Polícia

Um terço dos ataques violentos a escolas em duas décadas ocorreu nos últimos 10 meses

Desde 2002, país teve 22 episódios como o da última segunda-feira (27) em SP. Porém, frequência aumentou recentemente

Crime ocorreu na escola Escola Estadual Thomazia Montoro, zona oeste de São Paulo
Crime ocorreu na escola Escola Estadual Thomazia Montoro, zona oeste de São Paulo Foto : Aloisio Mauricio / FotoArena / Estadão Conteúdo / CP

O Brasil registrou 22 ataques de violência extrema em 23 escolas desde 2002, segundo levantamento da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). O número, que pode não parecer tão alto, é alarmante se considerado o recorte mais recente: mais de um terço (9) desses registros ocorreu desde junho do ano passado.

Especialistas ouvidos pelo R7 jogam luz para esta escalada da violência nas instituições de ensino, e comentam que, de modo geral, casos midiáticos e de repercussão nacional tendem a influenciar potenciais autores, inclusive devido a falhas na cobertura jornalística.

Daí, portanto, se pode explicar a maior frequência desses episódios nos últimos anos. “Isso influencia os próximos ataques. Se observarmos os ataques, são sempre parecidos com algum outro que já ocorreu, e muitas vezes baseado nesses, como no de Suzano, por exemplo”, afirma Elaine Alves, psicóloga com pós-doutorado em luto, emergências e desastres, do Instituto de Psicologia da USP.

O massacre na E. E. Raul Brasil, no município da Grande São Paulo, em março de 2019, exemplifica o argumento da psicóloga. Os dois autores possuíam inspirações no ataque em Columbine, nos Estados Unidos, 20 anos antes, e parte dos métodos foram seguidos no caso da última segunda (27), na zona oeste de São Paulo, onde uma professora foi morta a facadas por um adolescente.

Essa corrente de influências se deve também à divulgação massiva de informações e imagens relacionadas aos autores na mídia e nas redes sociais, pontua Alves. Por isso, o EWA (Education Writers Association), associação americana de jornalistas que cobrem educação, recomenda evitar a exposição excessiva dos nomes e fotos de autores e das cenas do ataque, a fim de evitar uma forma de atribuição de heroísmo aos agressores.

“É muito preocupante divulgar o rosto dos autores, como fizeram com o adolescente que atacou a escola em São Paulo. Viralizaram várias cenas do ataque. É o tipo de coisa que faz mal para os familiares, as pessoas da escola, não é algo bom. É um desrespeito, uma violência”, afirma a psicóloga.

Dado o cenário crescente no número de casos de ataques, a tendência é que mais eventos acontençam, lamenta Cleo Garcia, mestranda em educação na Unicamp e especialista em justiça restaurativa.

"Não sabemos quando, mas ocorrerão. Há uma conjunção de fatores que observamos que estão implicando nesse crescimento extremamente preocupante", afirma a pesquisadora, ao citar a radicalização com discursos de ódio em redes sociais e os fóruns extremistas, onde adolescentes são cooptados.

Grupos como esses, prossegue ela, proporcionam a esses adolescentes "acolhimento e reconhecimento, que eles geralmente não têm aqui fora, estimulando-os para que pratiquem  os ataques".

O chamado ‘efeito contágio’ foi destacado, inclusive, pela SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo), ao pontuar que, entre segunda (27) e terça-feira (28), houve ao menos sete tentativas de ataque em escolas do estado.

“A suspeita é de que a ampla divulgação de imagens do ataque ocorrido na escola da Vila Sonia, em São Paulo, no qual uma professora morreu e cinco pessoas ficaram feridas, esteja motivando esses adolescentes”, escreveu a pasta, em nota.

Metade das armas usadas eram das famílias dos autores

Dos 22 ataques levantados pela Unicamp, em 12 os autores se utilizaram de armas de fogo. Destes, ao menos seis tinham a arma em casa. Outros quatro compraram por terceiros e dois eram de origem desconhecida.

O levantamento informa outros detalhes a respeito dos 22 episódios de violência. Ao todo, foram 36 vítimas fatais, que se dividem entre 24 estudantes, cinco professoras, duas profissionais de educação e cinco autores, que cometeram suicídio. Entre os autores, 16 eram alunos e 12, ex-alunos. Em três casos eles agiram em duplas. O mais velho tinha 25 anos e o mais novo, dez.

Perfil predominante é jovem, branco e misógino

A pesquisa revela, ainda, um perfil dos autores dos ataques. Eles são predominantemente brancos, jovens e homens com comportamentos misóginos, ou seja, machistas, agressivos e favoráveis a uma visão da mulher enquanto submissa.

Outros traços marcantes de suas personalidades são o gosto pela violência e culto às armas, bem como uma espécie de isolamento social, com relações sociais e grupos restritos. A evasão escolar também se repetiu entre os agressores avaliados.