Cientista brasileiro apresenta nanossatélite que permite fotografar e analisar solo

Cientista brasileiro apresenta nanossatélite que permite fotografar e analisar solo

Fábio Teixeira desenvolveu tecnologia espacial para analisar lavouras a partir da decomposição do reflexo da luz solar

Taís Teixeira

Teixeira com o nanossatélite, equipamento que pode oferecer informações precisas da lavoura e do solo para o produtor rural tomar suas decisões

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“Um hemograma da planta”. É dessa forma que o cientista brasileiro Fábio Teixeira traduz o resultado da pesquisa que desenvolve há quase dois anos. Formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, ele foi a primeira pessoa selecionada para uma bolsa integral no programa da Singularity University, situada no campus de pesquisa da NASA, na Califórnia, e em 2015 fundou a startup Hypercubes, no Vale do Silício, em São Francisco, nos Estados Unidos.

Na Expodireto, Teixeira apresentou o nanossatélite dotado de tecnologia que permite fotografar a superfície da Terra e analisar a saúde do solo a partir de imagens hiperespectrais. 

O pesquisador trabalha na teoria do “Teletransporte quântico do efeito fotoelétrico para transmissão de energia solar do espaço”. Tão complexo quanto o nome é à sua proposta: analisar o reflexo das cores que formam a luz solar. Neste sistema cada cor é interpretada. “A gente decompõe essas cores que são reflexo do alvo, no caso a lavoura. Cada uma corresponde a uma deficiência. Os diferentes estados da planta alteram essa cor e daí que a gente entende o que acontece. Juntas formam uma biblioteca, um banco de dados, composto por assinaturas espectrais, que é como chamamos cada deficiência. Os resultados serão precisos, o que vai ajudar na tomada de decisão do produtor rural”, explica.

Para capturar imagens das plantas, Teixeira desenvolveu um nanossatélite que vai orbitar a Terra. Com a função de fornecer o respaldo e o conhecimento técnico e específico do cenário agropecuário, outro brasileiro integra a equipe, o engenheiro agrônomo Rogério Raposo. O produtor rural também participa desse processo. 

Raposo explica que há três fases de produção do conhecimento. Na primeira, ele mostra para o Teixeira quais são as necessidades da lavoura para o parceiro de trabalho identificar no satélite. A segunda é confirmar se a biblioteca criada pelo próprio produtor, na qual ele elenca quais deficiências quer monitorar, corresponde ao que está sendo lido pelo satélite. “A terceira é integrar tudo isso e entregar uma plataforma para ajudar o produtor”, complementa.

O primeiro satélite vai para o espaço em julho. Nesta etapa, o aparelho vai para uma estação espacial onde um astronauta fará os testes necessários. “A gente depende desse reporte do astronauta para saber o que precisa ser alterado no aparelho”, revela Raposo.

Constelação espacial

O nanossatélite não vai orbitar sozinho. Ele atua em um conjunto. “É uma constelação de 100 nanossatélites, que decompõe essas cores a nível quântico. O nanossatélite, que é muito menor e tem implementação mais rápida do que o satélite padrão, vai orbitar a Terra e fazer essa leitura. Como se fosse um hemograma da planta”, destaca Teixeira.
Nesse momento, o objetivo é buscar parceiros. “Produtores, agrônomos, pesquisadores e cooperativas para validação em campo do que aprendemos na Biosphere, que é uma biosfera onde podemos manipular todas as variáveis que influenciam o desenvolvimento de uma cultura sob a vigilância da mesma tecnologia embarcada em nossos satélites. Lavouras serão objetos-alvo do instrumento a ser lançado a bordo da Estação Espacial Internacional. Nosso primeiro teste no espaço. Queremos buscar um parceiro no Sul do Brasil”, complementa.

O convite para o projeto ser exibido na Expodireto surgiu de uma missão técnica formada por 27 diretores de cooperativas e representantes da Fecoagro, Cotrijal e CCGL. O diretor executivo da Fecoagro, Sérgio Feltraco, afirmou que essa proposta está relacionada com a necessidade de inovação. “Aumentar a produção de alimentos e combater a fome no mundo através de inovações disruptivas que auxiliem a produção. Ficamos muito impactados com a tecnologia de nanossatélite que permite precisão na tradução de informações”, sintetiza.

O presidente da Expodireto, Nei Manica, disse que é uma busca de conhecimento. “Precisamos trazer para a Expodireto tecnologias que nos preparem para as adversidades de clima e de mercado”, conclui.

Lançamento para 2021

Raposo afirma que, num primeiro momento, a construção do nanossatélite é cara, mas que, ao se tornar “popularizada”, a tendência é que o investimento diminua. “Hoje ele custa em torno de 5 milhões de dólares, um valor muito menor que o dos satélites, que custam dezenas de milhões de dólares”, compara. A comercialização deve ser pelo modelo de assinaturas de pacotes. “O nome da plataforma é Symbios, sistema similar à contratação dos serviços de streaming de vídeos no mundo”. O lançamento está previsto para 2021.

O produtor rural Libório Araldi considerou a iniciativa excelente. “Trazer uma tecnologia que está na NASA para a Expodireto, que propõe aumento de produtividade e redução de custos, vem para engrandecer”, elogiou.

É do céu que vem o sol e a chuva que o produtor precisa, na medida certa, para ter resultados. Do céu também pode vir a inovação para ajudar a combater a fome no mundo. 


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