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"A gente faz uma celebração a Elis", afirma a atriz Laila Garin

Em entrevista, a protagonista fala sobre o espetáculo, que tem temporada de quinta a domingo na Capital

Musical já tem sessão extra no sábado
Musical já tem sessão extra no sábado Foto : Caio Galluci / Divulgação / CP
Existe um friozinho na barriga de todos os atores, da equipe, do diretor Dennis Carvalho com a temporada de "Elis, A Musical", em Porto Alegre, em cartaz a partir desta quinta até domingo, no Teatro do Sesi (Assis Brasil, 8787). A capital gaúcha é a cidade-natal de Elis Regina e a própria protagonista Laila Garin (que tem Lilian Menezes como substituta em dias de sessões extras) confessou o nervosismo de atuar em Porto Alegre.

O espetáculo teve um investimento de R$ 10 milhões para recriar momentos da vida e da trajetória da cantora gaúcha, tem texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade, e conta com Dennis Carvalho em sua primeira direção para o teatro.  

O musical emociona ao apresentar as canções que se tornaram grandes sucessos na voz de Elis Regina. São ao todo 51 obras que integram o repertório do espetáculo, entre músicas, medleys e vinhetas. 

Em entrevista, a atriz afirma que o espetáculo mudou a sua vida, que ela nunca procurou imitar a Pimentinha e que é uma celebração a Elis Regina, esperando a aprovação do público gaúcho. Em parte da entrevista, há a participação do ator e músico Claudio Lins, filho de Ivan e Lucinha Lins.

Correio do Povo - O espetáculo é totalmente fiel à carreira de Elis?
Laila Garin - A gente não tem esta fidelidade total. Temos umas licenças poéticas. Algumas músicas de uma outra época estão a serviço da dramaturgia do espetáculo. O primeiro ato é mais cronológico. Desde o tempo em que ela foi cantar na rádio, no Clube do Guri, em Porto Alegre, salta para os 17, tem o tempo dela no Rio de Janeiro, cita a primeira vez que ela veio para gravar e depois a vinda em definitivo, o Fino da Bossa, e depois quando vai embora para São Paulo e a morte. A gente dá uma pincelada pela infância dela. Num espetáculo biográfico, não tem como contar tudo, mas sim algumas passagens.


CP - Como foi a construção da personagem Elis?
Laila - Eu tive a sorte de que desde o início o Dennis não quis uma imitação. Teria muitas outras atrizes mais parecidas com ela, fisicamente e também vocalmente. Esta foi uma escolha minha desde os testes, de não imitar, de vir com a minha criação. Eu não sou boa imitadora e o Dennis queria o caminho da sinceridade que vendo muitos vídeos, gravações, eu tentasse captar um pouquinho da essência dela, deste temperamento e desta maneira dela de ver o mundo. Você está abordando não um personagem, mas uma pessoa que existiu. Nisto contei com o apoio da equipe, pois o que a gente tá fazendo é uma homenagem, uma festa, uma rememoração, uma celebração a Elis. Aí me deu mais leveza para trabalhar. Todos amam ela. A gente está nervoso de ir para Porto Alegre, mas ela transcendeu a capital gaúcha. Ela virou a cantora do Brasil. As pessoas consideram Elis íntima, acho que é por causa desta maneira íntima de cantar, está falando dela e está falando a você mesmo. É muito entregue, mesmo com esta técnica maravilhosa dela. Eu estava tocando no íntimo deste monte de gente. Eu tinha este medo. Vou ficar frustrada se alguém assistir e ficar dizendo que ela está fazendo parecido. O ideal era que as pessoas esquecessem disso e embarcassem na história e esquecessem de Elis, da técnica do ator/cantor, mas que pensem na emoção estar em contato com a arte, com a beleza da arte, se identificando. Se o espetáculo conseguir tocar as pessoas, isto é o mais importante do que ter 1,54m, o cabelo curto e ter um sotaque gaúcho. Como fazer a Elis sem pretensão. É encarar como homenagem.


CP - Você se considera mais atriz ou mais cantora?
Laila - Pela minha história e formação, eu sou mais atriz mesmo. A minha maneira de abordar a criação do espetáculo é de atriz. Eu canto todo o dia a música com minha partitura. Mas eu sou atriz. A música sempre me levou para um lugar especial, para uma sensação de plenitude que nenhum texto de teatro me deu, foi sempre uma via de expressão grande. Fazer Elis é um grande presente. Você pode cantar um repertório de Elis. Você ousa fazer coisas que não teria coragem de fazer fora do musical, quem gravaria Elis. Inspirada nela e em mim. Eu não vou chorar numa música se não for verdadeiro, se não for crível.

Claudio Lins - Eu ouço dizer que a Elis era uma cantora que era muito atriz. Ela já tinha este posto de maior cantora do Brasil quando ainda era viva. Quando perguntavam quem era a maior cantora do Brasil. Miele dizia que a primeira era Elis, a segunda e a primeira também eram a Elis e me desculpem as outras. Ela realmente tinha uma carga dramática e uma maneira de se posicionar no palco que era de atriz. Ela não era atriz, porque não teve oportunidade. Talvez ela pudesse ser uma grande atriz, pelo posicionamento em cena.


CP - O espetáculo consegue agradar aos fãs e aos não fãs da Elis?
Claudio - Acho que todos vão gostar. O espetáculo tem um lado quase didático. Você está contando a história de uma pessoa com suas características, com seus dramas, casamento, obra. Tem uma história do Diego, o nosso contrarregra do Rio de Janeiro, que está fazendo a turnê com a gente. Ele disse eu nunca tinha ouvido Elis, na minha comunidade ninguém conhece. eu estou apaixonado, fascinado, fui para o youtube ver tudo sobre ela.

Laila - Tudo o que a elis gravou, marcou. Ela participou dos momentos mais importantes da história dos anos 60 e 70. Quando a gente conta a história dela, acaba contando a história da música brasileira e a história política do país. Um ator que eu amo, do Thêatre du Soleil, Maurice Durozier, inclusive deu uma entrevista e quando perguntaram quais as peças que o impressionaram, ele falou que foi Elis, a Musical. Ele me falou, vocês não estão contando a história de Elis, mas vocês estão contando a história de todo o artista.

CP - E as paixões e os casamentos?
Laila - Existe uma fala da peça que dá conta do que era esta relação intensa com o Ronaldo Bôscoli e o Cesar Camargo Mariano: Agora é a Elis antes e depois de Ronaldo Bôscoli e antes e depois de Cesar Camargo Mariano. Estes parceiros amorosos eram também musicais. É vísível a diferença da Elis com estas parcerias. O Cesar deu forma a esta carreira, assim como o Ronaldo. Isto se mistura com a parceria da gente na peça. Estes dois grandes amores foram muito significativos na construção da carreira

CP - Qual a tua trajetória antes de Elis, a Musical?
Laila – Morei em Salvador até 2002, depois vim para São Paulo, passei na França um pouquinho, porque meu pai é francês. Morei em São Paulo uns sete anos. Fiz um musical e uma opereta. Mas fiz principalmente o teatro de pesquisa com o Cacá Carvalho. Fui para o Rio em 2009 trabalhar com o João Falcão. Lá, eu fiz dois musicais com o João, um deles foi "Gonzagão, A Lenda", e aí eu saí daquele musical para fazer Elis. O trabalho com o Cacá foi a Casa Laboratório que eles fundaram em 2004, com o grupo italiano Pontedera. Participei desta fundação e fiquei cinco anos com ele. Eu já havia trabalhado com o Luiz Carlos Vasconcelos, o Piolin e também fiz um musical Broadway, o "Grease", mas não me identifiquei muito com este mundo. Com o grupo do Cacá, a gente foi para Porto Alegre com o "Homem Provisório, que é baseado no Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas.

CP - E depois de Elis?
Laila - A gente tem coisa prevista para o musical até fevereiro de 2015. Como acabamos sendo um sucesso (riso de modéstia), a gente chega a fazer sete sessões semanais. Agora o meu corpo já entendeu melhor e eu estou podendo pensar em outras coisas. Realmente, a minha prioridade e o meu projeto principal é a Elis. Ela exige muita atenção da gente, como exigia do Henfil, do Milton Nascimento, do Jair Rodrigues, dos amigos dela quando era viva.

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