Arte & Agenda

A traição sob a perspectiva de um homem atormentado

A Mulher Sem Pecado' faz curtíssima temporada no Theatro São Pedro

Vanessa Garcia e Luciano Mallmann em A Mulher sem Pecado
Vanessa Garcia e Luciano Mallmann em A Mulher sem Pecado Foto : Du R Maciel / Divulgação
Um homem obcecado pela ideia de estar sendo traído ou não, que simula ser paralítico para testar a fidelidade da esposa, é o personagem de Luciano Mallmann em "A Mulher Sem Pecado", peça na qual ele contracena com Vanessa Garcia e mais cinco atores e ainda assina a produção, dirigida pelo colunista do Correio do Povo Caco Coelho e Beto Russo, em cartaz no Theatro São Pedro, neste sábado, 21h, e domingo, às 18h. O ator e publicitário gaúcho de 39 anos, que estreou seu primeiro espetáculo, "A Gata Borralheira", há 20 anos, prepara sua volta aos palcos, após sete anos, no "projeto de sua vida", como define.

Em Porto Alegre, Luciano Mallmann trabalhou com Zé Adão Barbosa em "Despertar da Primavera" (1993), dividindo seu tempo entre o teatro e a publicidade, onde fez vários contatos que o ajudaram nesta peça – que conta com o apoio da Zepellin Filmes e da Visual Áudio e Vídeo. Ele morou no Rio de Janeiro por oito anos e fez, na oficina da Globo, a cena final de "Álbum de Família", de Nelson Rodrigues, que coincidentemente volta a encenar agora, no papel que oferece inúmeras possibilidades para um ator. Fez, ainda, "A Dama do Serrado", com Suzana Vieira, e com a Intrépida Trupe incursionou pela dança e pela acrobacia, ministrando aulas de tecido aéreo. Uma queda o deixou paralítico e o fez desistir da carreira artística e voltar à capital gaúcha, como publicitário.

Mallmann começou, então, a reencontrar as pessoas ligadas à àrea artística e fez uma participação na novela "Viver a Vida", dividindo a cena com a cadeirante Luciana, vivida por Alinne Moraes. A partir daí, ele afirma, a atuação passou a ser uma necessidade, e o sonho de um espetáculo sobre inclusão veio com força total. Pelas mãos do pesquisador da obra rodrigueana, Caco Coelho, teve o primeiro contato com "Mulher Sem Pecado", texto que adorou, e do qual fez a leitura dramática, em outubro último, com a atriz Mariana Terra. "O texto tem partes bem fortes, com termos que não uso na vida real", diz o artista, se referindo à sua situação e ao papel como Olegário. Ele pretende fazer uma temporada da peça na Usina do Gasômetro e teatros municipais e levá-la para Rio de Janeiro e São Paulo no ano que vem, no centenário de Nelson Rodrigues.

Caco Coelho trabalha há 20 anos com Nelson Rodrigues e desde 1998 pesquisa sua obra, descobrindo coisas inéditas. Enquanto cursou duas bolsas de estudo, editou sete livros e fez quase 20 espetáculos do autor. No momento, está organizando um livro como título provisório "Escritor Nelson Rodrigues", sobre a trajetória do dramaturgo. Coelho dirigiu "A Serpente" e acompanhou de perto "Adoração", dirigida por Beto Russo e com Sandra Alencar, agora no papel de Inézia, a empregada. "O bacana é que viemos no prosseguimento das coisas que vimos lá atrás: se a sensualidade da mulher brasileira aqui aflora, na outra peça era reprimida", diz Russo.

Ao ir fundo na origem de Nelson, Caco chegou nos anos 20, momento em que a literatura ainda não era brasileira, com expressões afrancesadas e lusitanas. "Este ser que aparece o Nelson vai revelar, formado da mistura do índio, mulato e protuguês. Ele dá a protagonia ao negro e insere o desejo na mulher", explica, sobre a raiz essencialmente brasileira de sua produção. Outra atração do espetáculo é a presença beckettiana da atriz Vera Holtz, num vídeo encarnando Dona Aninha, mãe de Olegário, uma doida pacífica que vive enrolando paninhos e não tem expressão alguma. Também no elenco estão Alexandre Farias, Pi Vieira, Bruno Fernandes e Lurdes Eloy.

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