Quatro pessoas vivendo o conflito de serem si mesmas. Assim define Pedro Calais a Lagum, que chega a Porto Alegre neste sábado com a turnê “As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo”. Ao URB Stage (r. Beirute, 45 - Navegantes), a banda mineira vai trazer uma de suas faces mais potentes: aquela que há somente ao vivo, no palco, e que representa o atual momento do grupo formado por Pedro, Zani, Jorge e Francisco.
Último lançamento da Lagum, “As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo” chegou ao mundo com dez faixas em maio deste ano e se consolidou como a maior estreia de sua carreira até o momento. Agora, o que espera a capital gaúcha é o show em sua melhor forma, resultado de uma construção conjunta entre a banda e o público que aperfeiçoou a turnê a cada apresentação desde julho. Os ingressos estão à venda na Sympla.
Ao Correio do Povo, a banda comenta sobre a concepção do novo álbum, os aprendizados que ele trouxe e a essência de uma Lagum que está em constante transformação. Confira a entrevista abaixo:
Como foi pensar e construir o álbum e como ele se transformou no processo?
[Pedro] Foi um processo longo, entre compor, produzir e lançar, porque a gente tá com o nosso próprio estúdio. Então, a gente decidiu fazer tudo muito em casa, sabe? A gente compunha e pré-produzia e levantava muitas ideias ali no computador. Aí começamos a produzir em junho de 2024 e lançamos ele só em maio desse ano. Mas foi um processo muito saboroso, eu diria, porque a gente produziu na nossa cidade, Belo Horizonte. Muitas das inspirações nasceram no trajeto entre a nossa casa e o estúdio, muitas referências visuais também, dentro da nossa própria cidade. Foi um processo legal, porque não foi uma correria, onde a gente pegava referências e tentava sugar e de certa forma copiar. Era vendo o que a gente tava vendo ali na nossa cidade, no nosso dia a dia comum, e colocando isso como parte da obra, tanto áudio quanto vídeo.
Como as trajetórias individuais de cada um de vocês, somadas às vivências conjuntas, refletiram nesse processo?
[Pedro] A gente sempre colocou muito a mão de cada um. Cada um colocava o que tinha a oferecer na obra e, no fim das contas, isso tudo se misturava em uma coisa só, mas eu não sei dizer. Essa é uma pergunta complexa, porque acho que a gente não fala muito sobre o que de cada um tem ali. Tipo, “ah, isso aqui eu tirei disso que eu ouvia”.
[Zani] Eu acho que a soma das trajetórias individuais como influência no álbum assim de cada um é a Lagum, sabe? É meio a maneira em que a gente trabalha em relação tanto à música, quanto à empresa Lagum, eu acho que é um processo tão natural para a gente que é difícil de explicar mesmo, porque em cada música ali tem uma referência, por exemplo, de um som que cada um ouviu, que faz parte já do que a gente é. Eu acho que a administração dessas trajetórias e do que cada um coloca que faz a gente ser o que a gente é. Eu acho que esse álbum não foi diferente.
[Pedro] A essa altura do campeonato, já tá tudo misturado, todo mundo é um só já.
Qual é o sentimento de compartilhar as cores, as curvas e as dores da Lagum com o mundo?
[Jorge] Eu acho que são vários sentimentos. Que no primeiro momento de lançamento é um sentimento muito de ansiedade, de expectativa, de pensar como é que as pessoas vão receber essa nova obra. Depois, eu acho que é um sentimento de contemplação e de missão cumprida, quando a gente sai para turnê e vê a galera cantando. E também eu acho que um sentimento muito grande de gratidão e de realmente dever cumprido, quando a gente encontra as pessoas e elas falam do impacto que a música teve na vida delas e como é que isso mexe com elas. E também é um sentimento muito que a gente tem quando tá em cima do palco. Ver a reação das pessoas, do público, à medida que a gente toca as músicas. Então, acho que é um processo bem complexo emocionalmente, sabe? Desde a concepção da música até botar ela na rua, até ver a reação das pessoas e como isso impacta na vida delas. É uma montanha-russa de emoções, mas no final sempre é muito positivo e muito prazeroso ver esse impacto.
E o impacto desse álbum foi como vocês esperavam no público, surpreendeu? Como foi notar isso depois de passar por várias cidades com a turnê?
[Pedro] Foi até melhor, a recepção do público foi a nossa melhor estreia até hoje, vendo os números [...] A gente se surpreendeu um pouco. Algumas músicas viraram trend nas redes sociais, no show, algumas músicas se transformaram bastante, ganharam bastante força. Tinha coisas que a gente achava que iam funcionar super no show e depois vimos que não era bem dessa forma. Um exemplo é “As Desvantagens de Amar Alguém que Mora Longe”, que a gente fez uma versão e percebeu que as pessoas não cantavam tanto. Então, a gente reformulou ela para uma versão de voz e guitarra, que começou a funcionar mais. Eu acho que trabalhar com música, tendo um público como participação, é um processo que é um ping-pong. Você joga e volta. E, quando volta, você adapta aquilo como tem que ser adaptado. Às vezes, a gente entra no palco pronto para uma coisa, mas cê vê que não é bem assim que funciona. O cenário tem que adaptar alguma coisa, a luz tem que adaptar alguma coisa. A gente tá em constante mutação para a obra caber melhor nos palcos e também para lançar. A gente foi muito sagaz desde quando começou a fazer som, que as pessoas escutam música no fone, elas escutam sozinhas. Então, a gente faz música como banda, no palco é uma coisa, no fone é outra coisa, porque a gente sabe o que para cada lugar funciona melhor e para nossa vontade também. Quando a gente tá fazendo uma música para ser ouvida, a gente quer ser mais próximo, quer sentir alguma coisa que seja mais moldável ao ouvido. E na hora do show a gente quer celebrar, jogar tudo pro alto, gritar, pular. A gente tá em constante modulação.
Quais são as expectativas para o show em Porto Alegre e o que o público pode esperar da setlist?
[Francisco] Estamos na turnê do nosso álbum “As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo”. E já tivemos muitos feedbacks legais dos shows, todos tão construídos em cima desse álbum e não só dele também, em cima de toda a nossa carreira. A galera pode esperar um pouco de cada álbum permear, igual a gente sempre trouxe nos shows. E uma coisa muito curiosa também que a gente na última turnê fazia sempre a última música do show “Festa Jovem”. E tivemos uma mudança para esse álbum. Várias pessoas estão muito curiosas para ver isso, porque existe uma grande diferença entre o Lagum de estúdio e o Lagum ao vivo. E a galera sentiu já que foi o objetivo desse álbum atual nosso trazer uma pegada do ao vivo para o estúdio, para tentar diminuir um pouco essa diferenciação, ver como é que isso seria. Mas, ainda assim, a gente descobriu que tinha mais upgrade para fazer, em relação ao show e à versão de estúdio desse álbum. Está muito legal, a gente gastou muito tempo produzindo esse show e também muitos shows para chegar no repertório que a gente queria. Um repertório mais fino que tá tendo a melhor entrega. Por esse show estar acontecendo agora, mais do meio para o final da nossa turnê que tá em vigência, a galera pode se preparar para ver a gente na melhor forma possível, tanto de tocada, como execução e performance. Porque todos esses shows foram uma construção que só melhora. A gente faz os ajustes finos ali para chegar no ponto que tá e eu acho que isso vai ser um resultado muito legal para essa galera que sempre abraça muita gente. É aquela coisa, vamos esquentar, vamos mandar o sucesso para a galera e aquele astral de sempre do show do Lagum, que é todo mundo cantando junto, ouvindo junto, na energia de sempre.
O que o ciclo desse álbum, que já tá chegando ao fim, representou pra banda, como vocês evoluíram, se transformaram?
[Pedro] Eu acho que a gente não costuma enxergar muito como ciclos, porque parece que a coisa só vai acontecendo, uma coisa emenda na outra. Quando a gente lançou “Depois do Fim”, que é o nosso penúltimo álbum de estúdio, a gente falava: "Ah, isso aqui é um novo início da banda”, como se a banda acabasse em um ponto e começasse em outro ponto. De fato, como se fosse em ciclos. E, depois que a gente lançou esse álbum, a gente fala: "Caramba, depois assim não era de forma alguma um reinício". Talvez fosse um fim, talvez esse seja o início, a gente sempre tem a sensação de que tá se iniciando um novo ciclo, mas, quando olha pra trás, você fala “Não, é tudo uma coisa só, é tudo a Lagum, é tudo um emendado. Então, eu acho que eu usaria “esse momento” da banda, porque ele vai virar outra coisa, a cada mês que passa ele vira outra coisa. Eu acho que o momento que a gente tá foi muito de aprendizado de turnê, de ir para lugares que a gente não tinha ido e entender como que funcionam públicos de outros estados, casas de outros estados. A gente entendeu muito sobre setlist. Tiramos uma música, que é “Fifa” no primeiro show, em São Paulo. As pessoas reclamaram muito. É do primeiro álbum, mas as pessoas dão muito valor e tornam isso muito precioso. A gente vem entendendo qual é o valor de toda a nossa carreira. Que, às vezes, é através de coisas que para a gente tão no passado que as pessoas se apaixonaram pela nossa música. Acho que a gente aprendeu a dar valor para toda a nossa história e tá carregando mais isso. Tá vendo que é muito sobre a Lagum com carreira completa, do que esse ciclo que acaba e começa outra coisa completamente diferente. A gente também tem visto muito do que acontece na comunicação e no mercado, a pessoa um dia ela é uma astronauta, no outro é uma sereia e no outro é um piloto de avião. E tá entendendo que para a gente, não é assim. Nós somos quatro pessoas e o nosso conflito é ser a gente. E o que dita isso é como tá a nossa vida pessoal, e isso faz refletir na nossa carreira. Agora estamos nós quatro aí, morando em Belo Horizonte, uns casaram, outros tiveram filhos, e a gente tá girando diante dos olhos e dos ouvidos das pessoas. E acho que elas vão entender cada fase, cada pedacinho da nossa vida, através da nossa carreira.
Já que não são ciclos, qual é o próximo momento da Lagum, o que vem por aí em 2026?
[Pedro] A gente vai começar o ano com uma Turnê de Verão para 2026, mas o nosso grande plano de agosto de 2026 ainda não pode ser revelado. Mas será revelado em breve.
Ouça “As Cores, As Curvas e As Dores do Mundo”:
*Sob supervisão de Luiz G. Lopes