Éramos poucos, mas éramos muitos. Uns cinco ou seis, por vezes mais alguns, mas hoje, passado tanto tempo, parece que era um batalhão. Vivíamos juntos embora nossas casas não ficassem próximas naquele rincão de fim de mundo, sem energia elétrica, sem água tratada, sem escolas, sem saneamento básico. Quem olhasse de longe para aqueles guris diria “não vão longe”. Porém, desafiamos o impossível, crescemos estudando em livros velhos, jornais descartados, nas ondas do rádio. Havia algo mágico, passávamos tudo que sabíamos uns aos outros, irmanados, quando um aprendia, ensinava o vizinho, o colega, um outro “repolho” como nos chamavam. Depois crescemos e, pasmem, todos se formaram ou aprenderam profissões. Alguns associaram a milagre, mas eu sei bem o que foi. Éramos sonhadores e lutamos muito, dando faconaços no escuro.
Sim, no escuro. No verão, brincávamos sob o luar, na frente do bolicho, e, por isso, fomos aprendendo a ter olhos de cavalo, de enxergar até no escuro. Cegados pela escuridão, ampliamos a visão das coisas e dos fatos. Nas noites sem claridade corríamos atrás dos vagalumes, colocávamos os insetos em garrafas vazias e criávamos lanternas. E brincamos muito. Sonhamos com antigas campereadas, entreveros, tropeadas e rondas sob o luar. Uma vez inventamos uma aventura com cavalos de taquara, com lanternas na mão. Gente da cidade, viu isso e começou a dizer que éramos pirilampos. Talvez, mas uma coisa é certa, éramos corajosos e a coragem é uma coisa que a vida pede para a gente. “Os vagaluma”, brincava seu Turíbio, o velho rabugento que vivia no bolicho reclamando de tudo.
Tínhamos coração de pandorga e alma de pirilampo, tínhamos sentimentos e ações arrojadas para uns guris de uma campanha esquecida. Hoje, aqui onde estou, morando tão longe, recordo com saudade sentida daqueles dias e noites em que nada era ruim, nada nos preocupava, éramos tão aventureiros e destemidos porque éramos jovens. Éramos poucos, mas parecia sermos vários. Fazíamos campeonatos de pescaria, de pandorgas, de pealar terneiros, de caçadas de preás. Impressionante como mantínhamos uma organização em uma época sem celular. Mandávamos mensagens em todo lugar que fosse possível, recados uns aos outros, uma malha informativa que envolvia cachaceiros, tropeiros, motoristas, changueiros, irmãos, irmãs e primos. E tudo dava certo ao fim e ao cabo. Por vezes, iam bilhetes curtos e objetivos ou então uma visita para acertar uma atividade importante.
Naquela época a impressão era de que os dias, noites e anos se demoravam a passar. As coisas escorriam lentamente como a água da sanga, gelada, gambeteando entre as pedras com musgo. Porém as coisas mudam. Teve um ano que veio tão ligeiro que nos levou para o quartel. Tínhamos ficado “de maior”, adultos. Foi quando nos dispersamos, um para cada lado, como vagalumes vagando na escuridão, fazendo novos amigos e vivendo a vida que continuava. Mas nunca foi a mesma. O tempo, um verdugo sem escrúpulos, nos afastou do rincão, mas quando nos víamos era uma festa. Aquele grupo se espatifou, uns morreram, outros sumiram na poeira da estrada, mas a luz dos pirilampos seguiu acesa. Esse lume nunca se extingue porque permanece em nosso âmago, nos internos do corpo, nas veias, couro e ossos.
Seguiremos pirilampos, antigos luzeiros iluminando a estrada, a noite escura do povo do Sul. Ficaram gravados no meu coração alguns nomes, o Juca do Cerrito, o Clécio, o Lebrão, o Chupim, o Valter, o Botinha, o Mudinho, o Bibo, o Lampião, o Mamute, o Bila, o Chibo, o Carlinhos, o Marcelo, o Dado, o Luíz, o Aranha.
Nas noites longas e frias desse inverno onde entardeço aos poucos, às vezes acordo sobressaltado, trançando recuerdos extraviados em algum socavão da memória. Lá estamos nós, de novo, de calças curtas e pés descalços, escaramuçando nas travessuras e traquinagens da infância. Nunca saberão nossos nomes, de onde éramos, mas estaremos voando na eternidade com fogueiras no peito. Por certo, misturados para sempre entre as estrelas.