Por que uma gaivota? Por que uma fuga? Durante muito tempo acreditei que fossem apenas escolhas poéticas, recursos do teatro para tornar uma narrativa mais bonita. Hoje desconfio do contrário: talvez as metáforas não pertençam à arte, mas à própria vida – e os artistas apenas reconheçam, antes de nós, as imagens capazes de dar forma a experiências que ainda não sabemos nomear.
Uma gaivota nunca é só um pássaro; uma fuga nunca é só um deslocamento.
Foi essa suspeita que me acompanhou depois de assistir no Multipalco Eva Sopher, em poucos dias de diferença, a "Mulher em Fuga" e "dispositivo-gaivota [estilhaços]". As peças são distintas na linguagem e na construção dramatúrgica, mas saí de ambas com a impressão de que dialogavam entre si – não por compartilharem personagens ou temas, mas por confiar na mesma convicção: há perguntas que só se formulam por metáfora, porque há dimensões da experiência humana que recusam definições.
Com os dias, esqueci os enredos. Ficaram uma mulher recuperando a autoria da própria vida, uma gaivota sobrevivendo aos próprios estilhaços, uma chave, uma frase sobre a vergonha. A memória interessa-se menos pelos acontecimentos do que pelas imagens; talvez porque os acontecimentos expliquem o que aconteceu, enquanto as metáforas continuem perguntando o que aquilo significa.
Em "Mulher em Fuga", a protagonista, interpretada por Malu Galli, vive uma existência escrita por outra pessoa. Seria fácil resumir a peça como uma história sobre abuso, maternidade ou liberdade, mas nenhuma dessas palavras alcança o que acontece em cena: alguém recuperando um direito que raramente percebemos quando o perdemos – o de ser autora da própria vida. Há um momento em que ela diz: "chega de ceder". Existem dois modos de ceder: as concessões inevitáveis, que tornam possível qualquer convivência humana, e as concessões silenciosas, que aos poucos deixam de ser escolhas e passam a definir quem somos. Não acordamos, de repente, vivendo a vida de outra pessoa – chegamos lá cedendo um pouco hoje, um pouco amanhã, convencidos de que tudo não passa de um pequeno sacrifício.
Em outro momento, a personagem extraída da obra do escritor francês Édouard Louis afirma que "a vergonha é uma lembrança". O medo desaparece quando o perigo termina. A dor encontra, cedo ou tarde, alguma cicatrização. A vergonha, não – muda de lugar, deixa de habitar o corpo para instalar-se na memória. Talvez seja essa a forma mais persistente da violência: sobreviver como narrativa, muito depois de deixar de existir como fato.
É nesse instante que Virginia Woolf atravessa a peça para lembrar que uma mulher precisa de dinheiro, de um quarto e de uma chave para escrever. A chave permaneceu comigo de um jeito especial – não serve só para abrir portas, serve também para fechá-las.
Uma palavra inesperada me acompanhou na volta para casa: vingança. A personagem sugere que fugir também pode ser uma forma dela – não a de devolver a violência recebida, mas a de interromper uma lógica, deixar de viver segundo a medida de quem a feriu. Antes que eu percebesse, a pergunta já não pertencia a ela: quais seriam, afinal, as minhas vinganças?
"dispositivo-gaivota [estilhaços]" parte de Tchekhov, mas não se limita a revisitá-lo. Faz algo mais arriscado: aceita quebrá-lo, espalha seus fragmentos pelo palco e confia que continuarão produzindo sentido. Trata “A Gaivota” como toda grande obra deveria ser tratada: como matéria viva, capaz de suportar novas perguntas sem perder força. Ao contrário: ela ganha ainda mais vida, mais sentido ao gerar ainda mais provocações. O Coletivo Errática fez isso com muita qualidade: em cada detalhe havia uma intenção. O papel em branco, a tinta azul, as suas interpretações; as luzes que se moviam e geravam novas imagens e perspectivas; o humor mesclado com os dilemas da vida real, a gaivota em um saco de lixo com papéis picados. O sensor de presença que nos reconhece, em um mundo onde podemos passar por dezenas de pessoas sem sermos vistos ou reconhecidos. Quanta metáfora!
Foi na concepção dirigida por Francisco Gick, com Guega Peixoto, Gustavo Dienstmann, Jezebel De Carli, Mani Torres e Nina Picoli, que ouvi uma frase modesta: "É preciso estar aqui, fazer alguma coisa e torcer para dar certo". Ecoou. O que significa "dar certo"? Vivemos cercados por métricas – carreira, patrimônio, produtividade – como se a vida fosse uma sucessão de indicadores de desempenho. Mas conhecemos pessoas realizadas que nunca viveram o que sonharam aos vinte anos, e outras que conquistaram o futuro planejado e ainda assim sentem ter perdido algo pelo caminho. Talvez "dar certo" nunca tenha sido chegar intacto ao destino, e sim aprender a reorganizar os próprios estilhaços.
Foi então que percebi que a mulher que fugia e a gaivota estilhaçada talvez contassem a mesma história. Ambas recusam a ideia de que viver consiste em preservar intacta uma identidade: uma compreende que permanecer pode ser mais violento do que partir; a outra sugere que até um clássico precisa aceitar seus estilhaços para continuar dizendo algo ao presente. Nenhuma celebra a ruptura; ambas confiam na reconstrução – como se viver fosse, menos do que proteger aquilo que fomos, aprender a reorganizar continuamente aquilo que nos tornamos.
Trazidas para o Multipalco Eva Sopher com patrocínio master da Shell, essas duas obras continuam repercutindo em mim muito depois de terminadas. Não porque respondam às perguntas que eu levava ao teatro, mas porque devolveram perguntas melhores. Uma gaivota deixa de ser apenas um pássaro, uma fuga deixa de ser apenas uma partida, e ambas passam a integrar o nosso repertório de metáforas.
Felizmente, uma dessas metáforas ainda terá um novo encontro com o público: "dispositivo-gaivota [estilhaços]" retorna aos palcos de Porto Alegre neste mês de agosto. Se ainda não a viu, vale aceitar o convite e ir nos dias 14 e 15 de agosto.
SERVIÇO
- O QUÊ: “dispositivo-gaivota [estilhaços]“, do Coletivo Errática
- QUANDO: Dias 14 e 15 de agosto, às 19h
- ONDE: Teatro Glênio Peres (avenida Loureiro da Silva, 255 - Centro Histórico, Porto Alegre/RS)
- QUANTO: Ingressos gratuitos, mediante retirada antecipada, das 9h às 17h, de 10 a 14/8, no Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre