Lideranças índigenas recusam diálogo em meio à crise no Equador
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Lideranças índigenas recusam diálogo em meio à crise no Equador

Manifestantes prenderam oito policiais em Quito, enquanto governo tentava restabelecer comando de Guayaquil

Por
Estadão Conteúdo

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A Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie), principal organização indígena do Equador, rejeitou nesta quinta-feira a possibilidade de diálogo com o governo do presidente Lenín Moreno para resolver a crise provocada pelo pacote de ajuda econômica pactuado com o FMI. "Nada de diálogo com um governo assassino", disse a Conaie em comunicado assinado por seu presidente, Jaime Vargas.

O acordo com o FMI prevê acesso a uma ajuda de US$ 4,2 bilhões. Em troca, o governo adotou medidas de ajuste, entre elas o corte dos subsídios aos combustíveis, que aumentou em até 123% o preço do diesel. Em uma semana de protestos, 400 pessoas ficaram feridas, 800 foram presas e 5 morreram, incluindo Inocencio Tucumbi, líder indígena da Conaie da Província de Cotopaxi.

Nesta quinta, manifestantes indígenas que protestam contra Moreno detiveram oito policiais na Casa da Cultura Equatoriana, em Quito. "Do lado de fora, nos disseram que o governo vai jogar bombas de gás aqui dentro. Então, não vamos soltá-los porque exigimos respeito", disse Fabián Mazanda, um dos representantes da Conaie.
De acordo com Mazanda, se os manifestantes forem reprimidos pela polícia dentro da Casa de Cultura, os policiais presos serão submetidos à "Justiça ancestral indígena", em um sinal de que os agentes poderiam sofrer algum tipo de violência. Os oito agentes foram exibidos em um palco no Parque El Arbolito, em Quito, e pediu-se que retirassem seus capacetes, coletes à prova de balas e botas, para delírio do público que festejava a detenção.

Ao lado no palco, o presidente da Conaie informou: "ordenei nossos parceiros na Amazônia a fecharem todos os postos de petróleo". As declarações do líder indígena frustraram a expectativa aberta pelo presidente de um possível acordo com mediação da Igreja e da ONU. A socióloga da Pontifícia Universidade Católica do Equador, Natalia Sierra, explicou que está prevista na Constituição a declaração de um estado plurinacional, onde várias lideranças são permitidas.

"Os povos indígenas têm o direito do exercício da Justiça indígena em seus territórios. Eles também declaram estado de exceção em suas regiões, o que permite que qualquer pessoa que eles considerem que esteja atentando contra sua resistência podem ser detidas, não importa se são militares ou policiais." Sierra afirma que o Parque El Arbolito, onde se concentram os indígenas em Quito, é um local histórico que já foi palco de mobilizações em governos anteriores e, por isso, está sob a regra do estado de exceção indígena. Segundo ela, a aplicação da "justiça ancestral" é um ritual espiritual não violento. "Não há o sistema ocidental de detenção sem cura. Neste sentido, não é um castigo, é uma bênção. O ritual é feito com banhos de ervas, que os próprios indígenas também tomam para purificar. Eles têm a própria lógica, que não é o cárcere, mas a cura espiritual."

Nesta quinta, a polícia prendeu 17 pessoas, a maior parte delas venezuelanas, que teriam informações sobre os itinerários de Moreno e do vice-presidente, Otto Sonnenholzner. "Os 17 foram detidos no aeroporto de Quito. A maioria é da Venezuela. Eles tinham informações sobre a movimentação do presidente e do vice-presidente", escreveu no Twitter a ministra de Governo, María Paula Romo.

Moreno acusa seu antecessor e ex-aliado, Rafael Correa, de estar por trás dos protestos, que teriam ainda apoio do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Correa e Maduro negam. Ontem, um funcionário de alto escalão do governo dos EUA acrescentou Cuba à lista. "Lamentavelmente, o pessoal do Correa, com seus amigos na Venezuela e em Cuba, estão provocando manifestações e certo grau de violência no Equador", disse o funcionário, que pediu para não ser identificado, à agência France Presse.
Presidentes de Chile e Peru apoiam Lenín Moreno.

Os presidentes do Peru, Martín Vizcarra, e do Chile, Sebastián Piñera, reafirmaram nesta quinta seu apoio ao colega equatoriano, Lenín Moreno, e rejeitaram qualquer tentativa de desestabilização da democracia no Equador. "Peru e Chile apoiam o estado de direito no mundo, mas especialmente da América Latina", diz um comunicado conjunto emitido ontem após uma reunião entre os dois em Lima. Na terça-feira, Vizcarra já havia manifestado apoio a Moreno em outro comunicado, assinado também por Argentina, Brasil, Colômbia, Guatemala e Paraguai. O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, escreveu no Twitter uma mensagem de apoio ao presidente equatoriano.