Mais um fevereiro se aproxima e, em um país tropical, a principal festa popular do ano já está marcada na agenda. Em Porto Alegre, abaixo dos trópicos, o clima carnavalesco é outro: os blocos de rua da cidade seguem travando suas batalhas - por financiamento, autorização para cortejos e suporte dos órgãos municipais. Entre o esforço dos grupos em busca do autofinanciamento e os empecilhos burocráticos do edital da Secretaria Municipal da Cultura (SMC), está o objetivo coletivo de levar à população um carnaval gratuito, seguro e de qualidade.
Após um ano de festividade fora de época, 2026 chega dentro do planejamento, com um edital que tinha por objetivo selecionar 28 blocos de rua para desfilar por diferentes circuitos da cidade, de 14 a 17 de fevereiro. O resultado definitivo, no entanto, concedeu o benefício a apenas 18 das 33 inscrições. Entre os critérios de avaliação, estavam itens como tempo comprovado de existência, portfólio de atuação e razoabilidade da estimativa de custos.
Nos desclassificados, está o Bloco das Pretas, que, desde 2019, traz o protagonismo feminino para cima do trio elétrico. O grupo recebeu a negativa por não atender ao tempo de existência necessário, quase um ano depois de ter sido selecionado pelo edital de 2025 - que também levava em consideração a trajetória. “Nós desenvolvemos um trabalho o ano inteiro. O Carnaval é só a entrega da produção do ano anterior e, mesmo assim, a gente não consegue ser classificado em função do tempo de existência”, conta Negra Jaque, uma das fundadoras do bloco. Conforme a Secretaria Municipal de Cultura, o “Bloco das Pretas não cumpriu com a exigência de nenhum dos dois itens do edital: não fez o portfólio, comprovando a existência de atividades ao longo de 2 (dois) anos; e não apresentou a Planilha financeira que mostra os custos do desfile”.
O No Caminho Te Explico estava entre os inicialmente selecionados, até que optou por desistir do auxílio. Ana Paula Rosa dos Santos, responsável pelos trâmites do edital, menciona a fragilidade do contrato da prefeitura, que foi analisado por advogados que fazem parte do bloco, como motivo para a decisão: “A gente começou a analisar se valia a pena estar nesse circuito com um contrato tão frágil, que qualquer problema que desse ia cair no CPF da pessoa responsável. O que poderia acontecer? Também isso não está previsto”.
Coordenador do Fumproarte (Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural), Paulo Renato Maciel dos Santos ressalta que não foram adotados critérios rigorosos, mas sim critérios mínimos, a partir da percepção de necessidade de um edital simples, que facilitasse o acesso dos blocos. “É importante destacar que todos os blocos que apresentaram as comprovações mínimas exigidas foram classificados e conseguiram ser contemplados, recebendo o fomento. Isso porque, ao contrário dos demais editais do Fumproarte lançados em 2025, este não exigia nota mínima na fase de avaliação de mérito.”
Potencial a ser explorado
É evidente a importância do edital e o avanço que ele representa em termos de aproximar a comunidade da cultura. Com ações afirmativas e circuitos descentralizados, que abrangem áreas como Restinga, Zona Norte e Cruzeiro/Santa Teresa, o Desfile de Blocos de Carnaval de Rua de Porto Alegre promete tornar a folia mais democrática. A partir do diálogo entre a administração e os blocos, a iniciativa pode evoluir e se aperfeiçoar para um cenário ideal. “A gente quer o apoio de verdade da prefeitura pro carnaval. Vamos sentar, vamos conversar, ponto a ponto. Como é que a gente faz um carnaval verdadeiramente popular na cidade?”, completa Ana Paula.
Negra Jaque dá destaque aos benefícios do incentivo, que reconhece os blocos como parte da cidade - movimento que tomou forma com o mapeamento municipal realizado em agosto do ano passado. Apesar disso, o montante destinado ao desfile ainda se mostra limitado frente às demandas. “O investimento ainda é muito pouco. Minimamente, a gente consegue pagar a estrutura, os músicos e tudo que envolve esse corpo artístico do bloco, mas ainda é muito pouco. A gente não consegue remunerar de forma qualitativa os profissionais.”
Cidade Baixa de volta ao mapa
Em 2025, o bairro Cidade Baixa - que historicamente é palco para o Carnaval porto-alegrense - saiu da rota dos festejos. Em nota, a Prefeitura de Porto Alegre comunicou a recomendação do Ministério Público de não autorizar quaisquer eventos de rua na localidade, em razão da “impossibilidade de garantir segurança dos frequentadores, moradores e comerciantes”.
Um ano depois, o bairro boêmio retorna à cena, fazendo parte inclusive dos circuitos oficiais. O coordenador do Fumproarte assegura que aconteceram readequações nos estudos de impacto urbano e de segurança realizados pela SMC, EPTC, Guarda Municipal e Brigada Militar.
“Foram definidos circuitos controlados, com rotas específicas, horários delimitados, reforço de efetivo e padronização das estruturas. A partir dessa nova modelagem, tornou-se possível reintroduzir a Cidade Baixa no planejamento do Carnaval de Blocos de maneira organizada, garantindo segurança ao público e aos moradores”, explica Paulo.
2027 no horizonte
“O Carnaval não é feito só de secretária da cultura. Envolve todo mundo, equipe de guarda municipal, brigada militar, a EPTC. Tudo tem que trabalhar e conspirar para que o Carnaval, a cultura seja feita. É uma atividade transversal que envolve vários setores da cidade.” Negra Jaque, fundadora do Bloco das Pretas.
Analisar as atuais condições do Carnaval de Porto Alegre é essencial para o aprimoramento dos carnavais que vêm pela frente. A capacitação dos blocos para que atendam às solicitações do edital está entre os principais mecanismos que podem alterar esse cenário. “Mostra incompetência dos blocos? Não. Mostra que é necessário ter uma formação cada vez maior. Mesmo que tenham entregue várias formações e encontros, não foi suficiente. Porque tiveram blocos que, mesmo com todo o seu trabalho, não conseguiram acessar o recurso do edital”, salienta a integrante do Bloco das Pretas.
Sobre o edital, o coordenador adiciona: “O Fumproarte contou com pareceres técnicos mesmo na fase de admissibilidade das propostas do edital (o que é incomum em editais de fomento à cultura). Assim sendo, os blocos não classificados poderão saber de forma detalhada em quais pontos precisam prestar mais atenção para as próximas edições”.
O processo de planejamento e execução do Carnaval está longe de ser reduzido somente à cultura: envolve diferentes áreas e diferentes órgãos municipais. Do trânsito à segurança e ao comércio, o que não deixa dúvidas é que ter esse evento no calendário movimenta a economia local. E investir em uma programação de qualidade não é apenas fomentar a cultura, mas fazer Porto Alegre como um todo sambar.
“Isso tudo tem que funcionar e entrar em diálogo para que em 2027 não sejam só 18 blocos no circuito oficial. Que sejam 38, que sejam 40, que não seja só em uma área específica por dia, que toda a cidade tenha os seus territórios de Carnaval [...] que as comunidades tenham acesso à cultura e à arte de forma gratuita, saudável e segura”, encerra Negra Jaque.
*Sob supervisão de Luiz G. Lopes