Em Porto Alegre, Luciano Mallmann trabalhou com Zé Adão Barbosa em "Despertar da Primavera" (1993), dividindo seu tempo entre o teatro e a publicidade, onde fez vários contatos que o ajudaram nesta peça – que conta com o apoio da Zepellin Filmes e da Visual Áudio e Vídeo. Ele morou no Rio de Janeiro por oito anos e fez, na oficina da Globo, a cena final de "Álbum de Família", de Nelson Rodrigues, que coincidentemente volta a encenar agora, no papel que oferece inúmeras possibilidades para um ator. Fez, ainda, "A Dama do Serrado", com Suzana Vieira, e com a Intrépida Trupe incursionou pela dança e pela acrobacia, ministrando aulas de tecido aéreo. Uma queda o deixou paralítico e o fez desistir da carreira artística e voltar à capital gaúcha, como publicitário.
Mallmann começou, então, a reencontrar as pessoas ligadas à àrea artística e fez uma participação na novela "Viver a Vida", dividindo a cena com a cadeirante Luciana, vivida por Alinne Moraes. A partir daí, ele afirma, a atuação passou a ser uma necessidade, e o sonho de um espetáculo sobre inclusão veio com força total. Pelas mãos do pesquisador da obra rodrigueana, Caco Coelho, teve o primeiro contato com "Mulher Sem Pecado", texto que adorou, e do qual fez a leitura dramática, em outubro último, com a atriz Mariana Terra. "O texto tem partes bem fortes, com termos que não uso na vida real", diz o artista, se referindo à sua situação e ao papel como Olegário. Ele pretende fazer uma temporada da peça na Usina do Gasômetro e teatros municipais e levá-la para Rio de Janeiro e São Paulo no ano que vem, no centenário de Nelson Rodrigues.
Caco Coelho trabalha há 20 anos com Nelson Rodrigues e desde 1998 pesquisa sua obra, descobrindo coisas inéditas. Enquanto cursou duas bolsas de estudo, editou sete livros e fez quase 20 espetáculos do autor. No momento, está organizando um livro como título provisório "Escritor Nelson Rodrigues", sobre a trajetória do dramaturgo. Coelho dirigiu "A Serpente" e acompanhou de perto "Adoração", dirigida por Beto Russo e com Sandra Alencar, agora no papel de Inézia, a empregada. "O bacana é que viemos no prosseguimento das coisas que vimos lá atrás: se a sensualidade da mulher brasileira aqui aflora, na outra peça era reprimida", diz Russo.
Ao ir fundo na origem de Nelson, Caco chegou nos anos 20, momento em que a literatura ainda não era brasileira, com expressões afrancesadas e lusitanas. "Este ser que aparece o Nelson vai revelar, formado da mistura do índio, mulato e protuguês. Ele dá a protagonia ao negro e insere o desejo na mulher", explica, sobre a raiz essencialmente brasileira de sua produção. Outra atração do espetáculo é a presença beckettiana da atriz Vera Holtz, num vídeo encarnando Dona Aninha, mãe de Olegário, uma doida pacífica que vive enrolando paninhos e não tem expressão alguma. Também no elenco estão Alexandre Farias, Pi Vieira, Bruno Fernandes e Lurdes Eloy.