Analistas destacam os desafios em possível candidatura de Leite em 2022

Analistas destacam os desafios em possível candidatura de Leite em 2022

O governador gaúcho terá que romper a liderança paulista no PSDB e ganhar visibilidade nacional

Henrique Massaro

Mas a disputa interna no ninho tucano não é o único obstáculo para uma candidatura do gaúcho à presidência

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Quando aceitou ser uma alternativa do PSDB para a Presidência da República na eleição de 2022, o governador Eduardo Leite deu apenas o primeiro passo rumo a uma possível pré-candidatura. Antes das discussões sobre as chances do tucano em uma eventual corrida presidencial, é preciso saber se o nome do atual chefe do Piratini terá força para ser escolhido entre as lideranças do PSDB. Na opinião de especialistas a conjuntura ainda é improvável.

“Embora tenha já governado duas vezes (com Yeda Crusius, de 2007 a 2011, e com Leite, desde 2019), o Rio Grande do Sul nunca foi um estado tradicional do PSDB”, comenta o professor adjunto de Ciência Política da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Augusto de Oliveira. De acordo com ele, o eixo de São Paulo concentra a maior parte do peso nacional do partido, que, na sua avaliação, tornou-se ainda mais paulista após a eleição de 2018, quando perdeu o protagonismo dos anos anteriores.

Cientista político e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Rodrigo Stumpf González lembra que a candidatura do mineiro Aécio Neves, em 2014, só ocorreu após muitas brigas internas devido à dominância do eixo paulista. Não por acaso, ressalta, um dos nomes mais fortes para 2022 é o do governador de São Paulo, João Doria.

Apesar de ter ganhado repercussão no cenário nacional, Doria é preterido por lideranças tradicionais do próprio PSDB paulista. “Provavelmente, grupos ligados a Geraldo Alckmin ou a Fernando Henrique Cardoso gostariam de ter outro candidato”, comenta González sobre o cenário possivelmente favorável a Leite. Por outro lado, pondera: “Também pode ser uma estratégia desses grupos para esvaziar uma candidatura do Doria”. Nesse caso, alçar novamente um nome como o de Alckmin se tornaria mais viável.

Para os cientistas políticos, a disputa interna no ninho tucano não é o único obstáculo para uma candidatura do gaúcho à presidência. González, da Ufrgs, considera difícil passar de governador para presidente, e lembra que até hoje apenas Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros conseguiram dar o salto direto, além de Fernando Collor, que renunciou ao governo de Alagoas para concorrer e se eleger presidente. O cientista político considera que, atualmente, Leite não seja um nome conhecido nacionalmente.

“Para que um governador seja candidato, tem que ter criado alguma polêmica de nível nacional que atraia a atenção das pessoas”, pontua o cientista político, citando a popularidade de Collor como o “caçador de marajás”, a “vassourinha” do jingle de Jânio ou até mesmo o embate nacional que Dória vem tendo com o presidente Jair Bolsonaro. Se fosse candidato hoje, Leite poderia ter como bandeiras as reformas que conduziu nos dois primeiros anos de governo do Estado e o sistema de distanciamento controlado para o enfrentamento da pandemia, que, na visão de González, não são suficientes para projetar o tucano no cenário nacional. “Gestão competente não ganha jogo.”

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Conseguir visibilidade nacional é prioridade

O fato de ser pouco conhecido no restante do país será um dos principais desafios no caso de uma eventual candidatura de Eduardo Leite, aponta o cientista político João Trajano Sento-Sé, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Mas, na sua avaliação, o fato de ser um governante jovem, que estudou no exterior – Leite cursou políticas públicas na Universidade Columbia, nos Estados Unidos – e com um perfil mais equilibrado no espectro político pode contar a seu favor.

O professor considera que, desde FHC, o PSDB teve dificuldades de lançar um nome forte na corrida eleitoral. “Tenho a impressão de que, por enquanto, o nome dele (Leite) aparece como uma espécie de balão de ensaio interno. Seria suicídio eleitoral lançar mais uma vez um nome como o de (Geraldo) Alckmin”, avalia o cientista político, que acha difícil também João Doria emplacar para a corrida presidencial. 

Leite, por sua vez, com um perfil que se encaixa mais como de centro-direita, poderia surgir como o que vem sendo chamado de terceira via em um ambiente polarizado. Porém, segundo Sento-Sé, não há como prever o papel da polarização no próximo processo eleitoral.

Tucano poderia ter mais chances em 2026

Para cientistas políticos gaúchos, as chances de Eduardo Leite para o Planalto podem ser maiores em 2026. “A verdadeira façanha que ele tem no seu horizonte político é ser o primeiro governador do RS a ser reeleito. É uma façanha que é possível e, se vencida, ele vai ter condições de construir esse nome nacional”, acredita Augusto de Oliveira, da PUCRS. Mesmo que Leite tenha afirmado diversas vezes que não acredita em reeleição, esta opção parece a mais adequada para Rodrigo González, da Ufrgs. “O discurso acontece até chegar a possibilidade da reeleição. Sempre existe uma desculpa para arranjar essa possibilidade.”

Caso de fato honre com esta narrativa, a melhor escolha para Leite, segundo os analistas, seria concorrer ao Senado ou Câmara e construir o nome na política nacional. Um distanciamento da vida pública para estudar, como fez após deixar a prefeitura de Pelotas, antes de concorrer a governador, desta vez não parece o mais adequado. Para uma candidatura à presidência em 2022 se tornar mais palpável, seria necessário um elemento novo que mude o cenário. “Ele tem um ano para fazer algo que torne ele uma liderança nacional”, afirma González.


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