Projetos de vacinas antigripe com RNA mensageiro avançam

Projetos de vacinas antigripe com RNA mensageiro avançam

Ao menos três laboratórios iniciaram trabalhos, e eficiência pode chegar a 95%

AFP

Projetos de vacinas antigripe com RNA mensageiro avançam

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Trazendo febre, tosse e calafrios, a gripe chega e, com ela, a campanha de vacinação. Se até agora as vacinas contra esse vírus, que sofre muita mutação, utilizam tecnologia que não é totalmente eficaz, o uso de RNA mensageiro pode mudar o quadro. Mais e mais laboratórios se lançam no desenvolvimento de vacinas contra o vírus da gripe usando essa nova tecnologia.

Líder mundial em imunizantes contra gripe, a francesa Sanofi já começou a testar uma vacina de RNA monovalente - contra uma única cepa do vírus - e fará testes com uma vacina quadrivalente no próximo ano.

Em setembro, a gigante americana Pfizer fez as primeiras injeções em humanos de um imunizante contra gripe com RNA mensageiro, mecanismo que já usa em seu produto contra a Covid-19. O laboratório Moderna, também americano, lançou seus testes no início de julho. Quais são os benefícios dessa tecnologia, amplamente usada contra a Covid-19, mas que nunca foi empregada para outros vírus?

As vacinas contra a gripe existem há muito tempo, mas sua eficácia é relativa. Utilizam vírus inativados, que devem ser preparados com bastante antecedência, e seus níveis de eficácia variam entre 40% e 60% - ou até 70%, em alguns casos.

"Seis meses antes da epidemia, avaliamos as cepas que mais circulam. Às vezes cometemos erros, e isso cria um excesso de mortalidade significativo", explica a imunologista e diretora de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm), Claude-Agnès Reynaud.

Mercado atrativo 

Além disso, "o problema quando um vírus é inativado para preparar uma vacina é que isso pode danificar algumas proteínas de superfície", as mesmas que fornecem a resposta imunológica, diz a cientista. Já o RNA mensageiro não precisa produzir antígenos (a substância estranha que ativa a reação imunológica), pois é a célula humana que criará as proteínas do vírus.

"Se a Organização Mundial da Saúde (que indica as cepas a serem usadas) alerta sobre uma mudança nas cepas prevalentes, podemos mudá-la mais rapidamente com RNA do que com a tecnologia existente", enfatiza Jean-Jacques Le Fur, analista da Bryan, Garnier & Co Y. E com uma eficiência que pode chegar a 95%.

Com essas vantagens, muitos pesquisadores avançam nesse caminho. Norbert Pardi, especialista em vacinas da Universidade da Pensilvânia, tenta, com o RNA mensageiro, incluir vários antígenos em uma única vacina, testada em camundongos. "Essas vacinas multivalentes provavelmente provocarão uma resposta imunológica globalmente superior" do que os imunizantes atuais, disse ele, recentemente, à AFP.

Desafios

Essa tecnologia também tem desvantagens, como condições de armazenamento em temperaturas muito baixas. "Teremos que chegar a vacinas termoestáveis, que podem ser armazenadas na geladeira de 2 a 8 graus, em uma seringa. Há muito o que fazer para converter o RNA mensageiro contra a gripe", estimou o vice-presidente do ramo de vacinas da Sanofi, Thomas Triomphe.

Sem esquecer "a questão da aceitabilidade: quando chegarem essas vacinas, a população vai ficar tranquila com essa tecnologia, ou a relutância vai continuar?", questiona Jean-Jacques Le Fur. Isso não impede, porém, que as pesquisas avancem.

Grande mercado

"A Sanofi entendeu que não pode ignorar essa tecnologia. Para eles, as vacinas contra gripe representam 2,5 bilhões de euros (2,9 bilhões de dólares) de vendas a cada ano", acrescenta. "É um mercado muito atraente para grandes laboratórios. À exceção da Moderna, que é nova no setor, os demais - como Sanofi, AstraZeneca, ou GSK - estão muito bem estabelecidos na gripe. Foram US$ 5 bilhões em vendas em 2020. Em 2021, são esperados US$ 6,5 bilhões, ou US$ 7 bilhões", diz Jamila El Bougrini, especialista em biotecnologia da Invest Títulos. 

 


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