Autor de livros como “O Passado” (Cosac Naify), adaptado ao cinema pelo próprio Pauls, sob direção de Hector Babenco, com Gael García Bernal no elenco, Pauls tem 52 anos e é considerado um dos principais escritores argentinos da atualidade. Em entrevista ao Correio do Povo, falou de literatura latino-americana, do seu gosto pela literatura do gaúcho João Gilberto Noll e também do fato de não ter gostado tanto do filme de Babenco: “ficou no meio do caminho entre o filme autoral e o comercial”.
Correio do Povo – Como você vê o atual momento da literatura latino-americana?
Alan Pauls – A literatura latino-americana está em um momento muito dinâmico e plural. Creio que se terminou a influência sufocante do boom da literatura latina, o Olimpo de García Marquez e Vargas Llosa. Está muito variada e rica, concentrada nas cidades, justamente nas grandes cidades da América Latina.
CP – Entre estes autores quem você destaca?
AP – A editora argentina Adriana Hidalgo trabalha com uma coleção destes escritores e publicou quatro livros de João Gilberto Noll (autor gaúcho). A ficção de Noll é contemporânea, sobre a perda de identidade, a falta de forma, o desaparecimento da forma. É atual, tem um humor incrível. Em Noll, eu leio Samuel Beckett e Gombrovicz (Witold, autor polonês que migrou para a Argentina antes da Segunda Guerra Mundial).
Correio do Povo – Fale-nos sobre “História do Cabelo”.
AP – É o segundo volume de uma trilogia que gira em torno dos anos 70, época muito importante para a Argentina e para a América Latina. Eu me formei nos anos 70. Houve uma intensidade política e mortificadora. Nos meus romances, procuro entrar pelas portas de serviço, menores, oblíquas, porém muito concretos. De maneira caprichosa, o cabelo foi fundamental nos anos 70 na Argentina, um fetiche cultural muito forte. As mesmas batalhas e discussões políticas se davam com o cabelo. Pelo cabelo podíamos dividir os revolucionários e os burgueses. A polícia reprimia aqueles de cabelo largo. Assim, procurei colocar no livro esta obsessão pelo cabelo para falar deste processo político e cultural profundo e violento dos anos 70 na Argentina.
CP – Você gostou da adaptação ao cinema de “O Passado”, dirigida por Hector Babenco?
AP – O filme é interessante, trabalha em uma outra relação com o tempo. Acho que sofreu por ficar no meio do caminho entre um filme autoral e comercial, não logrou ser o que queria ser. Não vou defender aqui o meu romance, mas havia uma complexidade e densidade que se transformou um pouco esquemática no filme. Os diretores são como videntes, se não veem, não entendem.
CP – O que você tem a dizer sobre este novo boom do cinema argentino?
AP – De uns 15 anos para cá mudou o conceito de cinema com o surgimento de uma meia dúzia de novos diretores, como Lucrecia Martel e Lisandro Alonso. O mais importante desta mudança é que o cinema deixou de ter ilusões de ser uma grande indústria. O cinema atual argentino avançou pelo menos 100 vezes na sua produção em relação aos anos 80 e 90, quando estávamos condenados a uma mediocridade, um aborrecimento, uma estagnação a cada filme que estreava. Eu posso falar com propriedade pois fui crítico de cinema. Hoje temos jovens de 25 anos que filmam com 5 mil dólares, com atores não profissionais e fazem obras-primas. Se começou um novo cinema, sem aquele imaginário de grande indústria, e estão sendo criadas as regras, com temáticas sempre interessantes e profundas.