Em toda diversidade que o cinema pode proporcionar, entre as estreias desta semana duas obras marcam estas diferenças. Toda quinta-feira, as salas de cinema se abrem como portais para mundos tão distintos quanto imprevisíveis e, nesta semana, elas escancaram o abismo entre o sublime e o sinistro. De um lado, “A Grande Viagem da Sua Vida”, dirigido por Kogonada, um cineasta e roteirista sul-coreano, conhecido principalmente por seu filme de estreia, “Columbus”, lançado em 2017. Agora, ele nos embala num delírio sensorial e lírico, onde Margot Robbie e Colin Farrell atravessam memórias como se fossem estações de metrô existencial. Do outro, “Animais Perigosos”, de Sean Byrne, nos arrasta pelos recifes mais sombrios da mente humana, com um serial killer obcecado por tubarões e uma jovem surfista lutando para não virar isca. Essa dicotomia é tudo o que o cinema deveria ser: imprevisível, plural, perturbador e, sobretudo, vivo.
Enquanto “A Grande Viagem da Sua Vida” aposta em uma estética contemplativa, quase onírica, com cores lavadas, trilha minimalista e diálogos que parecem sussurros do subconsciente, “Animais Perigosos” é um soco no estômago, com uma fotografia saturada de medo, cortes secos, barulho de água, sangue e muitos dentes.
Em “A Grande Viagem da Sua Vida”, dois desconhecidos se conhecem num momento especial e embarcam numa jornada mágica pelas memórias que moldaram quem são, entre passado, fantasia e redenção. Kogonada, conhecido por sua sensibilidade visual e sua capacidade de transformar silêncio em narrativa, aqui conduz seus personagens por uma jornada interna, onde as lembranças ganham materialidade quase mágica. É o tipo de filme que não se contenta em ser visto; ele quer ser sentido, processado nos sonhos.
abismo. Já o cineasta australiano Sean Byrne, diretor de filmes de terror, parece agora tirar sarro de qualquer sutileza em “Animais Perigosos”. Uma jovem surfista é sequestrada por um assassino obcecado por tubarões, que transforma suas vítimas em alimento para os predadores marinhos. Seu vilão não mata por prazer, mas por uma ética torta e animal, uma espécie de justiceiro ecológico degenerado. O oceano, símbolo de liberdade e espiritualidade, aqui vira um tribunal impiedoso. E os tubarões são os carrascos.
Mas o mais provocante desta quinta-feira não é apenas a diferença de gênero entre os dois filmes. É o abismo estético e narrativo que eles escancaram e que o público precisa encarar. O cinema não é um corredor com portas idênticas. É um labirinto com entradas para o céu e para o inferno, às vezes no mesmo bilhete. Em tempos em que os streamings nivelam tudo com algoritmos e thumbnails genéricos, é no cinema que a diversidade de linguagem, de forma, de ousadia ainda encontra espaço para respirar. Os dois destaques são faces do mesmo espelho estilhaçado que é a experiência humana: memória e trauma, amor, terror e adrenalina.