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Alan Pauls fala do cabelo em sua passagem pela Capital

Autor lançou “História do Cabelo” nesta sexta-feira na Feira do Livro

Alan Pauls fala do cabelo em sua passagem pela Capital
Alan Pauls fala do cabelo em sua passagem pela Capital Foto : Tarsila Pereira
No fim de tarde dessa sexta-feira, a Feira do Livro de Porto Alegre recebeu uma de suas principais atrações, o escritor argentino Alan Pauls. Ele participou de mesa lotada sobre o livro “A História do Cabelo” (Cosac Naify), na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul, com o escritor, ensaísta e professor Luís Augusto Fischer. Este é o segundo livro de uma trilogia sobre a década de 70, que começou com “História do Pranto” e seguirá com “História do Dinheiro”. No romance, o protagonista sem nome tem uma obsessão pelo perfeito corte de cabelo.

Autor de livros como “O Passado” (Cosac Naify), adaptado ao cinema pelo próprio Pauls, sob direção de Hector Babenco, com Gael García Bernal no elenco, Pauls tem 52 anos e é considerado um dos principais escritores argentinos da atualidade. Em entrevista ao Correio do Povo, falou de literatura latino-americana, do seu gosto pela literatura do gaúcho João Gilberto Noll e também do fato de não ter gostado tanto do filme de Babenco: “ficou no meio do caminho entre o filme autoral e o comercial”.

Correio do Povo – Como você vê o atual momento da literatura latino-americana?

Alan Pauls – A literatura latino-americana está em um momento muito dinâmico e plural. Creio que se terminou a influência sufocante do boom da literatura latina, o Olimpo de García Marquez e Vargas Llosa. Está muito variada e rica, concentrada nas cidades, justamente nas grandes cidades da América Latina.

CP – Entre estes autores quem você destaca?

AP – A editora argentina Adriana Hidalgo trabalha com uma coleção destes escritores e publicou quatro livros de João Gilberto Noll (autor gaúcho). A ficção de Noll é contemporânea, sobre a perda de identidade, a falta de forma, o desaparecimento da forma. É atual, tem um humor incrível. Em Noll, eu leio Samuel Beckett e Gombrovicz (Witold, autor polonês que migrou para a Argentina antes da Segunda Guerra Mundial).

Correio do Povo – Fale-nos sobre “História do Cabelo”.


AP – É o segundo volume de uma trilogia que gira em torno dos anos 70, época muito importante para a Argentina e para a América Latina. Eu me formei nos anos 70. Houve uma intensidade política e mortificadora. Nos meus romances, procuro entrar pelas portas de serviço, menores, oblíquas, porém muito concretos. De maneira caprichosa, o cabelo foi fundamental nos anos 70 na Argentina, um fetiche cultural muito forte. As mesmas batalhas e discussões políticas se davam com o cabelo. Pelo cabelo podíamos dividir os revolucionários e os burgueses. A polícia reprimia aqueles de cabelo largo. Assim, procurei colocar no livro esta obsessão pelo cabelo para falar deste processo político e cultural profundo e violento dos anos 70 na Argentina.

CP – Você gostou da adaptação ao cinema de “O Passado”, dirigida por Hector Babenco?

AP – O filme é interessante, trabalha em uma outra relação com o tempo. Acho que sofreu por ficar no meio do caminho entre um filme autoral e comercial, não logrou ser o que queria ser. Não vou defender aqui o meu romance, mas havia uma complexidade e densidade que se transformou um pouco esquemática no filme. Os diretores são como videntes, se não veem, não entendem.

CP – O que você tem a dizer sobre este novo boom do cinema argentino?

AP – De uns 15 anos para cá mudou o conceito de cinema com o surgimento de uma meia dúzia de novos diretores, como Lucrecia Martel e Lisandro Alonso. O mais importante desta mudança é que o cinema deixou de ter ilusões de ser uma grande indústria. O cinema atual argentino avançou pelo menos 100 vezes na sua produção em relação aos anos 80 e 90, quando estávamos condenados a uma mediocridade, um aborrecimento, uma estagnação a cada filme que estreava. Eu posso falar com propriedade pois fui crítico de cinema. Hoje temos jovens de 25 anos que filmam com 5 mil dólares, com atores não profissionais e fazem obras-primas. Se começou um novo cinema, sem aquele imaginário de grande indústria, e estão sendo criadas as regras, com temáticas sempre interessantes e profundas. 



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