As mãos que emocionam o público

As mãos que emocionam o público

Apresentação natalina de João Carlos Martins e Orquestra, sexta na Capital, cativou as presentes que praticamente lotaram o Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre

Thaise Teixeira

Maestro João Carlos Martins alternou regência, história de vida, explicação sobre as canções e interpretações ao piano

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Quem via, ao longe, as mãos de João Carlos Martins reger a Orquestra especialmente composta para este concerto natalino, preparado para encerrar sua turnê em 2022, na sexta-feira, 23 de novembro, no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, as via em permanente redesenho. Acompanhavam a música. Por ora, dançavam no ar de forma efusiva. Por outras, de forma branda. Em alguns momentos, ambas direcionavam-se à direita. Em outros, voltavam-se à esquerda. Atuavam sozinhas, juntas, vibravam e, como se falassem, diziam que, ali, executavam o real movimento da vida: o permanente movimento. 

A história de superação do pianista e maestro é mundialmente conhecida. Aos 18 anos, foi diagnosticado com uma doença rara, distonia focal, a qual originou a crescente perda nos movimentos dos dedos e das mãos. Mais alguns acidentes e consequentes problemas de saúde, por fim, o fizeram a aposentar-se do piano em 2019, quando tocava apenas com os polegares. Há aproximadamente dois anos, Martins recuperou 10% da mobilidade manual e, hoje, após quase duas décadas sem encostar todos os dedos no piano, emocionou crianças, jovens, adultos e idosos que praticamente lotaram o auditório para prestigiá-lo. 

A inquietação permanente que o levou a tanta superação trouxe aos gaúchos um maestro – que bem podia ser chamado de mestre -, capaz de dividir o próprio brilhantismo com o tenor Jean William, do qual fez questão de compartilhar a história e enaltecer o talento. Um dos maiores intérpretes de Johann Sebastian Bach no século XX, Martins não só encantou no palco, mas cada um dos que o assistiu. Com apoio de luvas biônicas, mostrou como é possível aos 82 anos, ter a mesma alegria e a mesma capacidade de doação que tinha aos oito anos, quando ganhou o primeiro piano do pai.

O mesmo ícone que, aos 19 dias de novembro deste ano, celebrou 60 anos de sua primeira apresentação no Carnegie Hall, em Nova Iorque, regendo a Novus NY, sentou ao piano e conversou com a plateia como se a estivesse recebendo na sala de casa. Contou epopeias, compartilhou sonhos e dificuldades. Relatou a surpresa ao ter espetáculos curtidos por mais de 33 milhões de pessoas na internet, dentre os quais o ator Robert De Niro. Arrancou risos ao confidenciar que, ao ver sua imagem na Times Square, em NY, pensou: “acho que tô ficando bestinha”. Orgulhou-se te ter musicalizado gols do jogador de futebol Lionel Messi, ainda em 2013, com a obra renascentista de Bach. E compartilhou a felicidade em receber, do atleta, um especial agradecimento. “É claro que não preciso dizer a vocês que torci para Messi ganhar esta Copa”, brincou.

O espetáculo foi preparado para a ocasião pelo próprio maestro. Composições clássicas e, em maioria, de domínio popular, retrataram o Natal desde a Idade Média. Partituras extensas, cantos gregorianos e músicas da Renascença dividiram espaço com breves trechos da “Suíte Quebra-Nozes”, além de clássicos como “Amazing Grace” e “Hallelujah”. Obras de Bach e Tchaikovsky foram executadas em meio a melodias conhecidas do mundo do cinema. Foi o próprio e permanente redesenho da vida e da arte de João Carlos Martins, capaz de tocar “Noite Feliz”, de Franz Gruber, depois de contar que, na tarde anterior, havia gravado mais um vídeo que foi publicado na noite de Natal no seu Instagram.


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