O início do 9º Santander POA Jazz Festival não podia ser mais cheio de simbologia. As três formações que se apresentaram fizeram o fino do jazz e mais um pouco, elevando a música instrumental jazzística a uma condição mais do que transcendente. Marcelo Corsetti e banda, Aquarela Carioca e Amaro Freitas tocaram as suas composições próprias, mas foi nas músicas de outros compositores com arranjos seus é que eles ganharam o público, nesta sexta-feira, 7, à noite, no Centro de Eventos do Barra Shopping Sul.
O festival foi aberto um pouco depois das 20h30min, com Marcelo Corsetti e sua banda com um timaço de craques para apresentar um apanhado dos seus 35 anos de carreira e principalmente do disco “Phyra”. Com Corsetti na guitarra, Luiz Mauro Filho nos teclados, Dani Vargas no baixo, Henrique Mello na bateria e Cristiano Ludwig no sax, a formação empolgou o público com o jazz puro, por vezes fusion e a inclusão de algumas pitadas regionais e de música brasileira.
No intervalo do primeiro para o segundo show da noite, houve uma homenagem ao produtor musical, ator, dublador e proprietário do Espaço 373, Sepé Tiaraju de Los Santos, anunciada pela mestre de cerimônias da noite, Juliana Bublitz. Sepé morreu há oito dias em Porto Alegre, aos 78 anos, após convalescer durante mais de dois meses por causa de um AVC isquêmico. A homenagem do Poa Jazz a Sepé foi recebida pelos filhos Daniel e Pedro e também pela atual companheira, Silvana Beduschi. Pedro agradeceu pelos três e disse que o pai nunca deixou de acreditar na música e nos trabalhos de publicidade e dublagem, levando a cultura adiante. "É uma dor imensa saber que se perde esta figura, que eu perco o meu pai, mas este acreditar na cultura dele, este sonho, este legado que ele deixou, este poder de fazer pela cultura, nós sabemos que vai ser continuado e isto nos dá conforto", disse um emocionado Pedrinho.
No segundo show da noite, o público foi brindado com a reunião inédita em Porto Alegre da Aquarela Carioca, que voltou a tocar especialmente para o POA Jazz Festival, mas depois segue em turnê pelo Brasil e pelo mundo. Considerado pela crítica especializada como “um dos mais importantes aparecimentos no cenário musical brasileiro”, devido à originalidade de seus arranjos e ao vigor de sua performance, o Aquarela foi fundado em 1988, no Rio de Janeiro e esteve atuante até 2020. O quinteto formado por Lui Coimbra (violoncelo), Mário Sève (sax soprano, sax alto e flautim), Marcos Suzano (pandeiro e percussão), Paulo Muylaert (guitarra) e Paulo Brandão (baixo) apresentou as suas composições próprias, tipo “Mantra” e “Rua Japeri” e as canções que os deixaram mais conhecidos fora de sua bolha, como as faixas “Joia”, de Caetano Veloso, e “O Canto do Cisne Negro”, de Heitor Villa-Lobos, além da impensável e arrebatadora reinvenção de "Kashmir”, do Led Zeppelin.
Dos cinco músicos do Aquarela, dois utilizam os microfones para se comunicarem com o público que quase lotou o Centro de Eventos do Barra, Lui Coimbra e Mario Seve, exaltando a força do festival, do envolvimento dos gaúchos com o jazz e a importância de terem sido convencidos pelo produtor Carlos Branco de fazer o primeiro show da volta na capital gaúcha. O baixista Paulo Brandão, que morou três anos em Porto Alegre, destacou o quanto gosta da cidade e das pessoas daqui, deixando uns “bah” e “tri legal” no ar. Marcos Suzano e Paulo Muylaert não falaram ao público mas comunicaram com maestria a força dos seus instrumentos, pandeiro, percussão e bateria eletrônica, e a guitarra fraseando bonito de se ver.
Para fechar a noite, outro show memorável: Amaro Freiras. O pianista pernambucano, conceituadíssimo no mundo inteiro, é um dos principais nomes da cena atual do jazz mundial, tocando em turnês e festivais no Brasil, Europa e Ásia. Empunhando as teclas e as cordas do piano Person, Amaro ganhou o público logo de cara com a intensidade das músicas dos seus quatro álbuns já lançados, com destaque para algumas de “Sankofa” (2021) e “Y’Y” (2024), como “Ayeye”, “Vila Bela”, “Y”Y” e “Viva Naná”, homenagem a Naná Vasconcellos e às nossas matas, à nossa Amazônia, com instrumentos de sopro e percussão que emulam pássaros e ruídos da floresta e dos ancestrais. Tudo isso acompanhado pela cozinha criativa e irreverente de Sidiel Vieira no contrabaixo acústico e Digão Braz na bateria e percussão.
Na conversa com o público, Amaro chamou todos para cantar e entoar as notas que ele propunha ao piano. Chamou o público de “Família", como deve ser um festival de jazz ou qualquer festival no mundo. O momento em que ele ganhou ainda mais o público foi quando falou sobre a beleza e a força do cinema brasileiro. “Como é bom ver o nosso cinema brasileiro ganhando o mundo. Por isso, eu vou tocar uma música que não estava no repertório, mas que merece uma versão aqui no Festival, a música-tema do filme 'Ainda Estou Aqui’. Viva o cinema brasileiro!”, disse enquanto executava as notas de “É preciso dar um jeito, meu amigo”, de Erasmo e Roberto Carlos.
Neste sábado e domingo, estão previstos outros grandes shows como o encontro inédito da trombonista cubana Yudith Rojas e da trompetista venezuelana Niccole Meza (fechando o sábado), com participação de músicos brasileiros e a presença de Hamilton de Holanda Trio (fechando o domingo e o festival). Ainda restam ingressos no www.sympla.com.br.
Confira um momento de Amaro Freitas Trio executando o tema de “Ainda Estou Aqui”
SERVIÇO
SANTANDER POA JAZZ FESTIVAL – 9ª EDIÇÃO
Dias 7, 8 e 9 de março de 2025
Portas abrem sempre às 19h
Início dos shows: 20h
Centro de Eventos do Barra Shopping Sul (Av. Diário de Noticias, 300)
PROGRAMAÇÃO
SÁBADO, 8/3 - DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Mari Kerber & Dúnia Elias
Vanessa Moreno & Salomão Soares
Yudith Rojas & Niccole Meza
DOMINGO, 9/3
Mathias 7 Cordas, Samuca do Acordeon & Bruno Silva
Daniel Maza, Hernán Jacinto & Pipi Piazzolla
Hamilton de Holanda Trio
INGRESSOS:
Site: https://bileto.sympla.com.br/event/102763