Após um curto show de abertura da gaúcha Vanessa Longoni, que apresentou músicas dos seus dois CDs, Ouro de Oslo e Canção para Voar, a musa da contracultura com 55 anos de carreira, Joan Baez, de 73 anos, subiu ao palco às 21h15min, com o seu violão, a sua voz, o seu carisma, acompanhada dos músicos Dirk Powell (acordeon, violões, banjo e piano) e Gabriel Harris (percussão). Um pouco atrapalhada e contando com o apoio da assistente, técnica afinação de violão e também vocalista Grace Stumberg, Joan leu em português o tema da primeira música God is God, de autoria de Steve Earle, música que abre o mais recente disco da cantora, compositora e instrumentista, “Day After Tomorrow”, de 2008. “Eu acredito em profecias e milagres. Há um só Deus. Deus é Deus”, disse.
Logo após disparou a primeira do ex-namorado da década de 60, Bob Dylan, “Farewell Angelina”, seguindo também com a clássica balada folk “Lily of the West”, seguida da hispano “La Llorona” e da música de Woody Guthrie, “Deportees”, que fala de emigrantes mexicanos que morrem no avião quando são deportados dos Estados Unidos de volta ao México. Na sexta música, novamente o espectro de Dylan acompanhou Joan com a execução de It´s All Over Now Baby Blue, (que ganhou no Brasil uma linda versão chamada Negro Amor, de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti, e cantada por nomes como Zé Ramalho, Gal Costa e Engenheiros do Hawaii).
Depois de apresentar os dois músicos que a acompanham, Joan Baez começou a conquistar ainda mais o público cantando “O Cangaceiro”, do filme homônimo de 1953. “Olé, mulher rendeira, olé mulher renda, tu me ensina a fazer renda e eu te ensino a namorar”, emendando com a marchinha “Acorda Maria Bonita”, seguindo “levanta vem fazer o café, que o dia já vem raiando e a polícia já está de pé”. Com o público em alta rotação, Joan passou a um clima mais intimista com a música de autoria de Dirk Powell, que assumiu o piano Person para um arranjo simplesmente emocionante de “Just The Way You Are”, seguida pela faixa-título do último disco, “Day After Tomorrow”.
Puxando a filas das músicas de protesto, Joan cantou “Swing Lot, Sweet Chariot”, que ela cantou na Marcha por Trabalho e Liberdade em Washington, em 1963, no célebre discurso do sonho de liberdade e igualdade de raças de Martin Luther King. Claro que com um papel na mão, lendo a música em português, Joan emendou com “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores”, de Geraldo Vandré: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...”, diante do coro fervoroso de quase 3 mil vozes. Até o fim da primeira parte do show, antes do bis, Joan cantou “House of the Rising Sun”, “Joe Hill”, a folk Give me Cornbread When I´m Hungry, brincando com os hábitos dos gaúchos e brasileiros no seu português enrolado, de comer churrasco e tomar cachaça quando se está com fome e sede.
A primeira parte do show terminou com Gracias a La Vida, da chilena Violeta Parra, eternizada por Mercedes Sosa. O bis foi emocionante com Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, de 1973, e Imagine, de John Lennon, duas músicas de resistência e protesto contra a ditadura, as guerras e outras injustiças do mundo. “Pai, afasta de mim este cálice” e “And the world will live as one” (e o mundo viverá como um só). Uma noite para ficar na memória pela viagem no tempo nas canções e na história do mundo nos últimos 55 anos. Viva Joan Baez.