Arte & Agenda

A cultura hip-hop fortalece a periferia no Rio Grande do Sul

Das batalhas de rima aos grandes festivais, a periferia resiste e conquista seu espaço no estado através da arte

Desde 2023, o Museu da Cultura Hip Hop RS é palco para a expressão de artistas de todo o estado
Desde 2023, o Museu da Cultura Hip Hop RS é palco para a expressão de artistas de todo o estado Foto : @leo_zanini / divulgação / CP

Desde 1973, a cultura da periferia tem nome. O hip-hop e seus cinco elementos - graffiti, breaking, MC, DJ, e conhecimento - chegam ao Rio Grande do Sul na década de 1980 e estabelecem raízes com o rap na linha de frente. Quarenta anos depois, o movimento cultural, social e político se expande no solo gaúcho com uma força que é referência, sendo berço do primeiro Museu da Cultura Hip-hop da América Latina e do maior festival de hip-hop do Brasil. Ainda assim, o que segue sustentando o hip-hop é a resistência de artistas, instituições independentes e, substancialmente, da própria periferia.

A cultura periférica tem reafirmado seu papel não apenas como uma forma de lazer, mas como um instrumento para fugir da marginalização, do preconceito e da invisibilidade. “ A gente trabalha na educação, na linha da cidadania, do meio ambiente, da comunicação, principalmente, onde muitas vezes o espaço de comunicação não chega. E o hip-hop chega”, afirma Jaqueline Trindade Pereira, 38. Artista e produtora cultural, Negra Jaque vive o hip-hop desde os 17 anos, quando iniciou sua carreira como MC. Hoje, ela está à frente de projetos como o Galpão Cultural (rua 9 de Junho, 878 - Partenon) e o Instituto Afrolaboratório, que impulsionam a cultura e seu acesso em Porto Alegre.

O Galpão Cultural tem como objetivo promover o acesso à cultura na região do Morro da Cruz | Foto: Negra Jaque / Divulgação / CP

Por meio do hip-hop, projetos educativos, sociais e culturais chegam com mais facilidade até comunidades periféricas. Desde sua inauguração, em dezembro de 2023, o Museu da Cultura Hip Hop RS (Parque dos Nativos 545 - Vila Ipiranga), recebeu mais de 30 mil visitantes, consolidando-se como referência no cultivo e na preservação dos cinco elementos. Primeiro espaço independente da América Latina dedicado ao movimento, sua estrutura conta com ambientes destinados ao fomento da cultura hip-hop, como quadra esportiva, biblioteca e estúdio de música.

Coordenadora administrativa do Museu, Aretha Ramos comenta sobre a importância do acervo para registrar uma presença que foi dissolvida na história do estado e, durante muito tempo, subvalorizada enquanto cultura. “Impulsiona quem está vindo entender que a gente não veio do nada fazer diferença. Tiveram pessoas antes abrindo portas. Isso faz com que também essas pessoas sejam conhecidas, até para retornar para a cultura. E fortalece o movimento.”

Com exposições fixas e temporárias, o Museu da Cultura Hip Hop RS preserva a história do movimento no estado | Foto: Leo Zanini / Divulgação / CP

O hip-hop e quem o faz

“A questão do hip-hop é quem faz o hip hop.” Para Negra Jaque, o principal obstáculo para um maior reconhecimento do hip-hop é o preconceito, e a falta de visibilidade da arte periférica está profundamente relacionada com quem a produz. A expansão da cena, que contribuiu para que o hip-hop alcançasse um espaço central na cultura do estado, fez também com que ele movimentasse o mercado em grande escala - e, por consequência, fosse visto como produto.

Nesse caminho entre quem faz e quem consome a cultura hip-hop, o valor e o retorno pelas produções que nascem da periferia acabam se diluindo. “A periferia consome, ela cria, entrega para a sociedade. E quando recebe de volta, recebe subproduto”, declara Jaqueline. Assim, torna-se explícito o desafio de promover a cultura da periferia sem se desprender de sua essência, que está relacionada à reafirmação de direitos e ao bem-estar da comunidade.

Fundador do Rap in Cena, o maior festival de hip-hop do país, Keni Martins percebe a falta de oportunidades para os artistas do hip-hop no Rio Grande do Sul. “Ainda tem um processo de desconstrução do nosso conservadorismo, que acaba sendo muito forte e impactado pela nossa tradição.” Natural da Vila Cruzeiro, Keni cresceu na periferia e trabalhou com reciclagem e como ambulante, cenário em que a produção de um evento que movimenta milhares de pessoas não passava de um sonho distante.

Desde 2014, o empresário tem transformado o festival em um espaço que traz protagonismo não apenas para o rap, mas para as outras tantas expressões da cultura periférica. E, entre seus objetivos, está proporcionar a inclusão das pessoas que sustentam o movimento. “O hip-hop vem da periferia. Por mais que ele cresça e ele tenha uma proporção que alcança outros públicos com poder aquisitivo, eu não posso esquecer quem não tem esse poder aquisitivo pra poder estar lá presente”, destaca Keni.

O Rap in Cena acontece em Porto Alegre desde 2014 e movimenta milhares de pessoas em torno da cultura hip-hop | Foto: @oxgnstudio / Divulgação / CP

A resistência, com ou sem recursos

Entre as principais barreiras que retardam o desenvolvimento pleno do hip-hop, está o difícil acesso a recursos. A coordenadora do Museu atesta que a cultura hip-hop é capaz de se manter viva com ou sem recursos, mas, com o investimento apropriado, tem possibilidade de ampliar o acesso da população e os projetos desenvolvidos. “A cultura tem que estar viva independente da situação política que a gente está. Para a gente, é um desafio essa questão de a gente não ter tantas formalizações para a cultura hip-hop”, complementa Aretha.

Em 2024, a carência de políticas públicas que forneçam orçamento para o hip-hop com constância e os efeitos de medidas governamentais que olham para a periferia se tornaram evidentes. A Secretaria do Hip Hop RS, criada pelo Ministério da Reconstrução, atuou durante quatro meses, sob o comando da secretária Negra Jaque, colocando em prática projetos que fortaleceram a arte da periferia. O festival “Elas por Elas”, que deu visibilidade às mulheres que participam ativamente do movimento, e o Podcast Decola Hip Hop foram resultado de um trabalho que só foi possível a partir da Secretaria.

A instituição adentrou 2025 com entregas finais, mas teve seus trabalhos encerrados juntamente ao Ministério da Reconstrução, em dezembro do ano passado. A partir de sua experiência à frente do cargo, Negra Jaque percebe a necessidade de organizações que levem o trabalho adiante, mantendo um diálogo constante com a periferia que, muitas vezes, só acontece pelo hip-hop. “A gente precisa de um trabalho contínuo. E esse trabalho contínuo, através do hip-hop, como uma possibilidade, uma ferramenta para auxiliar as diversas comunidades do estado”, encerra.

Ontem, hoje e amanhã.

Das primeiras gerações de hip-hoppers gaúchos às atuais e às futuras, a cultura da periferia segue viva em artistas e consumidores. Atividades e oficinas em todo o estado são realizadas com propósitos que unem pessoas de todas as idades: a preservação da história daqueles que abriram portas e lutaram para que o hip-hop conquistasse seu espaço e o cultivo dessa cultura naqueles que hoje encontram um cenário diferente, mas também repleto de desafios. E o reconhecimento daqueles que respiram a cultura hop-hop - artistas, instituições, festivais e, principalmente, a periferia - é apenas o começo.

* Supervisão Luiz G. Lopes

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