Tudo bem que o clima é de carnaval, mas para os que não estão muito interessados no ziriguidum, a dica é aproveitar que estamos a menos de duas semanas da maior premiação do cinema para assistir aos principais filmes indicados.
Para entrar no clima, conversamos com verdadeiros cinéfilos, que trocam boas horas de sono por devorar obras de todos os gêneros, oriundas dos mais diversos lugares do globo. Eles já fizeram as suas apostas para cada um dos oito indicados na categoria de melhor filme, cujas principais críticas reunimos abaixo.
A cerimônia acontece no próximo dia 22, em Los Angeles, e será apresentada pelo ator Neil Patrick Harris, com cobertura online, minuto a minuto, da nossa equipe do Arte & Agenda do Correio do Povo.
Faça a sua escolha!
Birdman: A Inesperada Virtude da Ignorância
Comovente e excêntrico na medida certa, Birdman é apontado como um dos favoritos ao prêmio de melhor filme, que é apenas uma das nove categorias em que concorre. No entanto, perdeu o Globo de Ouro para “O Grande Hotel Budapeste” na categoria melhor comédia/musical, o que coloca em cheque o seu favoritismo na cerimônia do dia 22. Com a ambientação do roteiro praticamente toda se passando nos corredores de teatro da Broadway, o longa é dirigido por Alejandro Gonzalez Iñarrítu, que já esteve no páreo em 2007 por “Babel”.
Ponto forte: o roteiro é cheio de metalinguagem e brincadeiras a respeito do cinema e teatro alinhado à brilhante atuação de Michael Keaton. O ator incorpora um personagem cuja substância diz muito de sua própria carreira: um ator consagrado pelo papel de um super-herói que entrou em decadência e tenta dar a volta por cima em uma peça de teatro. Vale lembrar que após interpretar “Batman”, em 1989, Keaton passou por situação semelhante na vida real.
Ponto fraco: talvez algumas pessoas não entendam o subtexto de uma obra que critica as engrenagens do próprio sistema do showbiz.
Boyhood: Da Infância à Juventude
Outro forte candidato tanto ao prêmio de filme do ano como de melhor direção, o longa de Richard Linklater foi rodado em 12 anos, o que pode ser o seu maior trunfo. Tem chances de perder nas categorias mais importantes caso a Academia resolva premiar uma produção no formato mais “clássico”, o que daria facilmente a estatueta para “Birdman”, por exemplo. A grande aposta, no entanto é que ambos dividam os prêmios de melhor filme e diretor.
Ponto forte: a edição que constrói, de maneira muito eficaz, o clima de passagem do tempo. No entanto, acaba evidenciando o roteiro simples, que dividiu opiniões.
Ponto fraco: as situações cotidianas retratadas no filme acabam ganhando um clima de documentário, o que pode ser visto por muitos como fruto de um roteiro fraco.
Sniper Americano
A adaptação do livro “American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Military History” é a cara do patriotismo americano e arrebatou seis indicações ao Oscar além de ter sido um sucesso de bilheteria. No entanto, suas chances na premiação ainda são uma incógnita, já que ninguém esperava essa receptividade tão positiva pela Academia.
Ponto forte: a direção de Clint Eastwood, que ironicamente ficou de fora nas indicações, imprime o retrato de um estudo psicológico do personagem título, desfazendo o mito para entender não o guerreiro, mas o homem disposto a sacrificar tudo pelo seu país.
Ponto fraco: pelo tema batido, o filme acaba sendo uma sucessão de clichês, cenas preguiçosas de guerra e atuações nada além de corretas. Apesar de Bradley Cooper estar no páreo como melhor ator, a impressão que fica é muito mais de um desespero da Academia em criar um novo astro do que o mérito por seus talentos dramáticos, que não vão além do esperado.
O Grande Hotel Budapeste
Fugindo completamente do convencional em diversos quesitos, causou surpresa em sua indicação. No entanto, o longa de Wes Anderson, que ficou de fora na corrida pela melhor direção, dificilmente ganhará como melhor filme, devendo ficar apenas com as categorias secundárias. Junto com Birdman, é o que tem mais indicações. A história se passa no hotel e é ambientada em um período de guerra.
Ponto forte: fotografia e roteiro original impecáveis, que resultam em uma experiência visual deslumbrante e criativa alinhadas a uma trilha sonora de tirar o chapéu.
Ponto fraco: para quem prefere um filme no seu formato tradicional, o longa pode decepcionar bastante, graças ao estilo único de Anderson que geralmente é melhor assimilado pelos mais antenados em cinema, com diálogos afiados entre o humor e o drama.
O Jogo da Imitação
A onipresença britânica no Oscar é representada pelo filme do norueguês Taylor Mudlum, que retrata a biografia do gênio matemático inglês Alan Turing. No entanto é pouco provável que o filme bata os concorrentes, já que Mudlum ainda engatinha dentro do cenário americano, e a indicação por si só já é motivo de comemoração.
Ponto forte: além da atuação primorosa de Beneditch Cumberbatch, que concorre como melhor ator, o filme apresenta um roteiro redondinho, com uma reconstituição de época impecável.
Ponto fraco: peca por soar demasiadamente calculado nos diálogos, com cenas que repetidamente comprometem a credibilidade da trama.
Selma
Há quem diga que o filme de Ava DuVernay só arrumou lugar entre os finalistas devido a seu tema, como forma de acarinhar a comunidade negra norte-americana, já que o filme narra a luta histórica de Luther King Jr.. É o azarão da noite, já que concorre apenas em mais uma categoria, melhor canção, da qual é o grande favorito.
Ponto forte: David Oyelowo no papel de Martin Luther King Jr. cuja interpretação injustamente ficou de fora da disputa pela estatueta de melhor ator.
Ponto fraco: considerado por muitos como apelativo pela abordagem de um tema ainda delicado como o racismo, o filme peca pela trilha clichê e pelo tom sisudo, que pode desencorajar o público médio a embarcar no filme.
A Teoria de Tudo
Baseado na biografia do astrofísico Stephen Hawking, o filme contou com a sensibilidade do diretor James Marsh em explorar o extenso material de vida do estudioso. Tem o formato padrão que geralmente agrada a Academia: trama real de superação, ator fisicamente transformado e uma história de amor para arrematar. Não fossem “Boyhood” ou “Birdman” na sua frente, teria chances de levar a estatueta.
Ponto forte: a atuação comovente de Eddie Redmayne como Stephen Hawking, que passa a maior parte do filme mudo, por conta da evolução da doença do personagem. Redmayne acaba adotando um repertório de trejeitos e postura incrivelmente semelhantes aos de Hawking que beira um registro documental sobre o biografado.
Ponto fraco: apesar dos ingredientes aparentemente infalíveis, o filme apresenta roteiro burocrático, sem surpresas, e dificilmente consegue apaixonar a plateia.
Whiplash: Em Busca da Perfeição
Outro exemplo com história de superação, o filme já considerado cult de Damian Chazzelle não tem muitas chances de levar a estatueta. Sua indicação se assemelha a “Pequena Miss Sunshine”, que concorreu em 2007 e, obviamente, não levou o prêmio em meio aos gigantes que estavam no páreo. No entanto, as chances aumentam nas categorias menores, como roteiro adaptado e edição.
Ponto forte: o roteiro é eficiente e conta com momentos de extrema tensão, pressão e desespero, acompanhados por uma exímia trilha sonora (afinal, é um filme conduzido pelo jazz) e interpretação caricata de JK Simmons, que é sério candidato a ator coadjuvante.
Ponto fraco: a superestimação do filme pode causar decepção do público, já que é considerado por muitos como uma história clichê de superação e já foi apontado por críticos de jazz como exagerado.
*Colaboração: Chico Izidro, Clênio Viegas e Ederson Quadros
Aquecimento Oscar 2015
Cinéfilos falam das chances dos oito longas que concorrem como melhor filme