Arte & Agenda

400 Contra 1 narra a formação do Comando Vermelho

Daniel Oliveira vive William da Silva, articulador do grupo criminoso

Uma história que poderia ser melhor contada
Uma história que poderia ser melhor contada Foto : Divulgação / CP
Apresentado no encerramento da edição deste ano do Festival de Cinema de Paulínia, "400 Contra 1 - Uma História do Crime Organizado" é a tentativa cinematográfica de Caco Souza de contar a história do surgimento do Comando Vermelho (CV), a organização criminosa que nasceu no Rio de Janeiro. Na tela, William da Silva (vivido por Daniel de Oliveira) surge como um dos grandes articuladores daquilo que viria a se tornar o grupo CV. Capturado, o rapaz vai parar no presídio de Ilha Grande, onde presos "comuns" eram colocados lado a lado com presos políticos.

O filme é repleto de cenas que remetem à sequência de fugas consecutivas, assaltos e enfrentamentos com os policiais locais. Surgem em cena os laços de amizade, gerando dívidas que faziam com que foragidos retornassem à ilha para libertar seus companheiros.

Um dos destaques do filme é a forma como a ditadura militar no Brasil surge em cena. Tema recorrente no nosso cinema, mas nem tanto como em outros países, já rendeu importantes variações cinematográficas sobre o mesmo cenário. Em "400 Contra 1 - Uma História do Crime Organizado", a ditadura é encarada, de certo modo, como municiadora de contextos para a corporificação do CV.

A inspiração do filme vem do livro autobiográfico do próprio William da Silva Lima, um dos principais articuladores da organização. Assaltante de bancos que, numa ação fracassada, é preso nos anos 1970, William é conhecido pela bandidagem como "professor". Entre seus comparsas estão militantes políticos que encaram a vida de assaltos para garantir o seu sustento. Depois de capturados, um a um, os presos são levados para a Ilha Grande. Lá, vivem situações totalmente incomuns e inesperadas.

Confinados junto com o grupo estão presos políticos que compartilham o espaço criminal. A situação gera revolta ao deixar explícito o desejo dos militantes intelectualizados, em não ocupar os mesmos espaços dos presos comuns. Ainda que separados por algumas grades entre as alas, os presos políticos e os comuns desenvolvem contatos esporádicos, mas que acabam abastecendo o mundo intramuros com literatura "subversiva" e técnicas de guerrilha.

Primeiro longa-metragem do diretor, o filme visto em Paulínia apostou em um roteiro cuja temporalidade dos atos perfilou-se na tela entre passado e presente, num balé confuso. E o lado romântico da trama, que promete acontecer com o surgimento da namorada de William, vivida pela atriz Daniela Escobar, não se concretiza e se dilui na teia das relações e das idas e vindas do tempo na tela. E o título se explica no meio do filme, mas, se você pensa que tem a ver com o protagonista, engana-se. Essa é outra peripécia do roteiro.

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