Um autor que parte da realidade para contar suas histórias. Aos 59 anos, o espanhol Javier Moro é um dos autores que pesquisa profundamente temas, personagens, costumes e nações para contar histórias verdadeiras com o recheio ficcional necessário para que elas sejam contadas. Este madrilenho participa da 60ª Feira do Livro de Porto Alegre neste sábado, trazido pela Câmara Rio-Grandense do Livro com apoio do Instituto Cervantes. Às 18h30min, no Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (Andradas, 1223, 4º andar), o espanhol estará em mesa que debaterá a trajetória da sua obra, com mediação de Luiz Gonzaga Lopes, editor de Cultura do Correio do Povo. Às 20h, ele autografa "Meia-noite em Bhopal", escrita em parceria com o seu tio Dominique Lapierre, publicado pela Editora Planeta, na Praça de Autógrafos.
Entre as histórias contadas por Javier estão as vidas de dois brasileiros, Chico Mendes e Dom Pedro I, foram retratadas em "Caminhos de Liberdade" e "O Império é Você", que conquistou o Prêmio Planeta 2001 na Espanha. Sônia Gandhi, a italiana que se tornou uma das principais políticas da Índia, teve sua vida romanceada em "O Sári Vermelho", e a espanhola Anita Delgado, que se tornou uma princesa indiana, em "Paixão Índia". Também já abordou a luta pela liberdade do Tibete, em "As Montanhas de Buda", e a história de superação de um tetraplégico, em "O Pé de Jaipur".
"Meia-noite em Bhopal" é uma história verídica ocorrida na cidade indiana na madrugada de 2 para 3 de dezembro de 1984. Um vazamento de um gás tóxico de uma fábrica de pesticidas matou 30 mil e feriu 500 mil pessoas. As consequências e sequelas seguem até os dias de hoje na Índia. Uma família de camponeses indianos expulsa de sua terra por enxames de pulgões assassinos. Três entomólogos nova-iorquinos que inventam um pesticida milagroso. Um gigante da indústria química que encontra um gás mortal para fabricá-lo. Jovens engenheiros do Ocidente que querem acabar com a fome do terceiro mundo. Um trabalhador louco por poesia que desencadeia o Apocalipse. Médicos heroicos que morrem envenenados.
Em entrevista ao Correio do Povo, Javier Moro fala das consequências da tragédia em Bhopal, dos livros sobre Chico Mendes e Dom Pedro I, das biografias sobre pessoas vivas e os escritores brasileiros que ele lê.
Correio do Povo - Como podem ser evitadas as tragédias, como a fuga de pesticidas da Union Carbide em Bhopal e como seu livro (co-autoria com Dominique Lapierre) serviu para alertar o mundo sobre esse tipo de prática?
Javier Moro - A tragédia de Bhopal ensinou ao mundo que não podem antepor os rendimentos ou a viabilidade econômica de uma empresa antes da segurança. Basicamente, o acidente ocorreu porque a fábrica estava perdendo dinheiro e a gestão foi pressionada para reduzir custos operacionais. Em uma sociedade tão hierarquizada como a da Índia, esses engenheiros responsáveis pela fábrica, mesmo que tenham sido ex-alunos do MIT, tomaram uma série de decisões equivocadas para economizar custos, e uma dessas decisões levou ao desastre. Mas Bhopal não é uma tragédia, como tantos outros, como um tsunami, um terremoto ou um acidente de trem. O problema é que a tragédia de Bhopal segue viva, porque agora nascem os netos dos afetados pelo vazamento de gás com deformidades graves. E isso porque ao desastre do vazamente de gás se uniu a ausência de justiça para as vítimas, as mais pobres da cidade. Não se investigou a síndrome de envenenamento para encontrar uma cura, de modo que ainda não há um protocolo de tratamento. O desastre se transformou em uma tragédia que não tem fim.
Correio do Povo - Alguns personagens que têm a ver com a história do Brasil, mais antigos e mais recentes, são retratados em dois de seus livros. Você poderia nos dizer o que o moveu a escrever a história de Dom Pedro I e também de a Chico Mendes?
Javier Moro - Como um antropólogo de formação, sempre me interessou a situação dos povos amazônicos. Quando mataram Chico Mendes no Brasil, eu estava pesquisando outra história e fui para Xapuri. Chegar dois dias depois do funeral. Havia um ambiente de fim de mundo, o que me intrigou. Quis saber quem havia sido Chico Mendes e porque o mundo inteiro chorava sua morte. Fiquei no Brasil dois anos pesquisando a história da sua família e a do jagunço contratado para matá-lo. Convivi com seringueiros, garimpeiros, fazendeiros, fiz amizade com um jagunço e entrevistei Marina Silva no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Branco. Fazendo este livro, Caminhos de Liberdade, me apaixonei pelo Brasil. Sempre me havia intrigado como Portugal tinha conseguido manter sua colônia unida, Brasil, e a Espanha a havia perdido em uma miríade de pequenos países. Isto me levou a interessar-me pela criação do Brasil como nação, e é aí que aparecem Pedro I e João VI.
Correio do Povo – Como você lida com as críticas a seus livros, principalmente de pessoas retratadas por eles?
Javier Moro - É difícil escrever sobre pessoas vivas, porque é impossível que a imagem um tem de si mesmo coincida com a de alguém que escreve sobre você. Eu tive problemas com Sonia Gandhi, com o neto do marajá de Kapurthala, mas o que eu nunca esperava é que Laurentino Gomes, de cujo livro "1808" sou um grande admirador, havia recebido o livro uma atitude de desprezo e até mesmo agressiva. Chegou a declarar a imprensa que "O Império e Você" era outro exemplo do neocolonialismo que a Espanha exerce sobre o Brasil. Como se pode dizer semelhante estupidez?
Correio do Povo – O que você conhece e o que você gosta da literatura brasileira?
Javier Moro - Eu gosto dos clássicos, que são aqueles que eu li. Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Jorge Amado, que parece ter caído um pouco no esquecimento nos dias de hoje. Eu li Nélida Piñon e alguém mais, mas desconheço a nova geração.
Correio do Povo – Qual o teu próximo projeto literário ou pessoal?
Javier Moro - Dizem que dá má sorte falar sobre um projeto sem havê-lo acabado...
"É difícil escrever sobre pessoas vivas", comenta atração espanhola
Javier Moro participa de mesa e de autógrafos de 'Meia-noite em Bhopal', neste sábado na Feira do Livro<br />