Festejando 30 anos de carreira, Lilian Menezes esteve em cartaz até poucos dias com o premiado espetáculo “Elis, a Musical”, dirigido por Dennis Carvalho, onde dividiu protagonismo com Laila Garin. A produção passou por Recife, Fortaleza, São Luiz, Rio de Janeiro e São Paulo. Para 2025, a artista vem com novidades não só como atriz e cantora, mas, também, como produtora cultural. Sócia-proprietária da Mistura das Artes desde 2013, vai encenar o espetáculo de teatro-canção “É, Foi, Será”, que se passa durante a pandemia e ressignifica a dor da perda através da amizade e empatia entre uma mãe que perdeu seu filho e um jovem que perdeu seu marido, para quem ela aluga um quarto durante esse período ainda tão presente na vida de todos nós. O projeto tem direção e composições de Pedro Sá Moraes e dramaturgia de Arthur Chermont. Além disso, retornará aos palcos com o sucesso “Lílian Menezes canta Elis”, um tributo em comemoração aos 80 anos de Elis Regina, que terá direção musical de Marcelo Mariano.
Júri da temporada 2024 do “Canta Comigo”, na Record, atuou, criou e produziu, por mais de 10 anos performances para eventos, espetáculos e TV (como o programa “Hebe”) na arte do ilusionismo, sendo uma das pioneiras no protagonismo das mulheres criadoras na mágica no Brasil. Também estrelou peças e musicais como “Bem Sertanejo, o Musical” em que atuou ao lado de Michel Teló, que foi seu mentor no programa The Voice Brasil, em 2018. A artista também recebeu o prêmio de Melhor Atriz Internacional no Digital Media Fest, em Berlim, por sua atuação na websérie “Manu”.
Como observas tua trajetória profissional de três décadas? O que ainda falta realizar?
Sou imensamente feliz sendo artista e tenho um grande orgulho da minha trajetória. Sempre tive muito cuidado na edificação do meu ofício e da profissional que sou, e acho que isso se reflete no meu trabalho e ao longo da minha carreira, que permanece firme e forte até aqui. Mas ainda falta fazer muita coisa que eu nem sei o que é. Essa é minha única certeza. Tenho alguns projetos em vista, pessoas com quem almejo trabalhar, muitas ideias na cabeça, algumas na gaveta, outras já em andamento, mas estou sempre aberta ao fator surpresa do que a arte tem reservada pra mim. Almejo uma carreira longa, próspera e diversa, que seja sólida, mas tenha fluidez, que seja bem alicerçada, mas com mobilidade. E para isso, tem que estar em estado de preparação constante, não dá para ficar parada. O artista é um ser em eterna construção e manutenção.
Recentemente integraste o júri do “Canta Comigo Teen” na Record. É mais difícil julgar ou ser julgada?
Ser julgada não é uma situação confortável, definitivamente, mas não foi uma grande questão para mim quando fui participante de outro reality. Mas estar na posição de julgar, ter o poder de validar a arte de alguém em uma única apresentação, num momento cercado por circunstâncias diferentes, pessoas desconhecidas, muitas expectativas, num ambiente de competitividade, ainda que haja coleguismo, em que as emoções estão à flor da pele, é uma missão de muita responsabilidade. Ainda mais quando se está julgando artistas em construção, como é o caso do Canta Teen. Os candidatos depositam seus sonhos em nossas mãos e há que se ter muito respeito por isso na hora de julgar uma performance. Não é uma tarefa fácil, mas tive muito prazer em realizar, me emocionei muito e posso dizer que estar nessa posição me ensinou muito. Com certeza, repetiria a experiência.
Como é avaliar o trabalho de jovens talentos que sonham com o mercado?
Antes de tudo, é restaurador! A juventude me deixou muito feliz e esperançosa como artista. Um show de talento, profissionalismo e companheirismo. E um repertório rico, recheado de músicas brasileiras, que me deixaram bastante animada com o futuro da nossa música. Porém, avaliar esses jovens artistas, como disse anteriormente, é uma tarefa de grande responsabilidade e exige, além de conhecimento, muita consciência na hora de transmitir essa avaliação. Ter a compreensão de que sua opinião, as palavras que serão usadas para justificar um voto ou não, a maneira como os argumentos serão colocados, podem afetar definitivamente a longevidade da carreira e dos sonhos de alguém. É preciso muito tato, carinho e acolhimento, principalmente ao lidar com crianças e adolescentes que estão iniciando na vida artística. Nem sempre a gente se levanta para cantar junto, há que se ter critérios, pois, enfim, é uma competição, mas, saber como orientar o candidato é fundamental para que ele cresça e siga confiante na arte.
Começaste a carreira na adolescência. Como descobriste o interesse pelas artes? Hoje está mais fácil ser artista com a existência de plataformas digitais, onde é possível expor os trabalhos?
É mais fácil se expor, mas isso não estabelece sucesso ou longevidade. Ser artista vai muito além de ter um veículo onde aparecer e exige um trabalho constante. E a arte, em sua essência, vem antes da exposição, é um jeito de sentir a vida que se torna tão grande dentro do artista que precisa ser exposto para ganhar sentido. Foi assim que descobri a arte em mim, porque ela sempre foi meu jeito de olhar para o mundo desde menina. Sempre foi minha forma de expressão, mesmo antes de entender que era artista. Meu pai cantava para mim, tocava violão e minha mãe me levava para assistir balés e peças teatrais, então, fontes de inspiração nunca faltaram. Sonhava em ser bailarina, adorava dançar e cantar, sempre fui afinada e musical. Aos cinco anos, ganhei um troféu num concurso de talentos, até ser picada, em ocasiões distintas, pelo bichinho do teatro. E o mais engraçado é que, nas duas vezes, não tinha a menor intenção de atuar, só queria dirigir. A primeira vez, aos 10 anos (sim, fui uma diretorinha precoce), quando resolvi montar os Saltimbancos para ser apresentada numa festividade de escola e fiz até teste entre as coleguinhas, mas ninguém conseguia decorar as falas do jumento, então, fui eu e fiz. E gostei. Mas a picada definitiva veio aos 13 anos, quando encenei uma peça para um trabalho de escola, valendo nota. A princípio, novamente, minha intenção era, apenas, dirigir. Juntei a turma que queria e escolhemos uma peça, que ensaiamos por semanas No dia anterior à apresentação, o garoto que protagonizava brigou com o grupo e decidiu não fazer o trabalho. Ou seja, íamos ficar sem nota, porque não tinha como fazer a peça sem ele e nem tempo para substituir. Lembrei de uma sketch que fazíamos todo ano numa colônia de férias e que era toda improvisada, e assumi a direção e o protagonismo pra salvar a turma do zero. Resultado: tiramos nota máxima e fomos convidados pela direção pra apresentar para todos os alunos no teatro do colégio. Quando eu pisei no palco, foi como ouvir um chamado e soube que era ali o meu lugar. E desde então, mergulhei no universo da arte, estudando, criando, produzindo e atuando dentro das diversas possibilidades que me foram propostas como ambiente de trabalho. Nunca dependi dos veículos de comunicação para ser artista, mas eles são parte desses ambientes onde meu ofício é empregado, então, considero esses meios importantes para a exposição de novos artistas, até porque favorece a descentralização do monopólio da tv e dá ao público a liberdade de escolha.
Deste vida a Elis Regina em “Elis, a musical”. Como paulistana, como foi dar vida à cantora gaúcha? O que tem de semelhante a ela?
Finalizamos nossa turnê 2024 em São Paulo, depois de rodar por Fortaleza, Maranhão, Recife e Rio de Janeiro, e que já viajou por muitos outros estados no país. E é interessante perceber o quanto Elis é uma pessoa muito plural e foi se moldando culturalmente. Nasceu gaúcha, mas é natural do Brasil. Na verdade, pouco vimos da Elis gaúcha raiz, com sotaque e maneirismos carregados, por ter que se adaptar com rapidez para não ser vista como um peixe fora d'água. Ela nunca deixou de lado o imperativo gaúcho e essa herança foi fundamental para que ela se adaptasse sem perder sua identidade. Mas, era uma pessoa muito inteligente, então, logo foi se fundindo ao ambiente onde estava E, como uma pessoa musical, como ela mesma disse, foi influenciada pela sonoridade regional dos sotaques, com seus ritmos, cadência, acentos, articulações e melodias.
Nasci paulistana, enraizada no asfalto, carrego a cidadania profissional que temos, mas venho de família nordestina e meu trabalho já me levou a todas as regiões do Brasil, então, me vejo e me reconheço muito em outros lugares. Dependendo do período de convivência, sou facilmente absorvida pela sonoridade e pelo ritmo local. Acho que nos assemelhamos nessa habilidade de adaptação e na musicalidade que vem do ofício, da vivência de outras possibilidades humanas que vão além das nossas origens.
Você tem uma relação muito forte com a história da gaúcha Elis Regina: além de interpretar a artista em “Elis, a musical”, você tem um show em homenagem à ela que volta aos palcos em 2025. Como surgiu esse interesse?
Ouço Elis desde a infância, conheci sua voz interpretando Corujinha no disco “A Arca de Noé”, de Vinicius de Moraes, e desde então, ela se tornou uma referência. Nunca imaginei que iria interpretá-la, mas sempre achei que faria algo ligado a sua história. Elis tem grande importância na minha vida, são só como referência artística, mas na prática, enfim, foi ela quem me trouxe e deu visibilidade para o meu trabalho no teatro musical, o que me fez, também ,dar vida a ela novamente no filme Simonal, que conta a trajetória do cantor, de quem Elis foi muito amiga.
O show tem um significado muito especial pra mim, não só pela ligação que tenho com a persona Elis e seu repertório mas, também, porque foi meu retorno aos palcos depois da pandemia, em 2021. E nossa eterna Pimentinha completaria 80 anos em 2025 e eu não poderia deixar de trazer de volta essa homenagem a essa mulher que marcou tanto a minha vida e minha história.
Nesse show, canto músicas que fazem parte da minha vivência com Elis, trazendo a minha própria interpretação para alguns dos grandes clássicos dela, acompanhada por um timaço reunido por Marcelo Mariano, que além de meu amigo e baixista, assina a direção musical do show.
Você dividiu o papel de Elis Regina com a atriz Laila Garin. Como foi a preparação para essa dobradinha?
A base da personagem em cena veio a partir do que foi construído com Laila em 2013, junto com coreografias, movimentos, figurinos, música e tudo o que compõe o espetáculo. Mas a personagem em sua essência sempre foi uma construção individual, a partir da visão particular de cada uma de nós e de nossas bagagens pessoais. Cada uma de nós traz para a personagem dinâmicas muito diferentes, o que também afeta o todo, e isso é muito enriquecedor para o espetáculo e para o público, que pode desfrutar de Elis em diversas camadas e intensidades. É o mesmo espetáculo, mas completamente diferente.
Cantas, atuas e ainda tens uma produtora, com a qual viabiliza seus projetos. Como é ser uma artista que assume as rédeas da própria carreira?
Tenho o maior respeito pelo meu ofício e pela carreira que construí. Levo muito a sério meu trabalho e tudo que está ao redor dele, seja o que for que estiver fazendo. Viver de arte é um privilégio num país como o nosso, que tem uma cultura riquíssima, mas que não valoriza o trabalho do artista. Eu vivo de arte há 30 anos, mas essa é uma conquista pautada em muito estudo e dedicação. Sou atriz, esse é o oficio pelo qual sou conhecida e para o qual dedico maior parte do meu aprendizado, mas, também sou cantora, locutora, preparadora de elenco, apresentadora, mágica, produtora, além de outras atividades profissionais que viabilizam meus projetos e minha vida. E uma delas é a Mistura de Artes, minha produtora, que nasceu, justamente, dessa multiplicidade artística e que atua há 10 anos no mercado do entretenimento, das artes e do audiovisual, desenvolvendo shows, realizando produções musicais, prestando consultoria de mágica e efeitos especiais para espetáculos teatrais, e a partir de 2025, entra de cabeça na produção de espetáculos teatrais.
Qual o segredo para manter uma trajetória profissional de sucesso por mais de três décadas?
Não venho de uma família privilegiada, muito pelo contrário. Quando meus pais vieram pra São Paulo, trouxeram, além do meu irmão mais velho no colo, o que eles tinham de mais precioso em sua bagagem: cultura e o gosto pelo conhecimento e os estudos - e um pezinho na arte, já que meu pai tem a veia humorística, musical e literária de um bom cearense. Isso me forjou. A situação financeira nunca foi um empecilho. Embora meus pais não pudessem pagar pela minha educação, sempre me apoiaram e me deram liberdade para buscar o que eu desejasse aprender. Fiz excelentes cursos e oficinas gratuitas, não poupava esforços para aprender. Atravessava a cidade sozinha de ônibus aos 12, 13 anos, atrás de aprender algo novo. E sou assim até hoje, estou sempre de olho em novos conteúdos. E, nada surpreendente, aulas gratuitas costumam ter um conteúdo incrível, já que são cursos que passam por um filtro de avaliação criterioso antes de serem colocados na grade das instituições. Sesc, Centro Cultural São Paulo, Itaú Cultural, Oficina Oswald Andrade, SP Escola de Teatro, são alguns dos lugares que costumo consultar e oferecem uma variedade de possibilidades, inclusive online. Acredito que meu trabalho se tornou consequência do material que adquiri, e continuo adquirindo, ao longo desses mais de 30 anos. Quanto mais conteúdo, mais posso expandir minhas possibilidades e, pra mim, esse é o segredo. Gosto de ser uma pessoa multifacetada e que tem múltiplas habilidades. Isso me dá poder de escolha, profissionalmente.
Quais teus próximos projetos a caminho?
Além da retomada do meu show “Lilian Menezes canta Elis”, muita coisa vai rolar com a Mistura de Artes. Tratemos shows e espetáculos teatrais, alguns deles inéditos, como o espetáculo de teatro-canção “É Foi Será”, que trata a relação de dois desconhecidos, uma mãe que perdeu seu único filho e um jovem que perdeu seu marido, para quem ela decide alugar um quarto durante a pandemia para poder complementar sua renda. E dessa convivência, de certa forma, imposta por uma tragédia, uma história de afeto nasce e se constrói, revelando o que verdadeiramente fez a diferença diante do terror e da desgovernança que vivenciamos nesse período, que foi a empatia, a solidariedade, o fazer o bem sem olhar a quem. Esse projeto tem um significado muito grande para mim, porque, além de ser a primeira produção teatral totalmente assinada pela Mistura, reúne parceiros que me acompanham ao longo da minha carreira e da minha vida, como é o caso de Jonathan Mendonça, meu filho, diretor, produtor e roteirista do audiovisual, com quem tenho uma gama de trabalhos premiados nacional e internacionalmente e que, agora, soma forças nessa produção teatral, encabeçando o projeto; Arthur Chermont, outro parceiro de longa data, que é a mente por trás do roteiro e argumento e que escreveu a personagem especialmente para mim; Pedro Sá Moraes, um grande amigo, artista, diretor e pesquisador das artes cênicas, que assinará a direção e composições do espetáculo, trazendo a metodologia de teatro-canção e integração corpo-voz desenvolvidas por ele para o espetáculo.
E, para além do próximo ano, como disse no começo, tem muita coisa que ainda quero fazer, muita gente com quem quero trabalhar, e muita coisa para realizar. Estou sempre aberta a propostas e as surpresas que arte tem para mim.