Qual o impacto do coronavírus nos conflitos no Oriente Médio?

Qual o impacto do coronavírus nos conflitos no Oriente Médio?

primeira consequência concreta tenha sido o anúncio saudita de um cessar-fogo unilateral no Iêmen

AFP

Um membro da defesa civil síria pulveriza desinfetante nas roupas penduradas do lado de fora de uma tenda em um campo para pessoas deslocadas perto da cidade de Maaret Misrin

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O novo coronavírus fez dezenas de milhares de mortos e forçou metade da Humanidade ao confinamento. Mas o impacto da pandemia nas guerras no Oriente Médio permanece incerto, mesmo que a primeira consequência concreta tenha sido o anúncio saudita de um cessar-fogo unilateral no Iêmen. Nas últimas semanas, as Nações Unidas pediram repetidamente um cessar-fogo em todo o mundo, inclusive no Oriente Médio, para ajudar a conter a propagação da Covid-19 e impedir novas tragédias humanitárias para as populações vítimas desses conflitos.

A coalizão militar liderada pela Arábia Saudita, que opera no Iêmen em apoio às forças do governo, anunciou um cessar-fogo de duas semanas a partir das 6h00 desta quinta-feira, afirmando que essa decisão unilateral visava impedir a propagação do coronavírus. Os rebeldes huthis, apoiados pelo Irã, ainda não reagiram. 

"Estamos preparando o terreno para combater a Covid-19", disse uma autoridade saudita na quarta-feira. Apesar do pedido de cessar-fogo promovido pelas Nações Unidas em março, a violência aumentou recentemente no país. Nos últimos anos, as negociações fracassaram sucessivamente no Iêmen, que sofre com a pior crise humanitária do mundo, segundo a ONU.

ONGs temem uma catástrofe se o vírus se espalhar, uma vez que o Iêmen possui um sistema de saúde precário, e enquanto 24 milhões de pessoas, mais de dois terços da população, precisam de assistência humanitária.

Síria

O novo coronavírus começava a ganhar escala internacional no momento em que uma nova trégua entrava em vigor no início de março na província de Idlib e arredores do noroeste da Síria. Os três milhões de habitantes dessa região tinham poucas esperanças nessa nova trégua, exaustos pela última ofensiva mortal do regime de Damasco. Mas o medo da epidemia parece contribuir para a manutenção do cessar-fogo.

Em março, o número de vítimas civis caiu para o nível mais baixo desde o início do conflito em 2011, com 103 mortes, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH). Para os vários atores no terreno - o regime, as forças curdas no nordeste e as facções anti-Damasco em Idlib - a boa gestão da epidemia consolidaria sua credibilidade.

"Essa epidemia é uma maneira de Damasco mostrar que apenas o Estado sírio é eficaz e, portanto, é necessário reintegrar os diferentes territórios", estima o especialista Fabrice Balanche. A pandemia também pode precipitar a saída das tropas americanas.

Mas isso contribuiria para um vácuo de segurança que incentivaria o ressurgimento do grupo Estado Islâmico (EI), cujo "califado" na Síria entrou em colapso em março de 2019. Em nove anos, o conflito sírio matou mais de 380.000 pessoas e deslocou milhões, que são particularmente vulneráveis se a epidemia se espalhar.

Líbia

Os protagonistas do conflito líbio saudaram o pedido de cessar-fogo da ONU no mês passado... antes de retomarem as hostilidades. Os combates se intensificaram recentemente, afetando várias áreas residenciais da capital. Desde o início do ano, a violência deslocou 200.000 pessoas, a grande maioria na capital, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

As hostilidades danificaram um hospital em Trípoli na segunda-feira, onde pacientes com  COVID-19 estão sendo tratados, informou a organização. Nesse conflito, a Turquia apoia o governo de Trípoli, reconhecido pela ONU, que enfrenta há um ano o homem forte do leste líbio, o marechal Khalifa Haftar. 

Para Fabrice Balanche, um desengajamento ocidental dos conflitos na região poderia favorecer as forças pró-Haftar apoiadas pela Rússia, Egito e Emirados Árabes Unidos. Os países ocidentais são duramente atingidos pela pandemia, o que poderia pressioná-los a desviar seus recursos militares dos conflitos estrangeiros, mas também enfraquecer os processos de negociações.

Segundo um relatório do International Crisis Group (ICG), os esforços para garantir o cessar-fogo na Líbia "não atraem mais atenção ao mais alto nível".

Iraque

No Iraque, se a guerra já terminou, o país continua ameaçado pelo ressurgimento do EI em certas regiões, enquanto as tensões entre os Estados Unidos e o Irã não mostram sinais de fadiga. Washington acaba de implantar baterias de defesa antiaérea, aumentando o medo de uma nova escalada com o Irã.


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