"Tragédia da Rua da Praia em Quadrinhos" tem sessão de autógrafos do roteirista Rafael Guimaraens e do ilustrador Edgar Vasques nesta quinta-feira, às 15h30min, na Praça Central da 57ª Feira do Livro de Porto Alegre. Na história, tudo ocorreu em três dias. Às 8h15min de 5 de setembro de 1911, acontece o assalto. Às 8h15min do dia seguinte os bandidos são mortos. Às 8h15min de 7 de setembro, o atendente da casa de câmbio morre no hospital.
Guimaraens descobriu a história há dez anos, quando folheava um exemplar da Folha da Tarde de 1961 para outra pesquisa. Ele deparou-se com a notícia: "Há 50 anos, russos tumultuavam a cidade". Reservou a história para uma reportagem, depois a desenvolveu em pesquisas baseadas nos jornais da época e finalmente criou o livro, lançado em 2005.
A ideia de fazer em quadrinhos veio naturalmente. "É uma história rica em ação, personagens, situações, se presta muito bem aos quadrinhos, que não deixam de ser filmes desenhados. Tanto que, na época, ela já virou filme", diz Guimaraens, referindo-se ao fato de que, enquanto os bandidos ainda eram procurados, Nicola e Humberto Petrelli resolvem fazer um longa-metragem de 14 minutos, numa época que o normal era sete minutos.
No livro de 57 páginas, cada quadrinho, em preto e branco, reúne uma gama de informações. Seja pelas expressões dos rostos, a aparência de cada personagem, os diálogos em cada balão, a arquitetura da cidade, o jeito de falar de cada personagem ou a contextualização histórica, fica clara a síntese, agilidade e beleza do material.
Para o ilustrador, Vasques, o mais difícil na hora de desenhar, era ser fiel ao fato, figuras e cenários reais. Nos traços, ele trabalhou com pena de metal, cabo de pincel e pincel seco. Num jeito muito peculiar, consegue aplicar técnicas de preto e branco com nanquim, e, com a pena, aproveita para ter diferentes espessuras em um mesmo traço, o que uma canetinha técnica não lhe permite. Do computador, não precisou. "Sou mais rápido desenhando à mão", diz.
O crime e as versões
Autor de "O Livrão o Jornalzinho", (infantil, 1997), "Teatro de Arena - Palco da Resistência" (2007) e "A Enchente de 41" (2009), entre outros, Guimaraens anda com outro projeto de livro policial em mente. Trata-se de um crime ocorrido em 1940 e que envolve dois jovens alemães – ele condenado, ela enterrada na Lagoa dos Barros e chamada de "A Noiva do Lago dos Barros".
O que interessa o autor, como "Tragédia da Rua da Praia", é o que uma tragédia suscita. "Um crime rompe o cotidiano, impõe atitudes, que são diferentes em cada pessoa. Me interessa bastante como as mudanças se dão a partir desse fato", diz. Tal visão fica clara em "Rua da Praia". Por exemplo: Coronel Cypriano diz que os suspeitos são anarquistas, provavelmente judeus – e inicia a perseguição a esses religiosos. Já o delegado João Leite faz investigações e conclui, que, pela direção dos tiros, se trata de amadores assustados. Outro policial, delegado Louzada, é durão.
Neste enredo, há ainda explicações políticas e discursos nos jornais e salas oficiais sobre o ocorrido. Como o governo republicano, no auge da luta com os federalistas, estava pressionando camadas sociais, o fato serviu para atacar a postura do governo. Do outro lado, os acusados passaram por anarquistas e judeus e foram sumariamente fuzilados, com ordem oficial para não capturar os assaltantes com vida.
Em um jornal, "A Reforma", o fato é classificado como lamentável e consta que "a consciência da cidade está envergonhada com o selvagem desfile patrocinado pelas autoridades". Em outro, "A Federação", a ação dos policiais é tida como heróica e defende-se que os corpos mereçam ser desfilados pelas ruas. Ao apresentar diferentes versões e olhares sobre um mesmo acontecimento, Guimaraens resgata uma questão: será que as pessoas alteram os fatos, com suas interpretações e posturas? "Não é o fato em si, mas o que gera-se a partir dele o que me interessa", explica.