“Levante, resista: Lute pelos seus direitos! Levante, resista: Não desista da luta!” Os versos entoados por Bob Marley há mais de 50 anos continuam reverberando nas casas de Reggae, nos toca-discos e nas playlists de milhares de pessoas ao redor do mundo.
O cantor, nascido em Nine Mile, um vilarejo no interior da Jamaica, teve uma carreira musical meteórica. Em 1962 gravou seu primeiro single “Judge not” (Não julgue) e não parou mais. Quando vivo, foram 12 trabalhos lançados, entre lançamentos solos e com a banda The Wailers. Outros trabalhos foram lançados após sua morte, como o álbum Legend, o mais vendido de Bob, com 25 milhões de cópias, um recorde para o reggae.
Bob foi reconhecido não só musicalmente, mas também através do seu ativismo. Em 1978, em meio à uma guerra civil em seu país, Marley foi condecorado pela ONU com a "Medalha da Paz do Terceiro Mundo". No mesmo ano fez um show histórico na Jamaica, onde reuniu opositores políticos lado a lado. Em 2004, ficou em 11º na lista dos cem maiores artistas de todos os tempos, levantamento feito pela revista Rolling Stone.
O cantor visitou o Brasil em 1980, um ano antes de sua morte, quando se encontrou com cantores como Chico Buarque e Moraes Moreira.
O astro do reggae faleceu precocemente aos 36 anos, em maio de 1981, vítima de um câncer.
Inspiração e exemplo dentro e fora do palco
Nesta quinta-feira, 6 de fevereiro, quando se celebra o aniversário de oito décadas de existência daquele que é considerado o “Pai do Reggae”, artistas da cena nacional e regional contam como Bob, “entrou em suas vidas” e ainda segue sendo inspiração e exemplo até os dias de hoje.
“O Bob Marley tem essa conexão com as gerações. Ele não é uma música passageira, um cometa. Ele é permanente, atravessou o tempo. E eu lá no inicio, quando comecei no Reggae, tinha ele como referência. Até hoje é difícil pensar o Reggae sem pensar Bob Marley”, destaca Paulo Dionísio, vocalista da banda Produto Nacional, umas das percussoras do Reggae no Rio Grande do Sul.
Dionísio ainda lembra com detalhes a primeira vez que ouviu Bob, ainda na adolescência, “Eu conheci o Bob na década de 70, já tinha meus 16, 17 anos. Quem me apresentou o primeiro vinil do Bob Marley foi o Neyzinho, um amigo do IAPI, que é um grande músico, sambista. Um dia ele me encontrou na rua com um monte de vinil embaixo do braço, puxou o álbum Kaya (1978) do Bob e disse: ‘tu tem que escutar isso aqui’. Eu fui para casa, escutei e estou até hoje escutando”, conta, emocionado, o músico.
Quem também começou a ouvir Bob ainda muito cedo foi Marcelo Mira, vocalista da Alma Djém durante um veraneio na praia de Cumbuco, no Ceará. “Eu tinha 15 anos. Quem me apresentou foi um grande amigo de infância. A gente ouvia Bob o dia inteiro. Aquele ritmo combinava com tudo que a gente estava vivendo, de praia, amizade, liberdade. Foi a nossa trilha sonora”, relembra o músico que, a partir dali, começou a pesquisar sobre o cantor jamaicano. “Me surpreendi com as mensagens bem profundas, que iam de encontro com o que eu imaginava ser o melhor para o mundo: justiça, igualdade racial e social, tendo o amor como principal combustível”, ressalta o cantor que lançou em 1997 o primeiro disco da Alma Djém “Um Grito de liberdade”, um mais “roots com mensagens muito próximas das coisas do Bob”, definiu.
Já o cantor Zeider Pires, do Planta e Raiz, trocou o rock pesado, que ouvia até os 13 anos pela suavidade e poesia de Marley e The Wailers, a banda que acompanhava o cantor jamaicano em seus shows. “Eu devia ter uns 13 anos. Eu ouvia muito rock e quando descobri o Bob pensei: tá, é isso, achei a minha música. Tanto pelo ritmo ou pela cadência, mas acho que principalmente pelas mensagens”, conta Pires, que encontrou em Bob o caminho que queria seguir. “Eu comecei ir atrás das traduções e entender que era isso que eu queria para minha vida: usar a música para influenciar as pessoas positivamente. Espalhar a mensagem de Deus e do amor. E foi isso: amor ao primeiro ouvido ao Reggae, ao Bob Marley, grande mestre. Sou o que sou pela influência direta dele. Até hoje eu ouço todas as músicas e todos os discos.”
Na mesma levada, o músico Adonai, da banda Cidade Verde Sounds, explica o que o Pai do Reggae significa para ele. “O Bob para nós é influência máxima. É quase um segundo pai. Muitas coisas que a gente leva para vida, para o dia-a-dia, moldaram nossa forma de pensar através das letras do Bob. Viver de forma mais positiva, mais conectado com a natureza e menos com os problemas da vida cotidiana”, conta o músico que também lembra o lado ativista do cantor. “Teve o lado militante, de lugar pelos nossos direitos, de não deixar se abater. Acho que o Bob deveria ser material de escola para as crianças. Todas as letras dele têm um ensinamento diferente, que todas a pessoas do mundo presariam ouvir”, encerra.
Não só pela poesia ou pelas músicas vibrantes. Bob também se tornou um mensageiro em busca da paz, seja com letras de amor ou com letras mais radicais. “A discriminação racial, o racismo, as questões políticas, as questões espirituais, as questões da matriz africana no sentido religioso. Tudo isso foi colocado nas músicas do Bob, tudo isso, o amor pelas pessoas, o coletivo, o amor como um todo, né? Ele falou muito sobre essas coisas e a tendência é do jeito que as coisas tão indo é que a gente vai esquecendo disso, esquecendo disso, e ainda bem que o Bob existe, porque isso vai ser escutado durante milhões de anos ainda”, lembra Dionísio, que também lamenta o dia 11 de maio de 1981, quando Marley faleceu de câncer. “Foi uma perda irreparável, não só para música mas para o mundo. O Bob Marley ainda tinha muita coisa para fazer”, ressalta.
Mira ainda é mais profundo e faz uma reflexão se Bob estivesse vivo. “O que ele estaria pensando do mundo no auge dos seus 80 anos? Será que está perto do que ele pregou do que ele sonhava?”, fica o questionamento.
Banda Gaúcha faz Tributo ao pai do Reggae
Fundada em 2016, a banda Porto-Alegrense de Reggae Sintonize literalmente bebe na fonte quando o assunto é Bob Marley. O grupo formado por Matheus Machado (vocalista e guitarrista), Gabriel Dallo (baterista e vocalista), Guilherme Rech (guitarrista e vocalista), Arthur Dias (contrabaixo) e Thiago Beck (tecladista) sempre colocou Bob no repertório, mas a grande mudança veio durante a pandemia de Covid-19 em 2020. Impossibilitados de fazerem show, os integrantes pensaram em algo novo quando pudessem retornar ao palcos.
"Estávamos sem data na agenda e sem muita perspectiva, foi aí que pensamos em fazer algum tributo que fosse impactante como uma alternativa para trabalhar mais. E ao pensar nesse tributo não poderia vir outro nome senão o de Bob. A gente montou também (o Tributo) como forma de gratidão, né? Não foi só a necessidade de trabalho", conta Guilherme.
"Tínhamos várias referências, e sempre procuramos valorizar o trabalho das três vozes na banda. Isso foi sempre um fator muito importante e decisivo para as escolhas das músicas dos repertórios. Inclusive para o repertório do Bob. São quase 4, 5 anos amadurecendo e entendendo a estética sonora que tínhamos, para depois mergulhar de cabeça na responsabilidade que é interpretar Bob Marley", complementa Matheus.
E a gente sempre tem essa referência também para a gente cantar um reggae no início totalmente focado e agora mais intencionalmente ainda focado no trio vocal, né? Que começou com o Bob e com Peter Tosh. Então sempre teve esse enfoque na música deles. Algo totalmente influenciado por eles”, ressalta Gabriel.
Um ano depois do Tributo colocado em pé, após meses de produção e ensaio, as coisas começaram a acontecer para a Sintonize. A banda assinou contrato com um empresário e começou a preparar a gravação do Tributo. "A partir dali mudou a nossa perspectiva de como entregar um espetáculo. Ter a responsabilidade de fazer um tributo do Bob Marley num teatro onde a gente nunca tinha tocado. Tínhamos que entregar algo à altura de tudo aqui, né? E principalmente, entregar algo que a gente se sentisse contemplado e Bob Marley também representado”, conta Matheus.
A Gravação do Tributo ocorreu em 2023, com o teatro do CIEE praticamente lotado, em Porto Alegre, e contou com a participação da cantora Tati Portella (Chimarruts) e das gurias da Cinquenta Tons de Preta. O resultado foi festejado pelos integrantes. "Foi bem legal. A gente lançou esse conteúdo no Youtube e tem vídeo com 70 mil visualizações sem nenhum impulsionamento", explica Guilherme.
Em 2025, a banda vai priorizar as músicas do seu novo trabalho que será lançado brevemente, mas promete nunca abandonar Bob. "Inevitavelmente, por mais que os shows sejam autorais, nos deparamos com o Bob no nosso repertório."
Para o dia de hoje, a banda lançará em seu canal mais uma música da gravação do Tributo ao Bob, realizado em 2023. Na comemoração dos 80 anos do Pai do Reggae, os integrantes tentam definir o cantor em suas vidas. “O legado do Bob deixa uma mensagem e uma atitude”, sintetiza Guilherme. “Ele se dedicava e tinha responsabilidade com o que ele fazia e isso acabou transformando ele numa pessoa que representava muitos sonhos, muita luta”, acrescenta Matheus. “Bob é uma inspiração para mim como cantor e também na questão da diversidade sonora. Eles acabaram fazendo com uma música nova com um estilo novo”, encerra Gabriel.
Músico gaúcho cantou e gravou música com filho de Bob
Nem nos melhores sonhos o menino Cléber Silveira Ribeiro, nascido em Barra do Ribeiro, região metropolitana de Porto Alegre, acreditava que um dia dividiria palco com um dos filhos de Bob Marley. Ele, que mais tarde adotaria o nome artístico de Binho Ribeiro, ainda lembra a primeira vez que ouviu Bob e como começou sua paixão pelo músico jamaicano. “Eu tinha uns 8 ou 9 anos. Ganhei o CD Legends (uma coletânea) da minha prima e fiquei fascinado naquilo”, conta. Aos 14 anos, após passar por uma fase mais rock n’roll com a banda de colégio, o músico voltou a tocar Reggae, após ser convidado por um amigo para tocar na banda Rootstock. “Foi quando eu deixei de ouvir Bob para começar a tocar Bob. Foi uma experiência legal.”
Depois disso, o músico se voltou novamente para outros ritmos musicais, como Sambarock e MPB. Bob voltou para sua vida, através do filho Julian, quando este veio se apresentar em Porto Alegre, no Bar Opinião em 2016. “Eu fui visitar minha família e fui no show. Tive a oportunidade de entrar no camarim do Opinião e conhecer eles. Então eu fiz amizade com o Julian Marley, com Aston Barrett (músico que tocou com Bob Marley) e com Aston Barrett Jr nesse dia”.
A partir dali os dois trocavam “likes” pelas redes sociais. Foi durante a pandemia que Binho, audacioso, resolveu chamar o filho de Marley para uma parceria musical. “Eu falei que tinha algumas ideias para compor e, para aproveitar o tempo pandêmico, propus a ideia. Ele disse que toparia se fosse para compormos algo juntos e que era para eu mandar uma ideia para o Aston Barrett Jr.”
Após meses de conversas, Binho compôs junto com o amigo Elivelto Corrêa a canção “Blessed” que foi produzida por Barrett Jr, já com a participação de Julian, que compôs os próprios versos que canta na canção lançada em 2022.
Porém, o melhor ainda iria acontecer no ano seguinte, quando após cancelamento de shows, Binho foi chamado ao palco por Julian, durante o Festival Planeta Brasil em Minas Gerais. “Na última música, o Bob Marley sempre saía do palco correndo, a banda ficava tocando, e depois ele voltava para cantar One Love. E o Julian faz a mesma coisa no show dele. Ele saiu e a produção do show já veio me botando microfone, ponto e falou para mim: – Ó, tu vai entrar agora. E eu: – Como assim, vou entrar agora? E aí eu subo para finalizar o show com ele cantando One Love”, relembra Ribeiro, que ressalta que o contato com Julian abriu muitas portas. “Achava isso impossível. Eu, moleque de Guaíba, gravar uma música com o filho do Bob Marley? E tinha tanta gente na minha frente…”, relata o músico que se emociona ao falar de Bob e de influência do jamaicano na sua vida artística e pessoal.
“Quando eu escuto Bob Marley, quando eu canto, é praticamente uma reza, uma oração. É bem notório que ele não joga palavras ao vento. É notório que ele quer que sua mensagem fosse entregue. Hoje vivemos num mundo tão sem mensagem nas coisas que a gente tá escutando, sabe? Tão fantasioso. E o Bob Marley não fantasiava nas suas letras. Era a realidade que ele viveu, é aquilo que ele enxergava”, pontua.