Tudo corria bem no meu dia. Fim de tarde frio, o sol se esforçando para sair por detrás das nuvens no centro de Porto Alegre. Ganhei de presente do dono de um brechó de discos que frequento há anos um livro de Rousseau: “Os Devaneios do Caminhante Solitário”. Cheguei a ler umas 20 páginas dele logo de cara. Estava, assim como Rousseau, entretido com meus devaneios, ouvindo num walkman que havia adquirido no dia anterior uma fita cassete: “Concertos 3 e 4 para piano e orquestra”, de Rachmaninov. Nada aparentemente podia dar errado.
Aparentemente.
Se não fosse pelo fato de estar encostado num carro estacionado na rua, e não ter percebido que o dono estava em seu interior. Mas não tardei a notar sua presença. Da forma mais agressiva possível. O sujeito abriu a porta do carro e já saiu esbravejando. Vejam bem, senhoras e senhores, a gente deve pedir desculpas quando comete um erro. Pedi, mesmo sabendo que encostar num carro não chega nem perto de outros tantos erros que já cometi na vida. Mas dependendo da forma com que eu reagisse, aquele “erro” poderia ter consequências imprevisíveis. E funestas. O diabo costuma rondar essas situações, eu bem sei.
Me desculpei, mas pouco adiantou. O motorista tinha os ouvidos cimentados diante das minhas desculpas. Insisti que eu havia errado e pedi desculpas novamente. A situação deixou bastante irritado o dono do brechó, que estava próximo a mim, e as atenções do motorista ensandecido se voltaram para ele. Eu o afastei da cena e, mais uma vez, pedi desculpas.
O motorista entrou no carro, ficou mais um tempo ali, e saiu, parando mais adiante onde esperava pela chegada de uma mulher. Ambos foram embora e eu terminei a situação pouco tempo depois, calmamente, tomando um café com leite (sem açúcar) e um omelete numa padaria próxima.
O desfecho poderia ter sido outro, certamente, ainda mais se levarmos em conta as tantas histórias de pessoas que, por conta de discussões banais na rua, acabaram repousando em mesas de aço inoxidável. Uma fração de segundo que pode determinar seu destino. O motorista poderia estar armado, não só de espírito.
Eu poderia ter virado estatística. Não costumo ter o sangue frio necessário para desescalar situações como essa (salvo uma vez que impedi que dois homens se engalfinhassem à beira de uma highway na Irlanda do Norte). Porém hoje meu sangue não atingiu o ponto de ebulição. Devo isso a Rousseau e Rachmaninov. Graças a eles, fui transportado para um ambiente diferente do entorno do viaduto da Conceição, cujas calçadas encardidas guardam memórias do sangue espirrado por justos e pecadores. Isso me garantiu a serenidade essencial para lidar com a fúria de um motorista cuja traseira de seu carro havia sentido o calor de minhas nádegas. Um verdadeiro ultraje!
Obrigado, artistas. Devo essa a vocês.
Carlos Latuff* é chargista e ativista