Arte & Agenda

Artista gaúcha Ana Norogrando expõe em Lisboa

“O Submarino Feminista Aquafluxo” aborda a cidade como um lugar de enchentes

A artista Ana Norogrando realiza a exposição 'O Submarino Feminino Aquafluxo' em Lisboa
A artista Ana Norogrando realiza a exposição 'O Submarino Feminino Aquafluxo' em Lisboa Foto : Bruno Zulian / Divulgação / CP

Uma instalação inaugurada na noite da última sexta-feira (10/05) no Museu Nacional de Arte Contemporânea de Portugal alude a Porto Alegre como lugar de enchentes. Trata-se da instalação O Submarino Feminista Aquafluxo, da artista visual gaúcha Ana Norogrando, exposta com projeto curatorial de Gaudêncio Fidelis.

Em outubro de 2015, Norogrando participaria da 10º Bienal do Mercosul – Mensagens de Uma Nova América, em Porto Alegre, quando o Guaíba transbordou e alagou a casa e o atelier da artista, isolando-os, na Ilha Grande dos Marinheiros. Ela se viu obrigada a transportar suas obras de barco para acessar o local da bienal, que tinha Gaudêncio como curador-chefe.

Esse incidente, considerado “emblemático” pelo curador, foi incluído na atual instalação de Norogrando como “dispositivo metafórico”, com a introdução de outros elementos relacionados, como um barco com a simulação volumétrica das obras de arte da artista e várias fotografias da ocasião registrada em 2015.

O curador, atualmente professor de História da Arte em Nova York, diz que ao processar artisticamente o episódio Norogrando “antecipou o futuro”, o que é uma das mais importantes funções do artista na sociedade. Para Gaudêncio, a exposição coincide com a “tragédia anunciada” que atinge o Rio Grande do Sul com gravidade jamais vista.

“Naquele outubro de 2015, uma frota de caminhões ficou estacionada em São Paulo por três semanas esperando a chuva cessar para realizar o trecho de transporte das obras da Bienal do Mercosul até Porto Alegre”, lembra o curador, para dar uma ideia da dimensão da enchente de então (307,2 milímetros de precipitação no mês, batendo a marca de 1966, de 303,4 milímetros).

Ele acrescenta: “O clima é previsível pela ciência, há cerca de 15 anos cientistas apontam o RS como um vértice de mudanças para um clima extremado. A falta de investimento e planejamento, manutenção de sistemas de drenagem, estratégias de prevenção de enchentes e infraestrutura para tanto evidenciam que tragédias anunciadas como essa são uma realidade anunciada e não uma praga dos céus”, esclarece Gaudêncio, que também foi o curador da Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, entre outros trabalhos de destaque.

Ana Norogrando vem abordando os diversos fenômenos da força das águas em sua produção artística desde 2009, com a obra Entre as Águas. Desenvolvido nos últimos dois anos, O Submarino Feminista Aquafluxo trata, entre outras questões, das trajetórias de migração e deslocamentos nacionais e transnacionais.

Com formato semelhante a um submersível, luz interna azulada e um periscópio em forma de serpente, a instalação multimodalidade foi concebida como uma construção metafórica que evoca o interior de um submarino. Com 19 m de comprimento por 2,20 m de largura, a obra inédita fica exposta no MNAC até 30 de junho.

Triste e preocupada com a catástrofe que se abateu sobre o estado, Norogrando (Cachoeira do Sul, 1951), mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 1982, teve momentos de alegria durante a abertura da exposição ao receber apreciadores da arte, colegas artistas e convidados na galeria PeP do Museu Nacional de Arte Contemporânea, também chamado de Museu do Chiado, por se localizar no tradicional bairro de igual nome de Lisboa.

Guia de Programação: a grade dos canais da TV aberta desta sexta-feira, dia 7 de agosto de 2026

As informações são repassadas pelas emissoras de televisão e podem sofrer alteração sem aviso prévio