Arte & Agenda

85 anos da dupla Tom & Jerry

Uma das duplas mais famosas da história da animação mundial comemora mais de oito décadas com a corrida que mudou rumos

Em uma época em que os desenhos buscavam se legitimar como arte cinematográfica, a dupla apostou em ritmo, timing e sofisticação
Em uma época em que os desenhos buscavam se legitimar como arte cinematográfica, a dupla apostou em ritmo, timing e sofisticação Foto : Reprodução / CP

Em 1940, o mundo assistia a uma revolução silenciosa acontecer nas telas de cinema. Não era um épico com astros hollywoodianos, nem um musical grandioso. Era apenas um gato e um rato. Ou melhor: “Tom e Jerry”, personagens criados por William Hanna e Joseph Barbera, que fizeram sua estreia no curta “Puss Gets the Boot”. O que parecia uma simples perseguição entre dois animais logo se revelou um divisor de águas no universo audiovisual — um marco na história da animação que ecoa até hoje.

A premissa era simples, quase banal: um gato doméstico tenta incessantemente capturar um rato travesso. Mas sob essa simplicidade escondia-se uma engenharia precisa de tempo cômico, narrativa visual e criatividade desenfreada. Hanna e Barbera, com seu estilo inconfundível, mostraram ao mundo que era possível contar histórias complexas, engraçadas e emocionantes “sem dizer uma única palavra”. O silêncio entre os personagens não era ausência, mas potência: em Tom e Jerry, o humor nasce do gesto, da pausa, da explosão sincronizada com a trilha sonora. Era uma dança coreografada de caos e charme.

O impacto de Tom e Jerry na animação foi tão intenso quanto duradouro. Em uma época em que os desenhos ainda buscavam se firmar como forma legítima de arte cinematográfica, a dupla mostrou que a animação podia ter ritmo, timing e sofisticação. O curta inicial foi indicado ao Oscar e o sucesso deu origem a uma série que atravessaria décadas, influenciando gerações de animadores e artistas. Ao longo dos anos, Tom e Jerry ganharam sete prêmios da Academia — um feito que não é apenas estatístico, mas simbólico: foi o reconhecimento de que a perseguição cômica entre um gato e um rato podia ser tão artística quanto qualquer filme “sério”.

Mais do que um sucesso comercial, Tom e Jerry ajudaram a moldar uma nova linguagem no audiovisual. Eles abriram caminho para uma narrativa visual pura, quase musical, que transcende barreiras linguísticas e culturais. Seus episódios não precisam de tradução: o humor físico, o exagero cartunesco e a expressividade dos personagens falam diretamente à emoção humana. Esse tipo de narrativa, construída essencialmente pela ação, influenciou desde os desenhos contemporâneos até os videogames e filmes de ação, onde o ritmo visual muitas vezes se sobrepõe ao diálogo.

Além disso, Tom e Jerry serviram como um laboratório para experimentação técnica e criativa. A fluidez das animações, o uso de trilhas sonoras orquestradas que acompanhavam cada movimento como numa partitura e a capacidade de transformar situações cotidianas em épicos de destruição cômica tornaram-se elementos centrais para a evolução da linguagem animada. Eles não apenas divertiam — eles ensinavam. Animadores estudavam seus episódios como quem analisa os quadros de um mestre pintor em busca da centelha que transforma o ordinário em extraordinário.

É impossível pensar na história da animação sem citar Tom e Jerry. Eles representam a síntese entre arte e entretenimento, entre técnica e emoção. Foram pioneiros não apenas no gênero de perseguição cômica, mas em algo ainda maior: a crença de que a animação não precisa ser infantil ou limitada. Ela pode ser sofisticada, ousada, universal. Com uma panela, uma vassoura e uma boa dose de ironia, Tom e Jerry redefiniram o que é possível contar — e como contar — dentro de um desenho animado.

Hoje, mais de oito décadas depois de sua estreia, a dupla continua viva no imaginário coletivo. Cada explosão, cada armadilha fracassada, cada piano caindo do céu, carrega consigo o legado de dois criadores que ousaram pensar além. Hanna e Barbera não apenas criaram um desenho animado: eles criaram um idioma novo. E nesse idioma, Tom e Jerry são seus poetas mais ágeis.

Guia de Programação: a grade dos canais da TV aberta desta terça-feira, dia 11 de agosto de 2026

As informações são repassadas pelas emissoras de televisão e podem sofrer alteração sem aviso prévio