Ao falar de assuntos de nosso tempo, na mistura de comédia e drama, "A Arte de Escutar" alcançou sucesso de público e crítica, desde que estreou, em abril de 1998, no Rio de Janeiro, onde ficou em cartaz por quase um ano. Desde então, foi para São Paulo, Vitória e Brasília e agora chega a Porto Alegre, para apresentações no Theatro São Pedro (Praça da Alfândega, s/nº), amanhã e sábado, 21h e domingo, às 18h.
Parceiros há 15 anos, Henrique Tavares dirige a trama, em clima intimista, escrita por Carla Faour, com Charles Paraventi, Flávia Fafiães, Isaac Bardavid, Juliana Guimarães e Thaís Portinho. A personagem central é dotada de uma habilidade incomum, de fazer com que as pessoas - conhecidas ou não - contem suas histórias. Reflexões sobre o que é a arte de escutar e a complexidade do ser humano vêm à tona em relatos de encontros que teve nos lugares mais inusitados.
Entre estes, está uma senhora na fila do banco, onde vai para receber sua aposentadoria, todo o fim de mês, que conta suas mazelas de forma muito engraçada. Ela descreve algumas loucuras que fez, como sobrevivente de Woodstock e mochileira, nos anos 70, e costuma dizer que sua geração inventou a juventude e as que vieram depois, o termo "terceira idade", que abomina.
Tem ainda as peripécias sexuais de uma mulher na academia de ginástica; as confissões de uma tia e de um tio numa Noite de Natal, lembrança que a protagonista tem de seus 7 anos de idade, quando descobriu seu estranho dom. Ao contrário do que se prega para a data, nesta ocasião afloraram sentimentos não muito nobres, como inveja, traição e competição. O ponto dramático fica por conta de um homem atormentado no metrô, que confidencia uma passagem de sua vida guardada em segredo: um acidente com arma de fogo. Na juventude, ele matou seu melhor amigo, fato que nunca conseguiu verbalizar e que durante vários dias seguidos, narrou em episódios para a confidente. "A gente vive num tempo e num mundo todo voltado para o externo, para a fala e a exposição, com ferramentas como Internet, blog e celular. A escuta é o lado inverso de tudo isto: você tem que parar e dispor de um tempo para o outro. O contato real, íntimo, é cada vez mais raro. Hoje você tem contatos superficiais mediados pela tecnologia", declara Carla Faour sobre a peça, indicada como melhor espetáculo e ator de comédia (Charles Paraventi) ao Prêmio Qualidade Brasil e de Dramaturgia, para o Shell, Contigo e da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR).
"A Arte de Escutar" faz curtíssima temporada no Theatro São Pedro
Personagem central faz com que as pessoas - conhecidas ou não - contem suas histórias