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Angine de Poitrine viraliza com uso de microtom e estilo anticonvencional

Duo canadense tomou as redes sociais nos últimos meses, mas opiniões se dividem entre elogios e críticas

Duo durante apresentação no ESMA in Rennes, na França
Duo durante apresentação no ESMA in Rennes, na França Foto : YouTube / Reprodução / CP

Para quem gosta de conhecer novas construções musicais e está aberto para explorar artistas de viversos lugares do mundo, é muito provável que já tenha escutado (ou, pelo menos, ouvido falar) Angine de Poitrine. O duo, formado em 2024, em Québec, no Canadá, é formado por Khn de Poitrine, nas guitarras, e Klek de Poitrine, na bateria.

Com estilo ousado que dialoga com a estética dadaísta, movimento característico das vanguardas europeias do século XX, os músicos exploram uma técnica pouco familiar para o grande público: a microtonalidade. Ou seja, o uso de intervalos menores do que os da escala tradicional ocidental – baseada no sistema temperado (método de afinação musical) de 12 notas por oitava – explorando subdivisões do semitom, como quartos de tom ou frações ainda menores, o que permite a existência de notas “entre” as notas do piano. Nas palavras do maestro Tiago Flores, “entre o dó e o dó sustenido existem diversas alturas sonoras intermediárias, mais perceptíveis em instrumentos como o violino, que não possuem trastes”.

A “novidade” para o público ocidental, fez com que muitas pessoas conhececem composições que utilizam o microtom, como o músico Arrigo Barnabé e Frank Zappa, mas o estilo é muito anterior ao que o ocidente acaba tendo acesso corriqueiramente, como as canções árabes. Para o músico e ex-integrante da Oriental Beat, Marcos Strapazon, na música árabe mais antiga, o “oriental clássico”, os microtons estão presentes em quase todas as canções. No entando, hoje em dia, sofre bastante influência da música ocidental. “Na música árabe, os microtons são utilizados de uma forma bem específica. É sempre o que se chama de 1/4 de tom. Eles não exploram qualquer microtom.”

Até porque a complexidade quando se duplica ou triplica as possibilidades de compor, são maiores. “Adicionar microtons gera uma complexidade absurda quando se tem muitos instrumentos. Talvez por isso o duo canadense tenha optado por ter só a guitarra e o baixo.”, complementa Strapazon.

Outro aspecto caraterístico do duo, é não utilizar a voz que, na música, faz parte da melodia. Ao contrário das canções feitas pelos povos árabes, onde a entonação é muito presente. A escolha pode passar por um “estranhamento” do público já que o ouvido não está acostumado com composições que saiam do padrão temperado, podendo confundir com desafinação. “A maioria das pessoas aqui no Brasil não tem contato com isso. Não é uma coisa que cause um comportamento normal do grande público”, salienta o músico e produtor Paulo Inchauspe. Com a viralização do Angine de Poitrine, ele acredita que isso pode mudar.

Mais marketing ou mais música?

As redes sociais podem funcionar como uma alavanca para o sucesso, só que com ele vêm as críticas. Com Angine de Poitrine não foi diferente. Nas redes sociais, diversas pessoas já colocaram em “xeque” as composições de Khn e Klek alegando que o músicos “furaram a bolha” mais pela estética exagerada – como o uso de bolinhas pretas e brancas, tinta pelo corpo e máscaras – do que pela técnica.

“Observo artistas que estão tentando trazer algo novo para um mercado que, à primeira vista, pode parecer saturado. O Angine de Poitrine aposta numa estética que vai muito além da sonoridade. A ‘estranheza’ passa pela identidade visual, pelo comportamento no palco…. Tudo isso acaba por fazer sentido no todo. Eu acho que tem uma forte intenção marketeira sim mas isso não se resume a parte sonora. Acho que eles são artistas procurando inovar e, como tudo é meio ‘esquisito’ ali, acaba por ser autêntico. Não imaginaria o Coldplay explorando os microtons como o Angine faz”, diz Marcos Strapazon.

A mesma ideia é corroborada por Paulo Inchauspe:

"Tem uma assinatura legal porque, afinal de contas, são duas pessoas e eles conseguiram sair em turnê agora fazendo uma coisa bem peculiar, bem interessante. A música microtonal dificilmente seria um produto, acho tem os dois: marketing e música. Vejo que elem querem fazer algo que gostam.”

*Sob supervisão de Luiz Gonzaga Lopes.

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