Para o presidente da Associação de Cineastas do Rio Grande do Sul, Giba Assis Brasil, esse momento faz parte de um ciclo virtuoso necessário para que haja produção audiovisual. Apesar do “boom” no estado ter começado nos anos 70, época em que as produções passaram a ser mais constantes, o volume de material produzido nos últimos anos é um fator inédito. “Até 20 anos atrás eu dava meia dúzia de telefonemas e reunia informação suficiente para prever quantos e quais filmes gaúchos estariam presentes no Festival de Gramado. Hoje, a produção anual é totalmente imprevisível”, afirma.
Os editais governamentais e a lei da TV paga, que exige que os canais exibam três horas e meia semanais de conteúdo nacional, são importantes pilares de sustentação para esse mercado em ebulição. “No momento, parece existir uma compreensão de que a indústria audiovisual contribui para o crescimento do país de diversas formas, que vão do econômico ao cultural”, aponta Tiago Rezende, roteirista e sócio da produtora Verte Filmes. “Enquanto essa noção prevalecer, os realizadores vão seguir melhorando, as produções vão evoluindo e a indústria vai ganhando corpo”, complementa.
Após um período de trabalhos em roteiros não remunerados, recentemente a Verte ganhou sete editais em menos de um ano, e está envolvida em produções tanto de séries quanto em longas de ficção. Apesar disso, Rezende acredita que por aqui, o governo está prestes a entrar em uma fase de retrocesso, com cortes de investimentos no âmbito cultural. “Isso demonstra muita falta de visão do que o audiovisual pode representar na economia, já que esse dinheiro gera trabalho, impostos e consumo, tudo dentro do estado”, avalia.
Um exemplo recente para ilustrar esse panorama é o longa “Em 97 era assim” (foto abaixo), gravado entre janeiro e fevereiro na Capital, e com previsão de lançamento para 2016. Dirigido por Zeca Brito, o filme teve orçamento de R$ 1,2 milhão, e envolveu cerca de 200 pessoas, entre atores, figurantes, equipe técnica, administrativo, etc. Desde a pré-produção até a sua finalização terão sido cinco meses de trabalho para esse grupo de profissionais, todos contratados diretamente pela produtora responsável pelo longa. A terceirização deve ocorrer nas etapas de pós-produção e distribuição, o que deve movimentar mais uma fatia do mercado.
Bruno Krieger, que atua no filme, representa a parcela de pessoas que estão se beneficiando dentro desse cenário. “Nos últimos tempos, novas oportunidades têm aparecido nos mais variados formatos. Temos a chance de participar de obras desafiadoras e que têm alcance e visibilidade necessárias para o meu trabalho”, revela o ator que está há quatro anos no ramo e nos últimos dois vem emendando produções em um ritmo cada vez mais acelerado. “Já fiquei algum tempo parado, mas agora isso não tem mais acontecido”, revela. Durante as gravações de “Em 97 era assim”, por exemplo, ele estava trabalhando simultaneamente no longa “Contos do Amanhã” e fazendo algumas pontas em curtas e na série “Kalunga”. Isso sem falar nas suas diversas participações em comerciais, em um ritmo que chegava até treze horas diárias mergulhado no trabalho.
Outro fator importante do crescimento de mercado dentro da produção audiovisual gaúcha é o aumento da qualificação profissional e, consequentemente, a empregabilidade de um pessoal cada vez mais jovem. “Isso se deve, em partes, à estabilização das faculdades de cinema no estado, que têm pouco mais de dez anos e vêm trazendo bons profissionais para o mercado”, revela Leo Garcia, roteirista, produtor e sócio da Coelho Voador, a primeira produtora de roteiros audiovisuais do Brasil, situada em Porto Alegre.
Através de uma oficina itinerante, que selecionou novos talentos em sete cidades do Rio Grande do Sul, a produtora revelou jovens que hoje estão bastante engajados dentro da cadeia produtiva. “Um elemento bem claro é o fato de que ninguém se profissionaliza totalmente sem poder exercer com afinco e por um bom tempo sua profissão”, afirma Tomás Fleck, revelado pela Coelho Voador em 2012 e que hoje, com apenas 24 anos, já coleciona bons trabalhos no currículo, incluindo a participação no roteiro da série “Werner e os Mortos”, que terá 13 episódios e será gravada este ano em Porto Alegre.
Por outro lado, dentro dessa multiplicidade de produções, bons profissionais e mercado aquecido, Giba Assis Brasil alerta para uma questão a se considerar. Por mais que haja inúmeros filmes e séries de qualidade sendo rodados no RS, todo esse material precisa ganhar espaço em canais de maior prestígio, como salas de cinema e TV aberta que, em contrapartida, são cada vez mais controlados por produtos hegemônicos. “Vamos continuar a fazer filmes e séries diversificados, e provavelmente melhores, mas onde vamos mostrá-los? Essa é a grande questão do momento”, analisa Giba, com critério.