Putin agradece aos russos por deixá-lo permanecer no poder até 2036

Putin agradece aos russos por deixá-lo permanecer no poder até 2036

A votação da reforma constitucional terminou nesta quarta-feira com a vitória do "Sim" com 77,92% dos votos e críticas da oposição e países ocidentais

Por
AFP

Putin agradeceu aos russos seu "apoio e confiança"


publicidade

O presidente russo Vladimir Putin agradeceu nesta quinta-feira a seus compatriotas pela votação em massa a favor de uma reforma constitucional que lhe permitirá permanecer no poder até 2036, um resultado criticado pela oposição e pelos países ocidentais. Os números oficiais da votação, que terminou nesta quarta-feira, foram divulgados nesta quinta-feira, após a contagem de 100% das urnas. Putin agradeceu aos russos seu "apoio e confiança", um dia depois do final da votação na qual foi aprovada uma grande reforma da Constituição.  

"Gostaria de agradecer aos cidadãos russos. Enormes agradecimentos por seu apoio e confiança", declarou o presidente russo em um discurso exibido na televisão, durante o qual afirmou que a reforma oferecerá uma "estabilidade interna e de tempo para mudar o país e todas suas instituições".

O Kremlin também comemorou nesta quinta um "triunfo" após a validação da reforma em votação nacional. "De fato, aconteceu um referendo triunfal de confiança em relação ao presidente Putin", afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, após a votação que durou uma semana e terminou com a vitória do "Sim" com 77,92% dos votos.

A Comissão Eleitoral anunciou que os votos contrários à reforma alcançaram 21,27%. A taxa de participação no referendo foi de quase 65%. Peskov comemorou um "nível de participação e um apoio extremamente elevados" e considerou que as mudanças constitucionais serão "a base de um futuro melhor".

A votação deveria ter acontecido em abril, mas foi adiada devido à pandemia de coronavírus. Para evitar um excesso de fluxo nas zonas eleitorais e não afetar a participação, a consulta aconteceu de 25 de junho a 1 de julho.

Não existiam dúvidas sobre o resultado do referendo porque as reformas já haviam sido aprovadas pelo Poder Legislativo no início do ano e, além disso, o novo texto da Constituição já estava à venda nas livrarias.

Entre as reformas constitucionais solicitadas por Putin, figura em especial uma que abre o caminho para sua permanência no poder até 2036. Putin tem mandato atualmente até 2024. Além da polêmica questão, as mudanças reforçam algumas prerrogativas presidenciais, como as nomeações e demissões de juízes.

Também incluem outras medidas, como a inclusão na Constituição da "fé em Deus" e o matrimônio como instituição heterossexual. O distrito autônomo de Nenetsia, no Ártico, foi a única região da Rússia onde o "Não" foi vitorioso, com 55,25% dos votos. 

O principal opositor do Kremlin, Alexei Navalny, chamou a votação de "enorme mentira" e pediu a seus partidários uma mobilização nas eleições regionais de setembro.

EUA preocupado, UE pede investigação

O governo dos Estados Unidos afirmou que está preocupado com referendo na Rússia e com o fato de Putin conseguir ampliar seu mandato.

"Estamos incomodados com os esforços do governo russo para manipular votações sobre as recentes emendas constitucionais, a pressão sobre os opositores e restrições aos observadores independentes da votação", disse a porta-voz do Departamento de Estado, Morgan Ortagus.

A União Europeia (UE) pediu à Rússia que investigue as "denúncias de irregularidades" apresentadas durante o referendo. "Temos conhecimento de informações de denúncias de irregularidades durante a votação. Esperamos que sejam devidamente investigados porque são alegações graves", afirmou o porta-voz da diplomacia europeia, Peter Stano.

De acordo com muitos observadores, o poder russo quis garantir um êxito espetacular e uma forte participação eleitoral com uma loteria de regalias para os participantes, vouchers de compra ou instalando os centros de votação nas ruas, onde a vigilância das urnas era escassa.

A ONG Golos, especializada em observação de eleições, denunciou um prejuízo "sem precedentes" à soberania do povo russo. A organização recebeu mais de 2.100 denúncias de possíveis violações, especialmente casos de funcionários obrigados a comparecer às urnas.