Porto Alegre, sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

  • 26/03/2014
  • 07:51
  • Atualização: 08:18

Porto Alegre: espaço para arte, trabalho e realização

Nas ruas da cidade, escritor encontra inspiração

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  • Correio do Povo

A primeira vez que o escritor e ilustrador Hermes Bernardi Junior, 48 anos, entrou em Porto Alegre, foi caminhando. De carona, ele e uma amiga embarcaram em Pelotas para conhecer a Capital. Foram deixados em cima do vão móvel da Ponte do Guaíba, de onde avistariam toda a vastidão de prédios e a orla da cidade grande. De lá, sem noção das distâncias, seguiram até o endereço da Casa do Estudante da Ufrgs. “Era um menino de 16 anos conhecendo a Capital, que era onde tudo acontecia.”

Nascido em uma reserva indígena em São José do Ouro, Bernardi Junior passou a infância em Santiago e foi estreitar a relação com Porto Alegre em 1998, momento em que lançou o primeiro livro infantojuvenil, “Abecedário Alegre do Porto”. “Ali eu declarei todo o meu amor pela cidade na voz poética de um menino que faz um tour com a avó.” A obra colocou o escritor no mapa literário e fixou Bernardi Junior na Capital dos gaúchos. Em 2001, lançou âncora no Guaíba definitivamente.

Nas vezes em que se afastou da cidade, sentiu saudade do 'sotaque das ruas'. Um dos pontos de inspiração do escritor é o horizonte que avista da Fundação Iberê Camargo. Dali, consegue enxergar o desenho dos prédios, começando pela chaminé da Usina do Gasômetro. Diferentemente do que a maioria dos leitores imagina, ele escolhe lugares para se sentar e colocar as ideias no papel. 'Tenho usado lápis e caderno, porque estou tentando me distanciar do computador', conta.

Com 23 livros escritos, diz ter hoje um olhar mais crítico sobre a Porto Alegre que o acolheu. “Pelo aspecto de mobilidade social, vejo que muitas coisas evoluíram e outras regrediram. Culturalmente, acho que estamos estagnados. Porto Alegre já foi referência e perdeu o status. O artista local é pouco referenciado”, opina.

Tomar posse da cidade

O primeiro impacto da chegada a Porto Alegre foi o engarrafamento na avenida Farrapos. Para um menino de 14 anos que saía de Vacaria, a cena era marcante. José de Jesus Camargo desembarcou na Capital com um colega para tentar vaga no Colégio Marista Rosário. A primeira noite foi tranquila, no Hotel Ryan. “Na manhã seguinte, meu colega, que era de uma família mais pobre, descobriu outro hotel mais barato, e fomos para lá. Na inocência dos meus 14 anos, demorei três dias para perceber que estávamos em um bordel”, conta. As lembranças daqueles primeiros dias na cidade são recontadas pelo médico - pioneiro em transplante de pulmão na América Latina. A formação em Medicina ocorreu em 1970, na Ufrgs. E quanto mais o tempo passava, mais se afeiçoava à cidade.

Trocou de endereço várias vezes, mas foi em meados dos anos 70, residindo na rua Duque de Caxias, que descobriu os encantos do Centro. "Nesta época nasceu meu primeiro filho. Eu passeava com ele até a Praça da Matriz. A praça é uma das minhas paixões, é um grande charme, assim como a Praça da Alfândega, a Casa de Cultura, o Museu de Arte."

Quando foi convidado a permanecer na Santa Casa, passado o período de residência, foi em um desses espaços que comemorou. “Saí correndo até a Praça da Alfândega. Era como se eu tivesse que tomar posse da cidade, daquilo que eu gostava muito.”

Ao ser cobiçado para trabalhar fora do Brasil - na década de 80, fez especialização na Clínica Mayo, nos Estados Unidos - sofreu com a ideia de se desapegar de Porto Alegre. As dificuldades que a Santa Casa vivia naquele momento fizeram o médico ficar. Hoje, ele diz enxergar Porto Alegre por meio de uma Santa Casa modelo.

Fazendo moda desde 1969

Milka Wolff trocou Bagé por Porto Alegre com 14 anos. Acompanhada por duas irmãs e um irmão mais velhos, ela veio para estudar. Os pais ficaram no Interior. Foi na Capital que a estilista com mais de 50 anos de profissão desenvolveu o gosto por corte e costura. Bem novinha, iniciou um curso na área, na avenida João Pessoa. “Tudo o que eu aprendi e sei até hoje foi nesse curso”, diz. Milka se casou nova, aos 17. “Naquela época era normal. Três anos após chegar a Porto Alegre, as três irmãs estavam noivas”, conta a estilista de 72 anos.

O primeiro marido também era migrante, oriundo de Passo Fundo. “Nós nos conhecemos numa reunião de turma”, recorda Milka, que hoje está no terceiro casamento e faz questão de frisar, com humor, que todos os relacionamentos amorosos duraram bastante: “Com esse marido já estou há 20 anos”. A estilista teve quatro filhas, todas porto-alegrenses.

A primeira loja que abriu na Capital, a Petit, vendia roupas para adolescentes, uma novidade em 1969. Foi nessa época que ela decidiu oferecer seus vestidos fora do Estado. Em São Paulo, ela recorda que as primeiras experiências não foram boas: “Ninguém acreditava que se produzia moda no Rio Grande do Sul. Não éramos referência”. Milka chegou a abrir seis lojas após a primeira, que ficava na Galeria Malcon, no Centro. Em 1971, mudou-se para o atual endereço, na Giordano Bruno, entre o Parcão e a Redenção, no bairro Rio Branco. “Quando cheguei no bairro, meu ateliê era o único espaço comercial. Hoje tem quatro salões de beleza só na minha rua.”

Apesar de viajar bastante principalmente pelo exterior, ela se diz encantada com a tranquilidade da Capital e com o povo daqui. “O gaúcho não é efusivo como o carioca e nem fechado como o paulista. É normal. Eu gosto disso.”

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