Com a estreia do filme “Cansei de Ser Nerd” nos cinemas a atriz, diretora e criadora Ana Carolina Sauwen dá um novo passo em sua trajetória ao interpretar a vilã Amanda, uma personagem que desloca expectativas e aposta no desconforto como linguagem. Conhecida por explorar com humor as contradições do cotidiano feminino, a artista agora “investiga” um outro território: aquele em que o riso não nasce do reconhecimento imediato, mas do estranhamento. No longa, em que contracena com Fernando Caruso, sua personagem é ao mesmo tempo magnética e deslocada, provocando mais tensão do que identificação direta. Com mais de 20 anos de carreira, Ana Carolina constrói um percurso que transita entre teatro, audiovisual e projetos autorais. Diretora e dramaturga, desenvolve trabalhos em que humor, crítica e experiência pessoal se atravessam, criando uma linguagem própria. Nas redes sociais, onde reúne mais de 60 mil seguidores, em sua maioria mulheres, consolidou uma comunicação direta e autoral sobre temas como maternidade, identidade e relações de trabalho. A frase que a define, “a atriz que ri de tudo que dá vontade de chorar”, sintetiza esse olhar que transforma tensão em matéria criativa.
Com mais de duas décadas de carreira, integras o elenco da comédia "Cansei de Ser Nerd". O que representa este trabalho?
"Cansei de Ser Nerd" representa um momento muito especial da minha trajetória. Embora eu tenha mais de duas décadas de carreira, durante muito tempo estive mais centrada no teatro, que é uma linguagem que amo profundamente. Nos últimos anos, porém, venho buscando ocupar cada vez mais espaço no audiovisual, estudando, me dedicando e construindo esse caminho com muito desejo e persistência. Por isso, viver a Amanda e participar de um filme que chega aos cinemas tem um significado enorme para mim. É a materialização de um percurso que venho construindo com muito empenho. Além disso, o audiovisual oferece possibilidades criativas muito ricas e diversas, e eu estou verdadeiramente apaixonada por essa linguagem. Ver esse trabalho ganhando vida e encontrando o público é uma grande alegria.
Como defines a vilã Amanda, personagem que interpretas no filme?
A Amanda faz parte desse grupo de vilões que existe no filme, mas ela tem características muito particulares. É uma personagem bastante esquisita, no melhor sentido da palavra. Ela está quase sempre sorrindo, mas é um sorriso que já revela uma certa loucura, uma estranheza que está presente também no olhar. Foi muito divertido construir essa personagem porque eu trabalhei justamente nessa combinação entre fascínio e desconforto. Durante as gravações, eu tinha muita curiosidade para saber como isso apareceria na tela. E acho que o resultado ficou bem interessante, porque a Amanda realmente dá um pouquinho de medo. Ao mesmo tempo, ela tem um magnetismo, uma presença que atrai o olhar do público. É uma personagem estranha, imprevisível e, justamente por isso, muito interessante de assistir.
Acreditas que o jeito esquisito da personagem acabará por fascinar o público? Por quê?
Acredito que sim. Acho que o público costuma se interessar por personagens que fogem do esperado, que não ficam presos a uma única característica ou a um estereótipo. Quando a gente vai além da primeira imagem do que seria uma vilã ou uma mocinha, surgem camadas mais complexas e mais humanas. Eu gosto muito de personagens que provocam sentimentos contraditórios. No caso da Amanda, ela pode despertar interesse e desconforto ao mesmo tempo, fascínio e medo. E acho que é justamente essa mistura que prende a atenção das pessoas. Quando um personagem é um pouco imprevisível e não cabe facilmente numa definição, ele tende a permanecer mais tempo na memória do público.
Como foi interpretar uma vilã pela primeira vez?
Eu já tinha interpretado vilãs no teatro, mas no audiovisual foi a primeira vez. E foi uma experiência muito rica, principalmente por encontrar qual é a medida dessa comunicação que funciona para a tela. Acho que esse é sempre um desafio para mim, que tenho uma trajetória mais longa no teatro: entender o tamanho das coisas, o quanto elas precisam ser ajustadas para a linguagem do audiovisual. A Amanda é uma vilã esquisita, que tem sempre um olhar meio inquietante, uma ponta de loucura. Então eu pude explorar territórios que já conhecia, mas também experimentar esse lugar novo que a câmera permite. Foi muito prazeroso construir uma personagem que transita entre o medo e o humor, e descobrir como fazer isso funcionar numa linguagem diferente daquela em que eu estava mais acostumada a atuar.
Ana Carolina e Amanda têm algo em comum?
Em termos de personalidade, eu espero que elas tenham bem pouco em comum(risos). Acredito que seja assim. Mas existe um traço físico meu que eu aproveitei bastante na construção da personagem. Eu tenho um sorriso muito marcante, uma boca grande, e quando comecei a trabalhar com audiovisual achava que, de alguma forma, precisava conter isso por causa da câmera. Com o tempo, fui entendendo que não: que aquilo também era um instrumento de atuação. Na Amanda, eu aproveitei muito essa característica. Usei essa expressão facial que já é minha, mas levando um pouco além, dentro da medida que a personagem pedia. Transformei isso em mais um recurso da comunicação dela, ajudando a construir esse lugar meio estranho, inquietante e ao mesmo tempo engraçado que ela ocupa na história.
Tens vontade de interpretar outros tipos de personagens?
Ah, eu tenho vontade de experimentar todo tipo de personagem. Tenho sentido cada vez mais desejo de fazer trabalhos mais dramáticos, atuações mais contidas, que explorem outras camadas da interpretação. Eu sou atriz antes de tudo. A comédia é uma das linguagens que eu domino e amo, mas ela não resume quem eu sou artisticamente. O que mais me encanta na profissão é justamente essa possibilidade de transitar por universos diferentes, viver mulheres muito distintas entre si e me desafiar o tempo todo. Acho que a grande magia de ser atriz está nisso: poder habitar personagens diversos, sem ficar presa a um único lugar.
Buscas inspiração em alguma mulher específica para compor tuas personagens?
Não costumo buscar inspiração em uma mulher específica. Isso depende muito de cada personagem e da linguagem do trabalho. Gosto de construir a partir de uma mistura de referências: podem ser pessoas reais, personagens de livros, alguém que eu encontro na rua ou até uma característica muito específica que me chama atenção.
Às vezes é um jeito de falar, uma forma de pensar, um andar, um gesto. O trabalho da atriz é muito observacional. A gente está o tempo todo olhando para como as pessoas vivem, se movimentam, se relacionam e ocupam o mundo.
Mas a construção não vem só de fora. Ela também nasce do que já existe dentro da gente. Acho que os personagens surgem justamente desse encontro entre aquilo que observamos no mundo e aquilo que carregamos internamente. A forma como olhamos para as pessoas já diz muito sobre quem somos, e isso inevitavelmente entra na composição de cada papel.
Acreditas na existência de preconceito contra atores e atrizes de comédia?
Acho que ainda existe um preconceito em relação à comédia, como se ela fosse uma forma de arte menor. É uma ideia da qual eu discordo completamente. Na verdade, acredito que a comédia exige um domínio enorme da atuação. Muitos dos grandes atores e atrizes transitam com excelência entre o drama e o humor. O Steve Carell é uma grande inspiração para mim nesse sentido, assim como a Fernanda Torres e tantos outros artistas que mostram que essa divisão é artificial. Tenho a sensação de que esse preconceito vem diminuindo, justamente porque vemos cada vez mais intérpretes circulando entre esses universos e provando que não existe hierarquia entre eles. A comédia não é menos profunda do que o drama. Ela é apenas uma outra forma de olhar para a realidade. E, para mim, uma forma extremamente potente. Através do riso, a gente revela contradições, questiona comportamentos, aponta o que está errado e cria identificação. O humor tem a capacidade de provocar reflexão sem abrir mão do prazer. Isso é uma força artística enorme.
Como foi viver a maternidade durante a pandemia e transformar essa experiência no livro “A mãe desse livro não sou eu”?
A experiência de me tornar mãe durante a pandemia foi muito particular. O puerpério já costuma ser um período atravessado por uma sensação de solidão, porque existem muitas horas em que você está ali, sozinha com aquele bebê, especialmente nas madrugadas. Durante a pandemia, essa experiência foi amplificada. Faltavam os encontros, as trocas, a possibilidade de olhar para outras mães e perceber que aquilo que você estava vivendo também acontecia com outras mulheres.
Acho que houve um aumento muito grande dessa sensação de isolamento e desamparo. E foi justamente desse conjunto de sentimentos - misturado também à minha inquietação diante da forma como a sociedade patriarcal organiza o cuidado e distribui as responsabilidades- que nasceram os poemas.
Eu não sentei para escrever um livro. Os textos foram surgindo aos poucos. Entre uma amamentação e outra, quando aparecia algum pequeno intervalo, eu anotava uma ideia, escrevia um verso, registrava um pensamento. Depois de algum tempo, percebi que aqueles textos conversavam entre si e que ali existia um livro.
Organizar esse material foi uma forma de transformar uma experiência muito íntima em algo coletivo. Porque eu percebi que aquelas palavras ecoavam em outras mulheres e podiam oferecer algo que muitas vezes faz falta nesse período: identificação, acolhimento e a sensação de que você não está sozinha.
Paralelo ao filme, podes ser vista na comédia teatral "Da Mama ao Caos". Qual a diferença entre os dois trabalhos?
São trabalhos completamente distintos. Acho que a maior diferença é que Da Mama ao Caos é um espetáculo construído a partir da observação do cotidiano materno. Ele parte de situações reais que as mães vivem e sobre as quais eu faço uma reflexão cômica. É um trabalho muito próximo da realidade, da experiência vivida. Já o filme brinca com a fantasia. É uma comédia sci-fi (Science Fiction) que não tem medo de misturar linguagens, criar universos que não existem e propor situações completamente improváveis. Então, embora os dois trabalhos tenham humor, eles partem de lugares muito diferentes. Um está ancorado no cotidiano e na observação da vida real; o outro se permite inventar mundos e expandir a imaginação.
Em algum momento da carreira aproveitaste experiências pessoais, com Vicente, teu filho de cinco anos, na caracterização de algum personagem?
Acho que uma atriz está sempre usando a própria realidade na construção dos personagens. Tudo o que a gente vive vira material. Eu até brinco que vivi algumas situações bem pesadas na infância e penso: "olha que bom, desde cedo ganhei material de densidade para usar como atriz". (risos)
Mas, respondendo especificamente à pergunta, no meu trabalho ligado à maternidade eu uso muito a minha experiência como mãe. Muitas situações que vivi com o Vicente acabaram entrando nos espetáculos e na minha comunicação. Ele é muito inteligente, muito sagaz, então várias respostas que já me deu acabaram virando piada ou material de cena.
E acho que, mais do que situações específicas, a grande matéria-prima foi a minha própria angústia de querer ser uma mãe perfeita e descobrir que isso é impossível. Nenhuma mãe é perfeita. Essa perfeição é uma construção social muito difícil de sustentar. Essa tensão entre expectativa e realidade foi uma das principais bases tanto para os meus espetáculos quanto para o conteúdo que produzo sobre maternidade.
Como concilias a arte com a maternidade?
Eu concilio com grande alegria, antes de mais nada. Porque eu sei que muitas mulheres acabam tendo que abandonar ou reduzir muito suas carreiras depois da maternidade. E, no meio artístico, isso é ainda mais comum. A precarização do trabalho artístico no Brasil já é enorme, então eu me sinto muito feliz e muito privilegiada por ter conseguido continuar trabalhando e construindo minha trajetória.
Ao mesmo tempo, existe uma sobrecarga gigantesca. Porque você está sempre trabalhando. O tempo de folga praticamente deixa de existir, já que os momentos em que não estou trabalhando (como atriz) são os momentos em que estou com meu filho. E isso não é um problema — pelo contrário, é uma alegria, porque eu amo estar com ele. Mas gosto de falar sobre isso porque muitas pessoas que não têm filhos não compreendem completamente o que significa ser uma mãe que trabalha.
Quando você não está trabalhando, quase nunca está descansando. Muitas vezes está trabalhando ainda mais. Eu até brinco no meu show que as mães descansam trabalhando. É no trabalho que, às vezes, existe algum respiro.