Marepe atravessa o Brasil para apresentar na Fundação Iberê (Avenida Padre Cacique, 2000 – Cristal), a partir deste sábado, às 14h, sua primeira exposição individual na capital. Com curadoria de Ricardo Sardenberg, o conjunto de 21 obras criadas entre 1995 e 2024 evoca poeticamente uma memória pessoal que se entrelaça à sua cidade natal. Tudo vem da terra onde ainda vive, do convívio com seus habitantes, vizinhos e familiares. Está à venda nas lojas da pacata Santo Antônio? Virou arte: assadeiras, bacias, latas, carrinhos de obra, tijolos, mesas de plástico, madeira e papelão. Ou como ele mesmo diz, suas obras estão prontas, mas são invisíveis para as pessoas.
Marepe, as primeiras sílabas do nome de batismo Marcos Reis Peixoto, nasceu em 1970, na pequena Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano. A cidade conecta o sertão ao mar, sendo um importante eixo por onde passam as mais diversas mercadorias, de materiais de construção a alimentos. Quando criança, costumava voltar da escola e passar um tempo na Comercial São Luís, onde trabalhava seu pai. Na loja de materiais, brincava com bacias, cordas, latas, caixas de fósforos e outros itens banais do dia a dia. Ali revelava-se um artista visual.
Já adulto, ingressou no curso de Artes Plásticas na Universidade Federal da Bahia (UFBA), com quem vivia uma relação atribulada, e nunca concluiu a faculdade. Foram as memórias da infância que lhe abriram as portas no mercado da arte.
São quase 40 anos de carreira, e Marepe é mundialmente conhecido pela maneira inventiva com que se apropria de objetos e práticas culturais de sua terra natal, centrada em ready-mades. O termo, criado por Marcel Duchamp (1887-1968), designa um tipo de objeto, por ele inventado, que consiste em um ou mais artigos de uso cotidiano, produzidos em massa, selecionados sem critérios estéticos e expostos como obras de arte em espaços especializados como museus ou galerias de arte. A irreverência e o senso de humor compõem o produto final.
Segundo Sardenberg, “A obra de Marepe não se inscreve simplesmente no espaço da representação; ela age sobre a percepção, desestabilizando os códigos estéticos e as categorias instituídas pela modernidade eurocentrada. Escadas, bacias, carrinhos de feira – longe de funcionarem como alegorias identitárias – operam como agentes formais que reorganizam o campo do sensível. Marepe faz com os objetos cotidianos o que os construtivistas faziam com a linha e o plano: desnaturaliza-os, interrompe seu fluxo utilitário e os reintroduz no campo do significante, agora como enigma.”
No catálogo da exposição, o curador enfatiza: “É nesse novo ecossistema material que a obra de Marepe encontra sua força crítica. Ao recolocar em cena esses objetos – bacias, carrinhos, cadeiras, bicicletas, escadas, enfeites de natal – não como resíduos, mas como signos ativos de uma economia afetiva, o artista realiza uma torção semântica no gesto do ready-made. Se Duchamp retirava o objeto de seu contexto funcional para inseri-lo no circuito da arte, Marepe opera um movimento inverso: ele reinscreve o objeto artístico no campo do necessário. Por isso, em vez de ready-made, Marepe propõe, de forma jocosa, a ideia de necessáire – aquilo de que se precisa para viver. A arte, aqui, não está apartada da vida; ela se faz no entrechoque entre memória e precariedade, entre invenção e escassez, entre o local e o global – enfim, uma celebração do campo de visão de quem olha a partir do umbigo da periferia.”
Para Sardenberg, seria um equívoco situar Marepe apenas dentro da genealogia da escultura contemporânea ou da instalação. O que está em jogo em sua prática é uma reconfiguração das condições mesmas da arte, uma contestação silenciosa – mas não por isso menos incisiva – dos regimes de visibilidade que historicamente separaram o "popular" do "erudito", o "regional" do "universal". Como certos gestos duchampianos reterritorializados a partir do recôncavo baiano, seus objetos deslocam o familiar para o campo do estranho, do inquietante.
Sobre o curador
Ricardo Sardenberg é curador, editor e crítico de arte. Formado pela NYU, foi diretor das galerias Zabriskie, Nova York e Camargo Vilaça, São Paulo, além de atuar na Pinacoteca do Estado de São Paulo e em Inhotim. Fundou a Editora Cobogó, Rio de Janeiro e o Projeto Vênus, São Paulo, atual galeria Sardenberg. Curou exposições de artistas como Cildo Meireles e Wesley Duke Lee. Representou a Art Basel no Brasil por 15 anos.