A partir de 1914 a 11 de novembro de 1918, soldados e civis, homens, mulheres, crianças, sindicalistas, artistas e cientistas deixaram de lado suas diferenças políticas para garantir a unidade nacional e a militarização da economia. Assim foi a Primeira Guerra Mundial, que mobilizou as nações europeias na chamada “guerra total”, sem precedentes na história. “Não conheço mais partidos, só conheço alemães”, diz o kaiser Guilherme II. “Nada poderá romper a união sagrada da pátria francesa frente ao inimigo”, proclama o então presidente francês, Raymond Poincaré, em 4 de agosto de 1914.
Todos os beligerantes principalmente França e Alemanha mobilizaram suas energias no esforço de guerra. Em todos os países, foram votados orçamentos para o conflito sem dificuldades, e as escassas vozes pacifistas eram inaudíveis. As economias se organizam para responder às necessidades das Forças Armadas, em uma adaptação que é acompanhada do reforço considerável do papel do Estado e, às vezes, no caso dos impérios centrais, do controle militar sobre os recursos disponíveis. Tudo passa a ser organizado para garantir a produção de armamentos e de munições. Esse quadro se manteve assim até pelo menos 1917, quando o desgaste de um sangrento conflito sem fim e o exemplo da Revolução Russa começaram a alimentar greves e motins, abalando as unidades nacionais.
Na opinião do historiador francês Jean-Yves Le Naour, o conflito foi “a primeira guerra industrial”. O Estado, ressalta Le Naour, “assume o domínio da produção, ao distribuir os pedidos e as exportações, controlando, assim, as margens de lucro das empresas e a comercialização dos bens de consumo corrente”. A mobilização da economia traz como consequência sua racionalização e também o surgimento das linhas de montagem nas fábricas.
Na Alemanha, a militarização é ainda mais significativa. “Todo o povo alemão deve estar a serviço da Pátria”, proclama o marechal Hindenburg, que lança, no ano de 1916, uma “requisição total” da mão de obra disponível. Já na França, nessa época um país ainda essencialmente agrícola, o conflito explode no período das colheitas. Os homens partem para a frente de batalha e as mulheres ganham importância, garantindo sozinhas o trabalho no campo. E o país também necessitará delas na indústria, nos cargos administrativos e nas escolas. Surge a figura da operária encarregada de fabricar munições sempre recebendo um pagamento inferior ao dos homens. Ocorre uma feminização da mão de obra, e se começam a ver mulheres de cabelo curto, de calça comprida e fumando.
A mobilização patriótica não poupa nem mesmo as crianças. Nesse período, “os deveres escolares”, conta o historiador francês André Loez, “consistem em redigir elogios para os soldados, ou, ainda, em calcular a produção de morteiros”. A propaganda e a censura militar estão onipresentes. Químicos, físicos, biólogos e médicos colocam suas competências a serviço do governo de seus países — seja para a fabricação de novas armas, seja para a produção dos meios de se proteger delas.
Guerra envolveu mais de 70 países
• A ausência de dados confiáveis marcou a Primeira Guerra Mundial, mas o que está claro é que o conflito teve dimensões inéditas até aquele momento.
• Se envolveram a guerra mais de 70 países, que somavam 800 milhões de habitantes — metade da população da época.
• No início dos confrontos, foram mobilizadas 20 milhões de pessoas, mas o número aumentou com a prolongação da guerra. Mais de 8 milhões eram da França; 13 milhões, da Alemanha; 9 milhões, da Áustria-Hungria; 9 milhões, da Grã-Bretanha e seu Império; 18 milhões, da Rússia; 6 milhões, da Itália;e 4 milhões, dos Estados Unidos. Somente das colônias inglesas foram 2 milhões de pessoas.
Nas trincheiras da guerra
A vida na guerra foi muito dura para os combatentes, que, além da falta de higiene, da chuva, dos piolhos e dos ratos, conviviam com o cheiro da morte. Inicialmente, as trincheiras eram simples, com uma linha de frente cavada com pás e picaretas. Seguiam um traçado sinuoso para evitar os disparos e eram protegidas com sacos de areia e cercas de arame farpado para impedir o avanço do inimigo — situado algumas vezes a apenas dezenas de metros.
Pouco a pouco, as trincheiras vão se desenvolvendo: são cavados refúgios para proteger os soldados, introduzidos postos de guarda, de comando e de socorro, além de ninhos de metralhadora, tudo isso em galerias de 2 metros de profundidade e algumas dezenas de centímetros de largura. E as trincheiras da linha de frente ficam unidas à retaguarda através de galerias que criam um labirinto no qual às vezes os soldados se perdem.
Em meio aos trabalhos cansativos, a distribuição do correio, diária quando o front está tranquilo, é o momento mais esperado: traz notícias da família e às vezes inclusive pacotes com suprimentos e roupas. Os soldados, para não preocuparem suas famílias e diante da censura militar, dão em suas cartas uma versão amenizada do horror das trincheiras, muito distante da realidade.
Os primeiros telegramas que chegaram ao Rio Grande do Sul noticiando a rendição da Alemanha e o consequente fim da Primeira Guerra Mundial atraíram dezenas de pessoas na frente da antiga sede do jornal Correio do Povo, localizada na Rua da Praia.