Filas e falta de remédios: usuários relatam problemas na Celme de Porto Alegre

Filas e falta de remédios: usuários relatam problemas na Celme de Porto Alegre

Em um caso, moradora de Porto Alegre está há dois meses sem tomar remédio de R$ 20 mil e corre o risco de ficar paralisada

Felipe Faleiro

Em outros casos, pacientes também aguardam na rua para conseguir atendimento

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Quatro meses depois da mudança do Centro Logístico de Medicamentos Especiais (Celme) para a avenida Azenha, em Porto Alegre, a situação das filas de usuários em busca de remédios controlados ainda carece de melhorias. E para agravar a situação, há relatos de falta de medicações, prejudicando a vida normal de quem depende deles, além de excesso de burocracia no espaço. Na manhã de segunda-feira, o movimento de pessoas era intenso, e havia quem aguardasse na calçada em frente ao local.

Desde 12 de dezembro de 2022, a gestão do espaço é feita pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS), por meio da Associação Hospitalar Vila Nova, mas o estoque de remédios continua sendo gerenciado pela Secretaria Estadual de Saúde (SES). Tal situação gera confusão e apreensão, como para a professora universitária Gicele, moradora do bairro Hípica. Ela faz uso do adalimumabe, para tratamento da espondiloartrite aquilisante, bem como tem diagnóstico de fibromialgia.

Ambas as doenças são autoimunes. Porém, devido à burocracia, há dois meses ela não toma o medicamento. “Já estou sentindo os reflexos”, relata. “Passei por um período longo de internação após uma crise sem precedentes para uma delas. Uma dose do adalimumabe custa em torno de R$ 20 mil, e preciso de duas por mês”, explica Gicele, informando que o tratamento iniciou após a melhora em sua condição. Segundo a paciente, caso a situação prossiga, ela poderá ficar paralisada.

A professora conta que, quando necessitou inicialmente, ingressou junto ao governo para receber a medicação e conseguiu de forma rápida. “Nos cinco meses após a liberação, o medicamento sempre esteve disponível para mim. Quando chegou na sexta entrega, fui comunicada de que não havia a disponibilização do mesmo e não havia data para retorno”. Mais tarde, a professora procedeu com a renovação semestral, porém a atendente do Celme teria dito que ainda não havia o medicamento.

“Houve uma alteração do laboratório responsável pela produção do mesmo e não há previsão de entrega. Todos os pacientes recebedores deste medicamento teriam nos processos uma alteração sobre o novo fornecedor. Isto ainda não ocorreu. Não recebi nenhum comunicado do Celme sobre o novo laboratório”, relatou ela, apreensiva. “Assim como eu, outros pacientes devem estar preocupados com a demora e a consequente regressão do tratamento. Desde esta mudança de responsabilidade para a SMS, o atendimento, que era dinâmico, regrediu, e está muito confuso para os usuários”.

No Celme em si, os funcionários relataram saber do problema, e informaram que, na última sexta-feira, o Estado encaminhou “alguns medicamentos” que estavam em falta, mas não souberam informar quais. Já outros “ainda estão em falta”, e poderia haver quem chegasse ao local e não saber se seu remédio estaria disponível. O aposentado Adelson Fernandes estava aguardando para receber o Alenia, utilizado para tratamento da asma. “Antes, eu recebia quatro caixas por mês. Agora, apenas uma. Isto me atrapalha um bocado. Talvez seja pela falta dele”, comentou ele, que mora no bairro Menino Deus.

Segundo Adelson, o antigo endereço do Celme, na esquina da avenida Borges de Medeiros com a rua Riachuelo, no Centro Histórico, quando o espaço ainda se chamava Farmácia de Medicamentos Especiais, “era melhor para o acesso”. Procurada, a SMS informou apenas que o estoque dos remédios controlados é de responsabilidade do Estado. Também na segunda, o titular da secretaria, Mauro Sparta, disse após um evento em Porto Alegre que as filas “já diminuíram muito”.

“O que demora mesmo é o encaminhamento da documentação”, justifica o secretário, atribuindo, portanto, a responsabilidade do grande volume de usuários a questões estaduais. “A pessoa pode levar seus documentos e receituário em cinco locais do município”. Ou seja, não é necessário encaminhá-lo diretamente no Celme. De qualquer forma, Sparta afirma que a SMS estuda um sexto local, na avenida Salgado Filho, no Centro Histórico, igualmente apenas para abertura de protocolos.

Já a SES relata que há estoque para atender às demandas, e que o município “precisa informar o motivo de o medicamento não estar chegando até o usuário, se isto estiver acontecendo”. Sobre a Alenia, há mais de 64 mil frascos disponíveis, e a respeito do adalimumabe, “o mesmo é comprado pelo Ministério da Saúde e distribuído de acordo com a necessidade de Estados e municípios”, disse a secretaria, que orientou conferir a situação com o ministério. Contatado, o governo federal não respondeu até o fechamento desta reportagem.


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