Isabel dos Santos é acusada de fraude e lavagem de dinheiro em Angola

Isabel dos Santos é acusada de fraude e lavagem de dinheiro em Angola

A bilionária também foi acusada de tráfico de influência, abuso de bens sociais e falsificação de documentos

Por
AFP

Dos Santos negou as acusações e se declarou "pronta para combater"


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A bilionária angolana Isabel dos Santos, filha do ex-presidente José Eduardo dos Santos, foi oficialmente acusada de fraude, desvio de fundos públicos e lavagem de dinheiro pela Justiça de Angola, que afirma fazer todo o possível para trazê-la de volta ao país e levá-la a julgamento. Procurada por várias semanas pela Justiça deste país africano, Isabel dos Santos foi acusada, além disso, de tráfico de influência, abuso de bens sociais e falsificação de documentos quando era presidente do grupo público de petróleo angolano Sonangol, informou o procurador-geral Helder Pitta Gros.

Dos Santos negou as acusações e se declarou "pronta para combater", segundo um comunicado difundido por uma agência de comunicação baseada em Londres. "As acusações que fizeram contra mim nos últimos dias são enganosas e falsas", explicou.

Nesta quinta, foi encontrado morto em Lisboa o banqueiro português Nuno Ribeiro da Cunha, 45 anos e que gerenciava as contas de Dos Santos no banco Eurobic, da qual é a principal acionista. O nome de Cunha, que se enforcou em sua garagem, aparecia nos documentos conhecidos como "Luanda Leaks".

Considerada a mulher mais rica da África, Isabel dos Santos também dirigiu outras empresas públicas angolanas, nos setores de mineração e telecomunicações, e investiu em várias empresas, principalmente bancos, em Portugal.

A investigação de Isabel dos Santos à frente da Sonagol, entidade pública que presidiu de junho de 2016 a novembro de 2017, começou depois que seu sucessor, Carlos Saturnino, denunciou "transferências irregulares de dinheiro". Isabel é suspeita de ter aproveitado o apoio de seu pai para obter fundos estatais do país e investi-los no exterior com a ajuda de empresas ocidentais. Ela deixou Angola depois o seu pai, que governou o país por quase 40 anos, renunciou à presidência em 2017 e foi substituído por João Lourenço. Desde então, vive entre Londres e Dubai.

A acusação oficial ocorre três dias após a publicação do "Luanda Leaks" por parte do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, com sede em Nova York (ICIJ, na sigla em inglês), composto por 36 mídias e que mobilizou 120 jornalistas em 20 países. O grupo ficou conhecido em 2016 com o chamado "Panama Papers", uma investigação sobre uma megassonegação de impostos.

Desta vez, os documentos divulgados pelo ICIJ mostraram que Isabel dos Santos desviou centenas de milhões de dólares em dinheiro público para contas pessoais em paraísos fiscais. "A investigação baseada na análise de mais de 715.000 documentos deixa em evidência as falhas do sistema regulatório internacional, que permite que empresas de serviços profissionais atendam aos poderosos praticamente sem fazer perguntas", afirmou o ICIJ.

Na segunda-feira, após a divulgação dos documentos do "Luanda Leaks", o procurador-geral Pitta Gros declarou que está determinado a "usar de todos os meios" para levar Isabel de volta à Angola. "Vamos ativar todos os mecanismos internacionais para trazer Isabel dos Santos de volta ao país", disse Pitra Gros, entrevistado pela rádio nacional.

Gros disse ainda que ela é uma das cinco pessoas suspeitas envolvidas neste caso. Todas vivem no exterior atualmente. "Neste momento, a preocupação é notificá-las e fazê-las enfrentar a Justiça voluntariamente", disse o procurador, ressaltando que, em nenhum momento, a acusada demonstrou desejo de "colaborar com a Justiça angolana".

Isabel dos Santos negou as acusações com uma série de mensagens no Twitter, denunciando os jornalistas que participaram da investigação por contarem "mentiras". A acusada disse que foi vítima de uma "caça às bruxas" para manchar sua reputação e a de seu pai. "Minha fortuna foi construída, graças ao meu caráter, minha inteligência, minha educação, minha capacidade de trabalhar e minha perseverança", escreveu.

Ela também acusou o "racismo e preconceito" da SIC-Expresso, uma rede de televisão e jornais portugueses, que faz parte do ICIJ, e cujo comportamento, de acordo com Isabel, "recorda a era colonial, quando um africano nunca poderia ser considerado igual a um europeu".


O advogado de Isabel dos Santos chamou a investigação de "ataque coordenado" pelos atuais líderes de Angola, em nota publicada no jornal britânico "The Guardian". Na semana passada, Isabel disse que não descarta ser candidata à presidência de seu país em 2022.