povos indígenas e nas mulheres nas Américas, colocando-os entre os grupos vulneráveis por quem apelou por proteção para colocar a região "no caminho da recuperação".

A Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) também alertou que os venezuelanos indígenas que cruzaram as fronteiras dos vizinhos Brasil e Colômbia estão "perigosamente expostos" à Covid-19.

No Peru, um motim desencadeado pelo medo do vírus em uma prisão deixou 14 feridos entre detentos e agentes penitenciários. Até agora, 30 presos morreram de Covid-19 e mais de 645 foram infectados em presídios lotados no país.

O Equador, um dos países mais atingidos da América Latina - com quase 34.000 casos, incluindo 2.800 mortos - anunciou nesta terça-feira que, diante da crise econômica causada pela pandemia, iria fechar embaixadas e reduzir o pessoal diplomático na Venezuela, México e Irã, além de eliminar empresas estatais, para economizar cerca de 4 bilhões de dólares ao ano.

Questionado pelas severas medidas de confinamento que envolveram o uso da força, o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, condicionou que uma abertura gradual da economia do país em 6 de junho seja precedida por uma "quarentena completa e rigorosa".

Na Argentina, a cidade de Córdoba, a segunda maior com 1,4 milhão de habitantes, recuou desta terça-feira para o alívio da quarentena, depois de detectar um aumento acentuado de infectados.

Um pouco de ar para a economia

À espera de um tratamento ou vacina para conter o coronavírus, que já infectou 4,8 milhões de pessoas, e em meio ao medo de uma segunda onda de infecções, o mundo tenta dar um pouco de alívio para a economia. Para lidar com o forte impacto econômico na UE, França e Alemanha propuseram um plano de reativação de 500 bilhões de euros.

O Banco Mundial concedeu empréstimos de emergência a 100 países em desenvolvimento, que abrigam 70% da população mundial. Dos cem países, 39 estão na África Subsaariana e outros sete na América Latina e no Caribe: Argentina, Equador, El Salvador, Haiti, Honduras, Paraguai e Uruguai.

Continente mais afetado com 167.668 mortes (1.919.572 infecções), a Europa continua caminhando em direção ao desconfinamento, com a reabertura gradual de bares e restaurantes em países como Portugal, Alemanha e Dinamarca, e locais emblemáticos como a Basílica de São Pedro, no Vaticano; Mont Saint-Michel, na França; ou a Acrópole, em Atenas.

Outro país gravemente atingido pelo vírus, com quase 28.000 mortes, a Espanha também avança nesse sentido, apesar de Madri e Barcelona ainda estarem sob restrições. Há uma semana, protestos são convocados nas redes sociais e apoiados por partidos de direita, pedindo a renúncia do presidente do Governo Pedro Sánchez.

No Oriente Médio, a Esplanada das Mesquitas de Jerusalém reabrirá suas portas depois do Eid al-Fitr, as festividades que encerram o Ramadã. A celebração será neste fim de semana.


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